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Do livro O Investidor de Fluxopor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

Liquidez: a ação que você não consegue vender

Ações pouco negociadas não renderam mais nem menos em 20 anos de B3. O risco delas não aparece na média: aparece no dia em que você precisa sair.

Comprar é fácil. Sempre tem alguém querendo vender.

O problema aparece no dia em que você quer sair.

Você coloca a ordem de venda e ela fica lá, parada. Ninguém do outro lado. Você baixa o preço um pouco. Nada. Baixa mais. Sai metade. O resto fica pendurado.

E você descobre, do jeito mais caro, uma coisa que ninguém conta quando a ação está subindo: o preço que aparece na tela não é o preço que você consegue de verdade.

O que é liquidez, sem complicar

Liquidez é a facilidade de transformar a ação em dinheiro sem mexer no preço.

Uma ação muito negociada tem milhares de pessoas comprando e vendendo o tempo todo. Você vende mil, dez mil ações, e o preço quase não se mexe. Alguém sempre está ali.

Uma ação pouco negociada é como uma casa num bairro onde ninguém quer morar. Pode estar avaliada em R$ 500 mil. Mas, se você precisar vender em uma semana, o preço que vai aparecer é outro.

Na bolsa, isso tem duas caras.

A primeira é a diferença entre quem compra e quem vende. Numa ação líquida, o melhor comprador paga R$ 50,00 e o melhor vendedor pede R$ 50,02. Numa ação ilíquida, pode ser R$ 50,00 de um lado e R$ 50,50 do outro. Só para entrar e sair, você já deixou 1% na mesa.

A segunda cara é pior: o dia em que o lado de quem compra simplesmente some.

Por que a cabeça ignora isso

Porque a liquidez só dói na saída. E na hora da compra, ninguém está pensando em sair.

A cabeça está ocupada com a história. A empresa pequena que "ninguém descobriu ainda". O papel que "o mercado não está vendo". A ação esquecida que vai multiplicar quando alguém reparar nela.

E tem uma ironia nisso. A mesma falta de gente que deixa a ação "esquecida" é a que vai te prender nela.

A gente também confunde preço parado com preço estável. Ação ilíquida às vezes passa dias sem negociar quase nada, e o gráfico fica bonito, quietinho. Não é calma. É ausência. Basta um vendedor apressado para o preço despencar, porque não tem ninguém ali para segurar.

Ficar preso não pagou prêmio

Existe uma teoria famosa de que ações menos negociadas deveriam render mais, como pagamento pelo incômodo de não conseguir sair. Fui ver se isso aconteceu na B3.

Na base do Quantor, de 2006 a 2026, peguei todas as ações com pelo menos R$ 1 milhão negociado por dia, sem deixar de fora as que quebraram, e separei em cinco grupos, do menos negociado para o mais negociado. Carteiras com peso igual, refeitas todo mês.

Grupo de liquidez Retorno ao ano Pior queda
20% menos negociadas +9,9% −59%
Segundo grupo +7,2% −62%
Grupo do meio +8,2% −56%
Quarto grupo +9,0% −45%
20% mais negociadas +7,0% −51%

Vou ser honesto: aqui não tem prêmio claro nenhum.

O grupo menos negociado rendeu um pouco mais que o mais negociado, mas o segundo grupo rendeu menos que todos, e a ordem não forma escada. É barulho. Nem a teoria do "ilíquido rende mais" nem a do "ilíquido rende menos" apareceram com força.

E agora o detalhe importante. Esse teste supõe que você comprava e vendia exatamente pelo preço de fechamento, todo mês, sem pagar nada por isso. Para as ações mais negociadas, isso é quase verdade. Para as menos negociadas, não é. Ali você pagaria a diferença entre comprador e vendedor, e em mês de pânico talvez nem conseguisse vender.

Ou seja: o risco de não conseguir vender não aparece na média. A tabela mostra o que teria acontecido num mundo onde sempre tem alguém do outro lado.

E esse custo pesa. Com as ações acima de R$ 5 milhões por dia, de 2006 a setembro de 2026, a régua mensal do Quantor com o dinheiro no CDI quando fora rendeu +13,2% ao ano sem custo nenhum. Pagando 0,5% por troca, caiu para +11,6%. Pagando 1%, para +10,0%. Um custo de 1% por troca, o tipo de diferença entre comprador e vendedor que aparece em ação pouco negociada, teria levado 3,2 pontos por ano do resultado.

Tamanho não é a mesma coisa, mas anda junto

Muita ação pouco negociada também é de empresa pequena. E a base mostra outra coisa interessante quando a gente separa pelo valor de mercado, com o mesmo corte de R$ 1 milhão por dia:

Grupo de tamanho Retorno ao ano Pior queda
20% menores +0,5% −71%
20% maiores +8,0% −34%

As menores não renderam mais. Caíram muito mais.

A história da pequena empresa esquecida que vai multiplicar existe. Mas, na média de 20 anos, ela foi a exceção que a gente lembra, não a regra que a gente viveu.

Fácil de vender não é ser boa

Liquidez não é virtude por si só.

As ações mais negociadas da tabela renderam +7,0% ao ano, menos que o CDI do período. Ser fácil de vender não faz uma ação boa. Só faz uma ação fácil de vender.

E a liquidez muda. Uma ação pode ser super negociada hoje e, depois de uma crise, de uma recuperação judicial ou de uma saída do índice, ficar esquecida. O volume que você viu na compra não é garantia do volume que vai existir na venda.

Também não existe número mágico. Quem investe R$ 10 mil tem uma necessidade. Quem investe R$ 5 milhões tem outra. O que importa é a relação entre o tamanho da sua posição e o que a ação negocia por dia. Se você precisaria de vários dias de volume inteiro para sair, você não tem uma ação. Tem uma armadilha bonita.

A ação que sai numa manhã ruim

  • Antes de comprar, eu olho quanto a ação negocia por dia. E penso na saída, não só na entrada.
  • Eu desconfio de gráfico quietinho em papel pouco negociado.
  • Eu não espero prêmio por ficar preso. Nos dados da B3, ele não apareceu.
  • Na dúvida, eu prefiro a ação que eu consigo vender numa manhã ruim.
Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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Conteúdo educacional. Os números vêm da base própria do Quantor e descrevem o que aconteceu, não prometem o que vai acontecer.

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