Como dividir a carteira olhando o risco, não só o retorno
Na B3, as ações mais calmas renderam mais e caíram menos que as mais agitadas. E o número de papéis mudou o tamanho do desastre, não a média.

Quase todo mundo monta a carteira com a pergunta errada.
"Quanto isso pode render?"
A pergunta que deveria vir antes é outra: quanto isso pode cair, e eu aguento ver?
Porque a carteira não quebra no dia em que rende pouco. Ela quebra no dia em que cai tanto que você desiste. Vende no fundo, jura que bolsa não é para você, e o plano de vinte anos termina em oito meses.
Dividir a carteira olhando o risco é só isso: decidir antes quanto vai em cada coisa pensando no tamanho do tombo possível, e não só no tamanho do sonho.
Por que a cabeça só enxerga o retorno
Retorno é fácil de imaginar. Você vê o gráfico de quem multiplicou o dinheiro, faz a conta de cabeça, e o cérebro já gastou o lucro.
Risco é abstrato. Uma queda de 50% numa planilha é um número. Na vida real é abrir o aplicativo e ver metade do que você juntou sumir. E continuar vendo isso, todo dia, por meses.
Isso tem nome: viés de otimismo. A gente acha que as coisas ruins acontecem com os outros. Junto vem o excesso de confiança: "eu escolhi bem, a minha não cai tanto".
Aí a pessoa coloca o mesmo valor em todas as ações, como se fossem iguais. Não são. Uma elétrica centenária e uma empresa pequena que dobra e cai pela metade no mesmo ano podem estar na carteira com o mesmo peso em reais. Mas uma balança o barco muito mais que a outra.
Essa balançada tem nome técnico: volatilidade. É o quanto o preço sobe e desce no caminho. Pensa num velocímetro. Ele não diz para onde o carro vai. Diz o quanto ele chacoalha até chegar lá. E quem chacoalha mais assusta mais, e faz mais gente pular do carro no meio da estrada.
Mais risco não pagou mais retorno
Fui olhar na base do Quantor: ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia, de 2006 a 2026, sem deixar de fora as que quebraram. Todo mês, separei as ações em cinco grupos do mesmo tamanho, da menos volátil para a mais volátil, com peso igual dentro de cada grupo.
| Grupo | Ao ano | Pior queda |
|---|---|---|
| 20% mais calmas | +15,3% | −37% |
| 2º grupo | +13,1% | −40% |
| 3º grupo | +7,7% | −53% |
| 4º grupo | +7,0% | −51% |
| 20% mais agitadas | −3,7% | −84% |
Isso contraria uma ideia que muita gente repete: a de que mais risco "paga" mais retorno. Na B3, nesses vinte anos, não pagou. As mais calmas renderam mais e caíram menos. As mais agitadas perderam dinheiro no período inteiro e chegaram a cair 84%.
E queda de 84% não é "um susto". Uma ação que cai 80% precisa subir 400% só para voltar ao ponto de partida. Nessa altura, já não é paciência. É milagre.
Agora o segundo pedaço da divisão: quantas ações. Sorteei 2.000 carteiras, com peso igual, e deixei cada uma rodar cinco anos.
| Ações na carteira | Carteiras que perderam dinheiro em 5 anos |
|---|---|
| 1 | 32% |
| 3 | 21% |
| 5 | 15% |
| 10 | 9% |
| 20 | 5% |
| 40 | 2% |
O resultado do meio, a mediana, quase não mudou: de +44% com uma ação para +57% com quarenta. O que mudou foi o tamanho do desastre possível. Com uma ação só, as 10% piores carteiras perderam 68%. Com dez ações, as 10% piores ainda terminaram com +2%.
Diversificar não aumentou o retorno típico. Cortou a cauda ruim.
E repara no formato da tabela. De 1 para 10 ações, o risco de terminar no prejuízo despencou. De 20 para 40, mudou pouco. Cada ação nova ajuda menos que a anterior.
Juntando as duas tabelas, a lógica fica clara. Volatilidade diz quanto cada peça balança. O número de peças diz quanto um erro isolado consegue te machucar. Uma carteira montada só pelo retorno ignora as duas coisas.
Calmaria de ontem não é promessa
Seria fácil transformar isso numa receita. Não é.
Calmaria de ontem não garante calmaria amanhã. A volatilidade é medida no passado. Empresa muda, setor muda. O saneamento, por exemplo, é um setor perene, daqueles que todo mundo chama de defensivo. Na média do setor, chegou a cair 60% no período.
Diversificar tira o risco de cada empresa, não o do mercado inteiro. Em 2008, 92% das ações líquidas da B3 caíram no ano. Quarenta ações não te protegeram disso. Esse risco, o de tudo cair junto, só diminui com coisas que andam de forma diferente da bolsa, e esse é assunto para outro texto.
Sortear muitas ações não é método. Nas carteiras sorteadas, bater o CDI aconteceu entre 45% e 50% das vezes, com 1 ação ou com 40. Diversificar reduz o tamanho do estrago. Não escolhe as ações por você.
E um cuidado de leitura: os grupos são carteiras teóricas, refeitas todo mês, sem custo de corretagem nem imposto. Servem para mostrar a direção, não para prometer número.
A carteira que você consegue segurar
- Antes de perguntar quanto pode render, eu pergunto quanto pode cair. E se eu aguentaria ver isso sem vender no pior momento.
- Eu não trato toda ação como igual. A que balança mais, para mim, merece menos dinheiro do que a que balança menos. A regra é minha, definida antes.
- Uma ação só é aposta. Entre 10 e 20 papéis, o ganho de colocar mais um quase some.
- Diversificar me protege do erro de uma empresa. Não me protege da crise.
Carteira boa não é a que mais rende no papel. É a que você consegue segurar até o fim.
