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Frases da bolsa, testadaspor Vinícius Rosa · 5 min de leitura

"Sell in May and go away" vale na B3?

No Ibovespa, maio a outubro foi o semestre mais fraco. Mas, testada como regra, a vantagem veio do CDI alto, não de maio. E sumiu na prova cega.

"Venda em maio e vá embora."

A frase nasceu no mercado inglês, na época em que os operadores saíam de férias no verão e voltavam só no outono. Atravessou o oceano, virou ditado em Wall Street e, como quase tudo, chegou aqui.

A promessa é sedutora. Uma regra que cabe numa frase. Sem gráfico, sem balanço, sem análise. Só olhar o calendário: em maio você sai, em novembro você volta.

Será que funciona na B3?

Fui testar. E a resposta é mais interessante do que um sim ou um não.

Por que a gente ama uma regra de calendário

O cérebro humano é uma máquina de achar padrão. Foi isso que manteve nossos ancestrais vivos: o barulho no mato, a nuvem escura antes da chuva. Achar padrão onde não existe custava pouco. Não achar onde existia podia custar a vida.

Na bolsa, essa máquina trabalha contra você. O preço é barulhento, e no meio do barulho sempre aparece alguma coisa que parece regra.

Uma regra de calendário tem um charme a mais: dá sensação de controle. Você não precisa entender juros, lucro nem fluxo. Basta saber que mês é. E quando a regra acerta, a memória guarda. Quando erra, a gente esquece. É o viés de confirmação fazendo o trabalho dele.

O retrato ganhou, a regra não

Primeiro, o retrato simples. Peguei o Ibovespa de 1995 a 2026, em pontos (sem dividendos), e comparei os dois semestres.

Período Retorno médio Anos positivos
Maio a outubro +3,0% 63% (de 32 anos)
Novembro a abril +14,0% 84% (de 31 anos)

À primeira vista, a frase ganhou com folga. O semestre de inverno rendeu muito mais, e com muito mais frequência.

Mas tem um cuidado importante aqui. Os anos 1990 pesam muito nessa média. Era uma época de inflação ainda alta, câmbio instável e crises em série, com movimentos enormes concentrados em poucos meses. Uma média de 31 ou 32 anos é puxada com força por meia dúzia de anos extremos.

Então fiz o teste do jeito que importa: como regra. No Laboratório do Quantor, de 2006 a 2026, com o Ibovespa dia a dia, simulei alguém que fica comprado de novembro a abril e deixa o dinheiro no CDI de maio a outubro.

De 2006 a 2026 Ao ano
Sell in May (CDI de maio a outubro) +12,3%
Ibovespa o ano todo +8,6%
CDI o ano todo +10,2%

Ganhou dos dois. Parece fechado.

Não está.

Quando olhei o retorno por dia, os dias de novembro a abril renderam um pouco mais que os de maio a outubro, mas a diferença foi pequena e não passou no teste de acaso. Ou seja: daria para ver uma diferença desse tamanho só por sorte. Medido em pontos-base, que são centésimos de 1%, foram 7,0 contra 2,4 por dia. Pouco, e instável.

Então de onde veio o +12,3%?

Do CDI. Nesses vinte anos, o CDI brasileiro foi alto e o Ibovespa, sem dividendos, rendeu pouco. Qualquer estratégia que deixasse metade do ano no CDI teria dado resultado parecido. Não precisava ser maio. Podia ser qualquer meio ano.

E teve a prova final. O Laboratório separou os dados em duas partes: desenvolveu os testes em 2006–2016 e conferiu em 2017–2026, num período que a regra nunca tinha visto. É o que eu chamo de prova cega. O Sell in May não se confirmou em nenhuma das duas metades. Fazendo o mesmo com uma carteira das ações líquidas com peso igual, também não.

E ele não foi o único. Foram 20 testes de calendário: janeiro, rali de fim de ano, virada do mês, segunda-feira, véspera de feriado. Nenhum efeito de calendário se repetiu na prova cega.

Quem saiu em maio viu a bolsa subir de fora

Seria desonesto dizer que maio a outubro foi igual a novembro a abril. Na média longa do Ibovespa, não foi. O semestre de inverno foi mais forte.

Mas média histórica e regra que dá para seguir são coisas diferentes.

Quem saiu em maio deixou passar muita alta. O Ibovespa subiu entre maio e outubro em 63% dos anos. Em quase dois de cada três anos, quem foi embora viu a bolsa subir de fora.

Trocar duas vezes por ano tem custo. Corretagem, diferença entre preço de compra e venda e, principalmente, imposto sobre o lucro na hora de vender. O teste do Laboratório não desconta nada disso.

Quanto mais regras você testa, mais alguma parece funcionar por acaso. Teste vinte efeitos de calendário e é quase certo que um ou dois vão parecer bons no passado. Por isso a prova cega importa tanto. O que é real costuma sobreviver a ela. O que é coincidência costuma sumir.

Foi a regra ou foi o CDI?

  • Eu desconfio de regra que cabe numa frase e não pergunta nada sobre o mercado.
  • Quando uma estratégia "bate o Ibovespa" passando metade do tempo no CDI, eu pergunto: foi a regra ou foi o CDI?
  • O calendário não sabe se a empresa está lucrando, se os juros estão subindo ou se o dinheiro está saindo do Brasil. O preço sabe mais do que o mês.
  • Antes de acreditar num padrão, eu quero ver ele funcionar num período que ele nunca viu.

Respondendo à pergunta do título: no retrato do Ibovespa, maio a outubro foi mais fraco. Como regra para seguir, nos testes, não se sustentou.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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