"Janeiro define o ano"? O que 30 anos de Ibovespa respondem
Janeiro acertou a direção do resto do ano em 20 de 30 anos. Parece muito, até você ver quanto acertaria quem chutasse sempre alta.

Todo começo de ano é igual.
Janeiro termina, o Ibovespa fechou no positivo, e a frase aparece no grupo da família, no vídeo do influenciador, no comentário do analista: "como vai janeiro, vai o ano".
Se janeiro foi bom, o ano promete. Se foi ruim, é melhor se preparar.
É uma ideia confortável. Um mês só e você já sabe o que esperar dos outros onze. Fui ver se ela se sustenta.
Por que a gente quer que janeiro diga alguma coisa
A primeira impressão pesa demais na cabeça humana. Você conhece alguém, forma uma opinião em minutos e passa meses tentando confirmá-la. Com o ano é igual.
Isso tem nome: ancoragem. O primeiro número que aparece vira a referência de tudo o que vem depois. Janeiro positivo vira "ano bom". E aí entra o viés de confirmação: cada notícia boa de fevereiro parece prova, cada notícia ruim parece exceção.
E tem um terceiro ingrediente, mais sutil. A gente lembra dos anos em que a frase acertou, porque eles viram história. "Viu? Eu falei." Os anos em que ela errou passam em silêncio. Ninguém comenta em dezembro que janeiro tinha apontado o lado errado.
67% de acerto contra o chute de sempre alta
Peguei os 30 anos completos do Ibovespa, de 1996 a 2025, em pontos (sem dividendos), e fiz a pergunta mais direta possível: o sinal de janeiro, alta ou queda, foi o mesmo do resto do ano, de fevereiro a dezembro?
Janeiro acertou em 20 de 30 anos. 67%.
À primeira vista, parece bom. Dois terços de acerto, com um mês de informação.
Mas todo acerto precisa de uma comparação. A pergunta certa não é "acertou quanto?". É "acertou mais do que o quê?".
Cara ou coroa acertaria metade das vezes, 15 de 30. Janeiro foi um pouco melhor que isso.
Só que existe um chute ainda mais simples, que nem precisa olhar janeiro: dizer sempre que vem alta. Nesses mesmos 30 anos, o período de fevereiro a dezembro fechou no positivo 18 vezes (e o ano inteiro, 19).
| Jeito de "prever" o ano | Acertos em 30 anos |
|---|---|
| Cara ou coroa | cerca de 15 |
| Chutar sempre alta | 18 |
| Olhar janeiro | 20 |
Dois anos de diferença. Em trinta.
A bolsa sobe mais vezes do que cai, então qualquer regra que aposte em alta com frequência já começa acertando bastante. Janeiro não descobriu nada que o próprio histórico do índice já não dissesse. Acertou dois anos a mais que o chute mais preguiçoso possível. Com uma amostra desse tamanho, isso pode ser só acaso.
E o próprio janeiro? Será que ele é um mês especial, que sobe mais? No Laboratório do Quantor, de 2006 a 2026, comparei os dias de janeiro com os outros dias do ano. Em média, um dia de janeiro subiu um pouco mais que um dia comum, mas a diferença não passou no teste de acaso, nem no período de 2006 a 2016, nem no de 2017 a 2026. Foi um dos 20 efeitos de calendário testados. Nenhum se repetiu quando foi conferido num período que ele nunca tinha visto.
Por que um mês diz tão pouco
Um mês é curto demais para carregar o ano nas costas.
O Ibovespa fechou positivo em 59% de todos os meses. Ou seja: mês bom e mês ruim se alternam o tempo todo, mesmo nos anos que terminam bem. Um janeiro no vermelho pode ser só um mês no vermelho.
E o que define o ano costuma aparecer depois de janeiro. A pandemia é o exemplo mais claro: o Ibovespa fez topo em 23 de janeiro de 2020, a 119.528 pontos, e chegou a 63.570 em 23 de março. Uma queda de 47% em dois meses que nenhum janeiro poderia anunciar. Em 2008, a quebra que derrubou o mundo veio em setembro e outubro.
Existe, sim, uma ideia verdadeira escondida na frase: tendência importa. Nas ações da B3, de 2006 a 2026, as que mais tinham caído em 12 meses continuaram ruins no mês seguinte (−3,6% ao ano, em média), e as que mais tinham subido seguiram melhores (+12,9%). Mas repara: são 12 meses de direção, não um mês só. Tendência é o que se repete por um tempo. Um mês isolado é barulho.
Um ano em cada três do lado errado
Também não dá para dizer que janeiro não serve para nada. Em 20 de 30 anos, ele apontou o lado certo. Se você só quer uma conversa de bar, a frase não é absurda.
O problema começa quando ela vira decisão. Se janeiro foi negativo e você zera a carteira esperando um ano ruim, está apostando dinheiro de verdade numa regra que, no fim das contas, acertou só um pouco mais do que dizer "a bolsa sobe" e ir dormir.
E dez erros em trinta anos não são poucos. Um em cada três anos, quem seguiu janeiro estaria do lado errado o ano inteiro.
Acertou comparado com o quê?
- Antes de me impressionar com um acerto, eu pergunto: comparado com o quê?
- Um mês de preço, para mim, é barulho. Tendência é o que se sustenta por meses.
- Se uma regra acerta quase o mesmo que o chute mais simples, ela não está me dizendo nada novo.
- Eu prefiro decidir pelo que o preço está fazendo agora do que pelo que ele fez em janeiro.
Janeiro não define o ano. Na melhor das hipóteses, faz parte dele.
