"Sell in May and go away" vale na B3?
No Ibovespa, maio a outubro foi o semestre mais fraco. Mas, testada como regra, a vantagem veio do CDI alto, não de maio. E sumiu na prova cega.

"Venda em maio e vá embora."
A frase nasceu no mercado inglês, na época em que os operadores saíam de férias no verão e voltavam só no outono. Atravessou o oceano, virou ditado em Wall Street e, como quase tudo, chegou aqui.
A promessa é sedutora. Uma regra que cabe numa frase. Sem gráfico, sem balanço, sem análise. Só olhar o calendário: em maio você sai, em novembro você volta.
Será que funciona na B3?
Fui testar. E a resposta é mais interessante do que um sim ou um não.
Por que a gente ama uma regra de calendário
O cérebro humano é uma máquina de achar padrão. Foi isso que manteve nossos ancestrais vivos: o barulho no mato, a nuvem escura antes da chuva. Achar padrão onde não existe custava pouco. Não achar onde existia podia custar a vida.
Na bolsa, essa máquina trabalha contra você. O preço é barulhento, e no meio do barulho sempre aparece alguma coisa que parece regra.
Uma regra de calendário tem um charme a mais: dá sensação de controle. Você não precisa entender juros, lucro nem fluxo. Basta saber que mês é. E quando a regra acerta, a memória guarda. Quando erra, a gente esquece. É o viés de confirmação fazendo o trabalho dele.
O retrato ganhou, a regra não
Primeiro, o retrato simples. Peguei o Ibovespa de 1995 a 2026, em pontos (sem dividendos), e comparei os dois semestres.
| Período | Retorno médio | Anos positivos |
|---|---|---|
| Maio a outubro | +3,0% | 63% (de 32 anos) |
| Novembro a abril | +14,0% | 84% (de 31 anos) |
À primeira vista, a frase ganhou com folga. O semestre de inverno rendeu muito mais, e com muito mais frequência.
Mas tem um cuidado importante aqui. Os anos 1990 pesam muito nessa média. Era uma época de inflação ainda alta, câmbio instável e crises em série, com movimentos enormes concentrados em poucos meses. Uma média de 31 ou 32 anos é puxada com força por meia dúzia de anos extremos.
Então fiz o teste do jeito que importa: como regra. No Laboratório do Quantor, de 2006 a 2026, com o Ibovespa dia a dia, simulei alguém que fica comprado de novembro a abril e deixa o dinheiro no CDI de maio a outubro.
| De 2006 a 2026 | Ao ano |
|---|---|
| Sell in May (CDI de maio a outubro) | +12,3% |
| Ibovespa o ano todo | +8,6% |
| CDI o ano todo | +10,2% |
Ganhou dos dois. Parece fechado.
Não está.
Quando olhei o retorno por dia, os dias de novembro a abril renderam um pouco mais que os de maio a outubro, mas a diferença foi pequena e não passou no teste de acaso. Ou seja: daria para ver uma diferença desse tamanho só por sorte. Medido em pontos-base, que são centésimos de 1%, foram 7,0 contra 2,4 por dia. Pouco, e instável.
Então de onde veio o +12,3%?
Do CDI. Nesses vinte anos, o CDI brasileiro foi alto e o Ibovespa, sem dividendos, rendeu pouco. Qualquer estratégia que deixasse metade do ano no CDI teria dado resultado parecido. Não precisava ser maio. Podia ser qualquer meio ano.
E teve a prova final. O Laboratório separou os dados em duas partes: desenvolveu os testes em 2006–2016 e conferiu em 2017–2026, num período que a regra nunca tinha visto. É o que eu chamo de prova cega. O Sell in May não se confirmou em nenhuma das duas metades. Fazendo o mesmo com uma carteira das ações líquidas com peso igual, também não.
E ele não foi o único. Foram 20 testes de calendário: janeiro, rali de fim de ano, virada do mês, segunda-feira, véspera de feriado. Nenhum efeito de calendário se repetiu na prova cega.
Quem saiu em maio viu a bolsa subir de fora
Seria desonesto dizer que maio a outubro foi igual a novembro a abril. Na média longa do Ibovespa, não foi. O semestre de inverno foi mais forte.
Mas média histórica e regra que dá para seguir são coisas diferentes.
Quem saiu em maio deixou passar muita alta. O Ibovespa subiu entre maio e outubro em 63% dos anos. Em quase dois de cada três anos, quem foi embora viu a bolsa subir de fora.
Trocar duas vezes por ano tem custo. Corretagem, diferença entre preço de compra e venda e, principalmente, imposto sobre o lucro na hora de vender. O teste do Laboratório não desconta nada disso.
Quanto mais regras você testa, mais alguma parece funcionar por acaso. Teste vinte efeitos de calendário e é quase certo que um ou dois vão parecer bons no passado. Por isso a prova cega importa tanto. O que é real costuma sobreviver a ela. O que é coincidência costuma sumir.
Foi a regra ou foi o CDI?
- Eu desconfio de regra que cabe numa frase e não pergunta nada sobre o mercado.
- Quando uma estratégia "bate o Ibovespa" passando metade do tempo no CDI, eu pergunto: foi a regra ou foi o CDI?
- O calendário não sabe se a empresa está lucrando, se os juros estão subindo ou se o dinheiro está saindo do Brasil. O preço sabe mais do que o mês.
- Antes de acreditar num padrão, eu quero ver ele funcionar num período que ele nunca viu.
Respondendo à pergunta do título: no retrato do Ibovespa, maio a outubro foi mais fraco. Como regra para seguir, nos testes, não se sustentou.
