O gestor que preferiu escrever o código
Como um gestor vindo de futuros migrou para ações individuais e publicou o sistema inteiro — seleção, tamanho de posição, rebalanceamento e a regra de ficar de fora.
Quase todo livro de análise técnica vende um gatilho de compra e deixa o resto — quanto comprar, quando sair, quantos papéis ter, o que fazer quando o mercado inteiro vira — para a intuição do leitor. Stocks on the Move faz o contrário: entrega o sistema inteiro, com os parâmetros à mostra, e aceita ser julgado por ele. Essa escolha é o que torna o livro interessante e também o que o deixa vulnerável, porque sistema publicado é sistema que pode ser testado — inclusive numa bolsa que Clenow nunca teve em mente.
O homem que veio dos futuros
Andreas Clenow é gestor suíço por adoção, com carreira dividida entre tecnologia financeira e administração de dinheiro. Antes de gerir carteiras, trabalhou na indústria de dados e sistemas de mercado, com passagem pela Reuters — a parte do mercado que constrói as telas que todo mundo olha, não a que opina sobre elas. Essa origem explica o tom do livro. Ele escreve como alguém acostumado a especificar um processo até o ponto em que outra pessoa consegue implementá-lo sem precisar perguntar nada.
Seu livro anterior, de 2013, tratava de seguir tendência em futuros — o universo de contratos de petróleo, grãos, juros, moedas e índices que os CTAs operam há décadas. Ali a lógica é clássica: você não sabe qual mercado vai disparar, então monta um sistema que compra força e vende fraqueza em dezenas de contratos pouco correlacionados, erra na maioria das apostas e ganha porque as poucas tendências grandes pagam todas as perdas pequenas. Em 2015 ele muda de mercado. Troca os futuros por ações individuais e, com isso, troca também o problema.
A troca é mais radical do que parece. Em futuros, o gestor tem diversificação de verdade: ouro não anda com juro japonês, boi gordo não anda com gás natural. Em ações de um mesmo país, tudo anda junto quando o pânico chega — e anda junto justamente no dia em que você precisaria que não andasse. Um sistema de tendência em ações, portanto, não se defende pela diversificação entre ativos; precisa de outro mecanismo. Guarde essa frase, porque é dela que nasce o elemento mais importante do livro.
2015: backtest para todo mundo, prova para quase ninguém
O livro nasce num momento específico. Duas coisas aconteciam ao mesmo tempo em meados da década de 2010. A primeira: fundos sistemáticos de ações — quantitativos, montados sobre fatores como valor, qualidade e momentum — tinham saído do nicho acadêmico e viravam produto de prateleira, com ETFs cobrando taxas minúsculas para entregar o que gestor ativo cobrava caro. A segunda: a barreira técnica para testar uma ideia desabou. Dados históricos ficaram baratos, Python e suas bibliotecas de dados viraram ferramenta comum, e quem tinha um notebook passou a rodar em vinte minutos um teste que, quinze anos antes, exigia infraestrutura de banco.
Contra esse pano de fundo, a prateleira de análise técnica continuava sendo o que sempre foi: figuras desenhadas em gráficos escolhidos depois do fato, regras vagas o bastante para nunca estarem erradas, nenhum número que alguém de fora pudesse conferir. Clenow escreve contra isso de forma deliberada. O argumento é simples e desagradável: se a regra não pode ser programada, ela não é uma regra, é uma impressão. E se ela pode ser programada e você não programou, está apostando sem saber no quê.
O resultado é um documento de engenharia disfarçado de livro de investimento. Ele mostra o código, discute escolhas de parâmetro, admite o que é arbitrário e expõe os resultados ano a ano, incluindo os anos ruins. Essa postura vale mais do que o sistema que ele descreve, e é a razão de o livro ainda ser lido.
Um sistema, não um indicador
O que separa este livro dos cem outros sobre momentum é o escopo. A maioria para na primeira pergunta: como escolher a ação. Clenow responde quatro perguntas, e a primeira é a menos importante delas.
Escolher a ação é o ranking de momentum, e ele tem uma versão própria, baseada na qualidade da tendência e não só no tamanho da alta. Quanto comprar de cada uma é o dimensionamento por volatilidade: ação nervosa entra pequena, ação calma entra grande, de modo que cada posição carregue um pedaço parecido do risco da carteira. Quando mexer é o rebalanceamento periódico, mecânico, sem direito a opinião no meio do caminho. E quando não estar comprado é o filtro do índice: se o mercado como um todo está abaixo da própria média longa, o sistema não abre posições novas.
Juntas, as quatro peças formam algo que o leitor consegue repetir. Esse é o teste real de um método — não "funcionou no gráfico", mas "eu consigo executar isso no último dia útil de todo mês, por vinte anos, inclusive no mês em que estiver com medo". A contribuição de Clenow é ter escrito as quatro peças com precisão suficiente para que a execução não dependa de humor.
Para quem serve, e para quem não serve
Serve para quem administra a própria carteira com disciplina de calendário e estômago para queda prolongada. O perfil é nítido: alguém que aceita olhar a tela uma vez por mês, executar uma lista e desligar; alguém que aceita vender uma empresa excelente porque ela caiu no ranking, e comprar uma ação que já subiu muito porque o ranking mandou. Quem precisa se convencer da tese antes de cada ordem vai sabotar o sistema no terceiro mês.
Não serve para quem quer previsão. O método não tem opinião sobre para onde o mercado vai; ele reage ao que já aconteceu e, por construção, chega atrasado em toda virada. Não serve para quem quer uma ação, porque só faz sentido como carteira: o retorno vem da soma de muitas posições medianas e de poucas excepcionais, não do acerto individual. E não serve para quem precisa de retorno em todo ano-calendário, pela razão que o próprio livro não esconde — há períodos longos em que momentum em ações simplesmente não paga.
O que Clenow trouxe dos futuros foi a cabeça de risco. No mundo dos CTAs ninguém pensa em "comprar R$ 50 mil de uma ação"; pensa em quanto de oscilação diária aquela posição vai injetar na carteira, e o tamanho sai dessa conta. Transplantar isso para ações é a sacada operacional do livro. O problema é que o transplante chega num mercado de correlação interna alta e dominado por um índice — e é aí que o filtro de índice deixa de ser detalhe e vira o coração da coisa.
A tensão que o livro não resolve
Há uma contradição honesta no centro do projeto, e vale anunciá-la agora para cobrar depois. O livro argumenta que o sistema é o que importa: a regra, a execução, a disciplina. Mas o sistema só compra ações, só compra quando o índice está em alta e, portanto, só ganha dinheiro quando existe mercado de alta. A disciplina não cria retorno. Ela organiza a captura de um retorno que o mercado precisa oferecer primeiro.
Isso não invalida nada, mas muda a pergunta. A questão certa a fazer a Stocks on the Move não é "as regras são boas?", e sim "o que sobra delas quando o vento não sopra?". No Brasil, onde o juro real alto coloca uma aplicação sem risco concorrendo de frente com qualquer sistema de ações, essa pergunta tem dentes — e é exatamente ela que os testes deste mini-livro vão responder com números.
Antes disso, é preciso entender o que o sistema de fato faz. A pergunta que o livro responde é esta: como transformar "comprar o que está subindo" numa regra que você consegue repetir por vinte anos sem quebrar? A resposta começa em três ideias sobre inclinação, aderência e tamanho de posição.
As cinco engrenagens que transformam "comprar o que sobe" num sistema com regra de risco escrita antes do pregão.
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.