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Frases da bolsa, testadaspor Vinícius Rosa · 5 min de leitura

"Janeiro define o ano"? O que 30 anos de Ibovespa respondem

Janeiro acertou a direção do resto do ano em 20 de 30 anos. Parece muito, até você ver quanto acertaria quem chutasse sempre alta.

Todo começo de ano é igual.

Janeiro termina, o Ibovespa fechou no positivo, e a frase aparece no grupo da família, no vídeo do influenciador, no comentário do analista: "como vai janeiro, vai o ano".

Se janeiro foi bom, o ano promete. Se foi ruim, é melhor se preparar.

É uma ideia confortável. Um mês só e você já sabe o que esperar dos outros onze. Fui ver se ela se sustenta.

Por que a gente quer que janeiro diga alguma coisa

A primeira impressão pesa demais na cabeça humana. Você conhece alguém, forma uma opinião em minutos e passa meses tentando confirmá-la. Com o ano é igual.

Isso tem nome: ancoragem. O primeiro número que aparece vira a referência de tudo o que vem depois. Janeiro positivo vira "ano bom". E aí entra o viés de confirmação: cada notícia boa de fevereiro parece prova, cada notícia ruim parece exceção.

E tem um terceiro ingrediente, mais sutil. A gente lembra dos anos em que a frase acertou, porque eles viram história. "Viu? Eu falei." Os anos em que ela errou passam em silêncio. Ninguém comenta em dezembro que janeiro tinha apontado o lado errado.

67% de acerto contra o chute de sempre alta

Peguei os 30 anos completos do Ibovespa, de 1996 a 2025, em pontos (sem dividendos), e fiz a pergunta mais direta possível: o sinal de janeiro, alta ou queda, foi o mesmo do resto do ano, de fevereiro a dezembro?

Janeiro acertou em 20 de 30 anos. 67%.

À primeira vista, parece bom. Dois terços de acerto, com um mês de informação.

Mas todo acerto precisa de uma comparação. A pergunta certa não é "acertou quanto?". É "acertou mais do que o quê?".

Cara ou coroa acertaria metade das vezes, 15 de 30. Janeiro foi um pouco melhor que isso.

Só que existe um chute ainda mais simples, que nem precisa olhar janeiro: dizer sempre que vem alta. Nesses mesmos 30 anos, o período de fevereiro a dezembro fechou no positivo 18 vezes (e o ano inteiro, 19).

Jeito de "prever" o ano Acertos em 30 anos
Cara ou coroa cerca de 15
Chutar sempre alta 18
Olhar janeiro 20

Dois anos de diferença. Em trinta.

A bolsa sobe mais vezes do que cai, então qualquer regra que aposte em alta com frequência já começa acertando bastante. Janeiro não descobriu nada que o próprio histórico do índice já não dissesse. Acertou dois anos a mais que o chute mais preguiçoso possível. Com uma amostra desse tamanho, isso pode ser só acaso.

E o próprio janeiro? Será que ele é um mês especial, que sobe mais? No Laboratório do Quantor, de 2006 a 2026, comparei os dias de janeiro com os outros dias do ano. Em média, um dia de janeiro subiu um pouco mais que um dia comum, mas a diferença não passou no teste de acaso, nem no período de 2006 a 2016, nem no de 2017 a 2026. Foi um dos 20 efeitos de calendário testados. Nenhum se repetiu quando foi conferido num período que ele nunca tinha visto.

Por que um mês diz tão pouco

Um mês é curto demais para carregar o ano nas costas.

O Ibovespa fechou positivo em 59% de todos os meses. Ou seja: mês bom e mês ruim se alternam o tempo todo, mesmo nos anos que terminam bem. Um janeiro no vermelho pode ser só um mês no vermelho.

E o que define o ano costuma aparecer depois de janeiro. A pandemia é o exemplo mais claro: o Ibovespa fez topo em 23 de janeiro de 2020, a 119.528 pontos, e chegou a 63.570 em 23 de março. Uma queda de 47% em dois meses que nenhum janeiro poderia anunciar. Em 2008, a quebra que derrubou o mundo veio em setembro e outubro.

Existe, sim, uma ideia verdadeira escondida na frase: tendência importa. Nas ações da B3, de 2006 a 2026, as que mais tinham caído em 12 meses continuaram ruins no mês seguinte (−3,6% ao ano, em média), e as que mais tinham subido seguiram melhores (+12,9%). Mas repara: são 12 meses de direção, não um mês só. Tendência é o que se repete por um tempo. Um mês isolado é barulho.

Um ano em cada três do lado errado

Também não dá para dizer que janeiro não serve para nada. Em 20 de 30 anos, ele apontou o lado certo. Se você só quer uma conversa de bar, a frase não é absurda.

O problema começa quando ela vira decisão. Se janeiro foi negativo e você zera a carteira esperando um ano ruim, está apostando dinheiro de verdade numa regra que, no fim das contas, acertou só um pouco mais do que dizer "a bolsa sobe" e ir dormir.

E dez erros em trinta anos não são poucos. Um em cada três anos, quem seguiu janeiro estaria do lado errado o ano inteiro.

Acertou comparado com o quê?

  • Antes de me impressionar com um acerto, eu pergunto: comparado com o quê?
  • Um mês de preço, para mim, é barulho. Tendência é o que se sustenta por meses.
  • Se uma regra acerta quase o mesmo que o chute mais simples, ela não está me dizendo nada novo.
  • Eu prefiro decidir pelo que o preço está fazendo agora do que pelo que ele fez em janeiro.

Janeiro não define o ano. Na melhor das hipóteses, faz parte dele.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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