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Frases da bolsa, testadaspor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

"A bolsa sobe em ano de eleição"? O que as sete eleições disseram

Olhei o Ibovespa em todos os anos de eleição presidencial desde 1995. A média ficou perto de zero. E sete casos é muito pouco para virar regra.

Todo ano de eleição alguém aparece com a frase pronta.

"Ano de eleição a bolsa sobe." Ou o contrário: "ano de eleição é ano de bolsa travada, ninguém investe antes de saber quem ganha."

As duas versões circulam com a mesma convicção. E as duas têm o mesmo problema: quase ninguém foi conferir.

Eu fui. A resposta é menos emocionante do que a frase. E mais útil.

Por que a cabeça gosta dessa frase

Eleição é o tipo de evento que a cabeça adora transformar em previsão.

Tem data marcada. Tem dois lados. Tem notícia todo dia. Parece óbvio que algo tão grande tem que mexer com a bolsa de um jeito previsível.

E aí entra um viés conhecido: a gente lembra das histórias, não das estatísticas. Quem viveu um ano de eleição com a bolsa disparando guarda aquilo como "regra". Quem viveu um ano de tombo guarda a regra oposta. Cada um generaliza a partir de um ou dois casos que ficaram marcados.

Tem também o viés de confirmação: depois de acreditar na frase, a pessoa passa a notar só os anos que combinam com ela. Os que não combinam viram "exceção".

O problema é que, com eleição presidencial a cada quatro anos, não existem muitos casos para lembrar. E é aí que a frase fica perigosa.

Sete eleições, média de 0,1%

Peguei o Ibovespa de 1995 a 2026, em pontos, sem somar dividendos e sem descontar a inflação. E separei os anos de eleição presidencial.

Ano de eleição Ibovespa no ano
1998 −33%
2002 −17%
2006 +33%
2010 +1%
2014 −3%
2018 +15%
2022 +5%

Média dos sete: +0,1%. Quatro anos positivos, três negativos.

E os anos sem eleição presidencial? Média de +24,4%, com 15 de 23 anos positivos.

Olhando assim, parece que a frase está errada ao contrário: ano de eleição teria sido pior, e não melhor.

Mas calma. É aqui que a maioria das pessoas para de pensar. E é exatamente aqui que precisa continuar.

Quando 1998 e 2002 puxam a média

Sete é um número pequeno demais.

Sete casos. Não setenta, não setecentos. Sete. Com uma amostra desse tamanho, um único ano muda a média inteira.

Olha os dois piores da lista. Em 1998, o mundo estava em plena crise: a Rússia quebrou, e o Ibovespa teve o pior mês da série inteira em agosto daquele ano, −39,6%, e um dos piores dias, −15,8% em 10 de setembro. Em 2002, a incerteza da própria eleição fez parte da história, mas junto com câmbio disparando e uma economia mundial ainda saindo do estouro das empresas de internet.

Esses dois anos puxam a média para baixo com muita força. Tirando eles, os outros cinco anos de eleição ficaram entre −3% e +33%. Uma faixa larga, que cabe praticamente qualquer história.

Então a pergunta honesta é: quanto da queda veio da eleição e quanto veio do resto? Em 1998, a crise era claramente de fora. Em 2002, era uma mistura. Com sete casos, não dá para separar uma coisa da outra com segurança.

Os anos 1990 pesam. Era um Brasil de inflação recém-domada, câmbio instável e crises em série. Comparar 1998 com 2018 é comparar países quase diferentes.

Em pontos e sem inflação. O teste não soma dividendos e não desconta a inflação. Serve para comparar anos entre si, não para dizer quanto alguém ganhou de verdade.

E o que veio depois não combina com a frase. O ano ruim nem sempre foi o fim da história. Quem comprou o Ibovespa no fim de 1998, depois do tombo, viu +228% nos cinco anos seguintes. No fim de 2002, +467%. Ninguém sabia disso em dezembro daqueles anos. O medo estava no preço.

Por isso a conclusão não é "ano de eleição é ruim". A conclusão é outra: os dados não sustentam nenhuma das duas versões da frase como regra. Nem "sobe" nem "trava".

O que a frase esconde

Quando alguém diz "a bolsa sobe em ano de eleição", está oferecendo uma coisa que todo investidor quer: um atalho.

Uma regra simples para saber o que fazer sem precisar olhar mais nada.

Só que o mercado não lê o calendário. Ele reage ao que muda na expectativa de lucro das empresas, nos juros, no câmbio, no dinheiro que entra e sai. Às vezes a eleição mexe com isso. Às vezes mexe pouco perto de uma crise lá fora.

E o atalho tem um custo escondido: quem decide pelo calendário deixa de olhar para o que o preço está fazendo de fato. Fica esperando o "ano bom" chegar, ou foge do "ano ruim", enquanto a tendência real das ações vai para outro lado.

Sete casos não são estatística. São sete histórias.

O calendário não decide por mim

  • Eu não decido nada pelo calendário eleitoral. Sete casos não sustentam regra nenhuma.
  • Quando alguém me mostra uma média, a primeira coisa que eu pergunto é: de quantos casos?
  • Eu separo o evento do contexto. O ano foi ruim por causa da eleição ou por causa de outra coisa que aconteceu ao mesmo tempo?
  • E eu sigo olhando para o que o preço faz. A tendência das ações não espera a apuração.

Frase popular boa de repetir não é a mesma coisa que dado.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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