O gestor que não tem opinião
Por que um gestor de fundos sistemáticos resolveu publicar as regras que a indústria preferia manter em segredo.
Quase todo livro de mercado vende uma opinião: a ação certa, o momento certo, a leitura certa do ciclo. Following the Trend faz o contrário. Andreas Clenow escreve de dentro da gestão sistemática para dizer que os grandes fundos de tendência não têm opinião nenhuma, que suas regras são públicas e banais, e que o retorno deles pode ser reproduzido por quem tiver estômago — o que desloca a pergunta inteira do "o que comprar" para "o que separa quem executa de quem desiste".
Quem fala
Andreas Clenow é gestor de fundos sistemáticos, de origem sueca e radicado na Suíça, com carreira construída na fronteira entre tecnologia de mercado e gestão de dinheiro. Antes de administrar capital, trabalhou com dados e sistemas financeiros — o tipo de função em que você vê o encanamento da indústria por dentro: como os preços chegam, como as ordens saem, como um fundo grande calcula exposição. Isso explica o tom do livro, que é menos o de um trader contando façanhas e mais o de um engenheiro abrindo a tampa da máquina.
A escolha editorial é a parte incomum. Clenow descreve o universo de mercados, as regras de entrada, o cálculo de tamanho de posição, a regra de saída e o critério de rebalanceamento, com detalhe suficiente para o leitor reproduzir o sistema. Num setor em que a palavra "proprietário" costuma servir para justificar taxa de administração alta somada a taxa de performance, abrir o modelo inteiro é uma declaração de guerra educada. A tese implícita é simples: se as regras fossem o segredo, publicá-las destruiria o negócio; como elas não são, publicá-las destrói apenas a desculpa da taxa.
Vale entender o que ele não é. Não é acadêmico testando anomalias em papel, nem vendedor de curso com gráfico de patrimônio subindo em linha reta. É alguém que precisou explicar, para investidores institucionais, por que o fundo passou um longo período no vermelho sem mudar uma vírgula do modelo. Esse tipo de conversa, repetida muitas vezes, molda um livro bem mais interessado em sobrevivência do que em genialidade.
O momento: 2013, depois da glória e dentro da seca
O livro sai em 2013, num ponto desconfortável do ciclo. Em 2008, enquanto as bolsas desabavam, os fundos de tendência tiveram seu ano de vitrine: vendidos em petróleo depois do pico de meados daquele ano, comprados em títulos de governo em plena fuga para qualidade, vendidos em índices acionários. Foi o ano em que a indústria de CTAs — as gestoras de futuros administrados — mostrou na prática o que vendia no folheto: um resultado que não depende de a bolsa subir.
Veio o reverso. Os anos seguintes à crise trouxeram juros perto de zero no mundo desenvolvido, compras maciças de ativos por bancos centrais e mercados que subiam aos solavancos, interrompidos por reviravoltas de política monetária. Tendências longas, que são o alimento do sistema, ficaram escassas. Boa parte do setor entregou anos fracos seguidos, e muito investidor que havia entrado atraído pelo desempenho de 2008 saiu pela mesma porta.
É nesse clima que o livro ganha sentido. Clenow escreve para um público que está perguntando se o produto ainda funciona — e responde de um jeito que não agrada à própria indústria: funciona, é replicável, e justamente por ser replicável não deveria custar caro. O argumento tem um elemento de autocrítica corporativa que raramente aparece em livro escrito por gestor.
O que é um fundo de tendência diversificado
Vale desenhar a máquina, porque quase tudo no livro depende dela. Um fundo de tendência diversificado opera dezenas de mercados futuros ao mesmo tempo: juros de curto e de longo prazo de vários países, moedas, índices acionários, grãos, carnes, metais industriais e preciosos, energia. Em cada um deles o sistema pode estar comprado, vendido ou fora — e a decisão vem de uma regra de preço, não de uma visão sobre a safra americana ou sobre o próximo passo do banco central.
Por que futuros e não ações? Por quatro razões práticas. Liquidez concentrada em poucos contratos por mercado, o que permite entrar e sair com pouco impacto. Custo de transação baixo por unidade de exposição. Simetria: vender a descoberto um contrato de milho é operacionalmente igual a comprá-lo, sem aluguel de papel, sem escassez de doador, sem taxa. E alavancagem embutida via margem — você deposita uma fração do valor do contrato, o que permite montar exposição a dezenas de mercados sem precisar de dezenas de vezes o capital.
Some a isso o ponto decisivo: esses mercados não andam juntos. O boi gordo não liga para o juro de dez anos japonês. É essa baixa correlação que transforma um monte de apostas medíocres num resultado agregado utilizável — e é exatamente o ingrediente que desaparece quando se tenta trazer o sistema para uma bolsa só, num país só, com meia dúzia de setores que mandam no índice.
Por que o livro marcou
A maior parte da literatura técnica para no sinal de entrada. Rompimento de vinte dias, cruzamento de médias, divergência de indicador — o setup é o que cabe num gráfico e vende bem. Clenow trata o sinal como a parte barata e gasta o livro no resto: quais mercados entram no universo e por quê, quanto capital vai para cada posição, como o tamanho se ajusta à volatilidade de cada contrato, com que frequência a carteira é reequilibrada, o que fazer quando o sistema manda comprar o que acabou de subir 40%.
O segundo motivo é a honestidade estatística. O livro assume, sem rodeios, que a maioria das operações perde dinheiro e que o resultado de um ano inteiro costuma vir de um punhado de posições que correram por meses. Isso contraria o instinto de quase todo investidor, treinado a gostar de taxa de acerto alta. Um gestor que diz ao cliente "erro mais do que acerto e é assim que deve ser" está vendendo algo difícil de comprar — e é precisamente o que torna o livro útil.
O terceiro motivo é a demonstração central: com regras simples e públicas, é possível acompanhar de perto o comportamento agregado da indústria de tendência. Se isso vale, a conclusão incomoda duas vezes. Incomoda o gestor, cuja taxa fica difícil de defender. E incomoda o investidor, que descobre que o obstáculo nunca foi acesso ao segredo — era aguentar a execução quando ela dói.
Para quem serve e para quem não serve
Não é livro para quem procura ação barata, dividendo previsível ou tese sobre uma empresa. Não há balanço, não há valuation, não há opinião sobre o futuro de nada. Também não é livro de day trade: o horizonte das posições vai de semanas a muitos meses, e o giro é mais baixo do que se imagina ao ouvir "sistema técnico".
Serve a quem quer entender como se constrói gestão de risco com regra fixa — a lógica de dimensionar posição pela volatilidade, de distribuir risco entre apostas independentes, de definir a saída antes da entrada. Essa parte atravessa fronteiras e classes de ativo. Serve também a quem precisa avaliar produtos sistemáticos oferecidos no Brasil e quer saber o que está comprando por dentro. E serve, com ressalvas grandes, a quem investe em ações brasileiras e quer extrair do método o que sobrevive num mercado sem a diversificação, sem a venda a descoberto barata e sem a alavancagem que o sistema original pressupõe — e com um CDI que paga para o dinheiro ficar parado, coisa que o livro nunca precisou considerar.
A pergunta que o livro responde é essa: se as regras são públicas, simples e cabem numa planilha, o que de fato separa quem ganha de quem quebra? A resposta de Clenow não está no sinal de compra — está em três ou quatro decisões que quase ninguém discute.
Por que o setup é a parte barata do sistema e o dimensionamento pela volatilidade é a parte cara
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.