Quando tudo cai junto: correlação e crise
Em 2008, 92% das ações líquidas da B3 caíram no ano. Na crise, ter muitas ações ajuda pouco; o que ajudou foi o que andou para o outro lado.

Você fez tudo certo.
Quinze ações. Banco, elétrica, varejo, mineração, saneamento. Setores diferentes, empresas diferentes, histórias diferentes. "Diversifiquei", você pensa. "Se uma cair, as outras seguram."
Aí vem a crise.
E as quinze caem no mesmo dia. Juntas. Como se fossem uma ação só.
É a sensação mais traiçoeira da bolsa: a diversificação funciona o ano inteiro e some justamente no dia em que você mais precisava dela.
Por que, na crise, tudo vira uma coisa só
Existe uma medida para isso: correlação. Ela vai de −1 a +1 e diz se duas coisas andam juntas. Perto de +1, sobem e caem no mesmo compasso. Perto de zero, cada uma faz a sua vida. Perto de −1, quando uma sobe, a outra cai.
Num dia comum, cada ação tem a sua história. O banco reage aos juros, a mineradora ao minério, a varejista ao consumo. As correlações ficam no meio do caminho, e a diversificação faz o seu trabalho.
Na crise, a história muda de dono. O que mexe no preço deixa de ser a empresa e passa a ser o medo.
Pensa em quem movimenta a B3: o investidor estrangeiro respondeu por 57,2% do volume entre 2022 e 2026. Quando ele decide tirar dinheiro do Brasil, não vende "a varejista ruim". Vende o que tem na mão, o que tem liquidez, o que dá para vender rápido. Ação boa e ação ruim saem pela mesma porta.
Por isso existem tipos diferentes de queda. Tem a queda normal, a respiração de uma ação que está subindo. Tem a queda de ciclo errado, quando a empresa piora e o preço acompanha. E tem a queda sistêmica: o mercado inteiro desaba, e quase nada escapa. Nessa última, escolher bem as empresas ajuda pouco.
Em 2008, nove em cada dez caíram
Na base do Quantor, olhei as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia e contei quantas caíram em cada ano de crise.
| Ano | Ações que caíram no ano | Caíram mais de 20% |
|---|---|---|
| 2008 | 92% | 79% |
| 2015 | 67% | 46% |
| 2020 | 60% | 34% |
| 2021 | 66% | 42% |
| 2024 | 81% | 52% |
Em 2008, nove em cada dez ações caíram. Com quinze ações ou com quarenta, o resultado seria parecido.
E os dias de pânico são violentos. Na pandemia, o Ibovespa foi de 119.528 pontos, em 23 de janeiro de 2020, para 63.570, em 23 de março: −47% em dois meses. No meio do caminho, dias de −12,2%, −14,8%, −13,9% e −10,3%.
Nem os refúgios clássicos dentro da bolsa seguraram sempre. As ações que mais pagavam dividendos caíram menos em 2008 (−29% contra −56% das outras, na mediana) e em 2024 (−9% contra −27%). Em 2020, não protegeram: −11% contra −7%. O setor elétrico teve pior queda de −32% no período todo; o saneamento, também perene, chegou a −60%.
Então, se ter mais ações não resolve, o que andou para o outro lado?
No Brasil, a resposta mais consistente foi o dólar. De 2003 a 2026, em 256 meses, a correlação entre dólar e Ibovespa foi de −0,59. Forte e inversa.
- Nos meses em que o dólar subiu 3% ou mais, o Ibovespa caiu 4,5% em média e só fechou positivo em 22% das vezes (60 meses).
- Nos meses em que o dólar caiu 3% ou mais, o Ibovespa subiu 6,3% em média (51 meses).
E nas crises:
| Período | Dólar | Ibovespa |
|---|---|---|
| jul/2008 → fev/2009 | +49% | −36% |
| 2015 | +48% | −8% |
| jan → abr/2020 | +26% | −29% |
Quando a bolsa mais doeu, o dólar foi justamente o que subiu.
Todo seguro tem mensalidade
Proteção custa caro no tempo. De 2006 a 2026, o dólar rendeu +4,4% ao ano. O CDI, +10,2%. Quem carregou dólar o tempo todo como seguro pagou um preço alto nos anos calmos. Seguro que você paga todo mês e quase nunca usa.
A correlação é uma média, não uma promessa. −0,59 é forte, mas não é −1. Mesmo nos meses de dólar subindo forte, a bolsa fechou positiva em 22% das vezes. E nada garante que a próxima crise siga o roteiro das anteriores.
Crise também passa rápido. Depois do fundo de março de 2020, o Ibovespa subiu 78% em 12 meses e voltou ao topo em janeiro de 2021. Quem vendeu tudo no pânico e esperou "a poeira baixar" pode ter perdido a volta inteira. Nos testes, nem a régua mensal se deu bem em 2020: −5% no ano, contra +2% de quem segurou. A queda e a volta foram rápidas demais para uma régua de mês.
Mas em crises longas, sair do caminho fez muita diferença. Em 2008, segurando as ações líquidas com peso igual, a queda foi de −46% no ano. Com a régua e o dinheiro no CDI quando ela estava para baixo, −4%.
Coisas que não caem pelo mesmo motivo
- Diversificar entre ações me protege do erro de uma empresa. Não me protege do dia em que o Brasil inteiro é vendido.
- Na crise, eu não conto com "as boas vão segurar". Os números dizem que quase todas caem.
- O que andou ao contrário da bolsa, aqui, foi o dólar. Mas ele cobra caro para ficar parado na carteira, e isso entra na conta.
- Eu prefiro saber antes o que faço quando tudo cai junto. Na hora, a cabeça não decide bem.
Diversificação de verdade não é ter muitas coisas. É ter coisas que não caem pelo mesmo motivo.
