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Quantitative ValueWesley Gray e Tobias Carlisle · 2012
A leitura do Quantor · Quant, fatores e probabilidade

Quantitative Value

Wesley Gray e Tobias Carlisle, 2012

Gray e Carlisle mostram que a melhor defesa do investidor de valor não é achar a ação mais barata, mas eliminar antes as que mentem, quebram ou apodrecem — e os testes do Quantor na B3 mostram que, aqui, nem o valor composto, nem o EV/EBIT, nem Greenblatt, nem Piotroski passaram no critério de bater o CDI em todos os subperíodos: a disciplina do método sobrevive, a promessa de retorno não.

6 capítulos · cerca de 44 min de leitura · texto próprio do Quantor, com os números da B3
Este não é o livro. É a leitura do Quantor sobre ele: as ideias de Wesley Gray e Tobias Carlisle explicadas com texto próprio, as histórias que o livro conta, o que envelheceu, e o que ele ensina testado com 20 anos de dados da B3. Para a obra completa, leia o original.

Sumário

  1. 1Dois acadêmicos contra o próprio talentoComo um ex-fuzileiro com doutorado em Chicago e um advogado australiano de liquidações decidiram tirar o analista do caminho do investimento em valor.6 min · aberto
  2. 2Primeiro elimine, depois compreAs cinco ideias que transformam o valor de Graham numa máquina de triagem: cortar fraude, falência e deterioração antes de olhar o preço.Explica as cinco ideias que sustentam o método de Gray e Carlisle: o modelo consistente supera o especialista, a peneira contábil vem antes do ranking de preço, a distância entre lucro e caixa denuncia resultado esticado, qualidade é franquia mais balanço forte, e o valor da firma sobre o lucro operacional é o múltiplo que menos distorce. Mostra o mecanismo de cada ideia com exemplo concreto e deixa claro que todas são afirmações sobre dados — portanto testáveis.
  3. 3O veredito da B3: cinco regras, nenhuma aprovadaCinco regras do livro rodadas na bolsa brasileira de 2011 a 2026: a disciplina sobrevive, a promessa de retorno não.Mostra os resultados dos testes do Quantor para valor composto, EV/EBIT, fórmula mágica, Piotroski e accruals na B3, cada um com o CDI, o Ibovespa, a pior queda e os subperíodos do mesmo teste. Ensina por que quatro deles reprovam no mesmo ponto — o resultado vive do intervalo 2016–2020 e perde para o CDI nos outros dois — e por que a peneira de accruals, sozinha, destrói dinheiro.
  4. 4Quando o barato é o túmuloOs casos que explicam por que parte das ações baratas não se recupera: ela desaparece, mente ou cobra uma década de espera.Mostra as quatro formas pelas quais uma ação barata destrói o investidor de valor: ela sai da bolsa, o múltiplo baixo é lucro de pico disfarçado, o lucro não virava caixa, ou a recuperação demora anos. Usa números da B3 — as 179 empresas que saíram do mercado, as 10 de menor P/VP com −2,0% ao ano, a pior queda de −90% em PETR4 sem trava, os 112 meses para o Ibovespa voltar ao topo de 2008 — para mostrar que o custo do método de valor é pago em tempo e em estômago.
  5. 5O que a planilha não contouBacktest de período-ouro, estratégia virando produto e um juro real que os autores nunca tiveram de enfrentar.Explica por que o valor entrou em seca nos EUA logo depois da publicação do livro, por que estratégia publicada vira produto e perde prêmio, e por que dez nomes numa bolsa concentrada em commodities viram aposta setorial disfarçada. Mostra os limites internos do método com os números dos testes do Quantor: accruals baixos sozinho deu −6,6% ao ano com queda de −86%, e os cinco testes dependem do mesmo intervalo de 2016–2020.
  6. 6Regras que você consegue obedecerA versão brasileira do valor sistemático: peneira contábil, múltiplo honesto e controle de perda escritos antes de você ver o nome da ação.Transforma o método de Gray e Carlisle em cinco disciplinas aplicáveis na B3: definir a regra antes do ticker, eliminar antes de ranquear, exigir que o método bata o CDI e o sorteio em cada subperíodo, tratar a queda antes do retorno e contar o custo de giro. Usa os números dos próprios testes — a trava do Ibovespa que levou o EV/EBIT de −42% para −21% de pior queda, o 0,1% contra 0,5% por operação que virou +22,0% contra +17,3% ao ano — para mostrar onde está o ganho real.
Leitura Quantor · capítulo 1 de 6

Dois acadêmicos contra o próprio talento

Como um ex-fuzileiro com doutorado em Chicago e um advogado australiano de liquidações decidiram tirar o analista do caminho do investimento em valor.

Quantitative Value é um livro escrito por dois homens que sabiam analisar empresas e concluíram que não deveriam fazê-lo à mão. A tese incomoda porque vem de dentro do ofício: o inimigo do investidor de valor não é o mercado eficiente, é o próprio julgamento, que oscila, se cansa e se apaixona.

Um fuzileiro com doutorado e um advogado de liquidações

Wesley Gray fez doutorado em finanças na Universidade de Chicago, o lugar onde se ensina que bater o mercado é difícil, e serviu como oficial dos fuzileiros navais dos Estados Unidos. A combinação explica o tom do livro. De Chicago vem a exigência de evidência: nada entra no método sem passar por amostra ampla, dados tratados e teste fora do período que inspirou a ideia. Da caserna vem a obsessão com procedimento, que existe para ser seguido quando a situação está feia, não quando está confortável. Gray fundou depois a Alpha Architect, gestora que levou ao extremo a ideia de estratégia pública e auditável, com as regras expostas em vez de escondidas.

Tobias Carlisle veio por outro caminho. Advogado australiano, trabalhou com fusões, aquisições e reestruturações — o mundo em que se compra uma empresa inteira, se abre o balanço e se descobre quanto ela vale quando é desmontada. Ganhou público escrevendo sobre ativos muito depreciados, na tradição das pontas de charuto de Benjamin Graham, e mais tarde por popularizar o Acquirer's Multiple, o valor da firma dividido pelo lucro operacional. Quem passa a carreira olhando para quem compra empresas inteiras desenvolve uma intuição específica: o preço que importa é o que um comprador do controle pagaria, incluindo a dívida que ele herdaria junto.

O encontro dos dois perfis produz o eixo do livro. Um traz o rigor estatístico; o outro traz a cabeça do comprador de controle. O resultado não é um manual sobre quais ações comprar. É um manual sobre como construir a máquina que escolhe por você e, mais importante, sobre como não enfiar a mão dentro dela depois de ligada.

2012: o ano em que o backtest ficou barato

O livro sai em 2012, quatro anos depois da quebra do Lehman Brothers, num momento particular. A indústria de fundos de valor estava machucada. Vários gestores respeitados compraram ações de bancos americanos em 2007 e 2008 porque pareciam baratas em relação ao patrimônio contábil, e descobriram que aquele patrimônio era ficção, corroído por ativos que ninguém conseguia precificar. Comprar barato tinha deixado de ser sinônimo de prudência. Em alguns casos, foi a causa da ruína.

Ao mesmo tempo, mudou a infraestrutura. Bases de balanços padronizadas, com décadas de histórico e correção do viés de sobrevivência, saíram dos grandes bancos e chegaram a quem quisesse pagar uma assinatura. Softwares estatísticos deixaram de ser artesanato de departamento acadêmico. Um investidor disciplinado passou a conseguir, num computador comum, testar uma regra de triagem em milhares de empresas ao longo de trinta anos — tarefa que na época de Graham exigiria uma sala cheia de gente com lápis e papel quadriculado.

E havia um debate já maduro fora das finanças. Desde os anos 1950, com o trabalho de Paul Meehl sobre previsão clínica contra previsão estatística, acumulava-se evidência de que fórmulas simples superam especialistas humanos em prognósticos repetitivos. Daniel Kahneman levou a ideia ao grande público. Gray e Carlisle fizeram a ponte pouco explorada: se vale para diagnóstico médico e para prever desempenho acadêmico, por que não valeria para escolher entre centenas de balanços parecidos?

A linhagem: de Graham a Greenblatt, e a ruptura

Graham foi o primeiro quant do investimento, ainda que ninguém usasse a palavra. Suas triagens eram condições objetivas: preço baixo em relação ao lucro, dívida contida diante do patrimônio, histórico de resultados sem buracos, dividendos pagos ano após ano. O investidor rodava a lista nas páginas do manual de ações e comprava o que sobrava, diluído em muitos nomes. A margem de segurança não vinha de conhecer bem uma empresa; vinha de aplicar um critério duro em muitas.

Joel Greenblatt é a ponte moderna. Sua fórmula combina uma medida de qualidade do negócio, o retorno sobre o capital empregado, com uma medida de preço, o lucro operacional sobre o valor da firma. Duas variáveis, um ranking, uma carteira. O que Greenblatt mostrou não foi que essas duas variáveis são mágicas, e sim que uma regra pública e simples podia resistir a décadas de dados — e que o difícil nunca foi entendê-la, foi segui-la nos anos em que ela fica para trás.

A ruptura de Gray e Carlisle está na ordem das operações. Em vez de ranquear por barateza e depois usar julgamento para descartar os casos feios, eles invertem: primeiro elimina-se o que pode ser fraude contábil, o que pode quebrar e o que está apodrecendo; só depois se ordena o que sobrou pelo preço. O analista não é promovido a juiz final da lista. Ele é substituído por um protocolo escrito antes de qualquer nome aparecer na tela. E a qualidade entra como condição de entrada, não como consolo: o espírito está mais perto da frase de Warren Buffett, "é muito melhor comprar uma empresa maravilhosa a um preço justo do que uma empresa justa a um preço maravilhoso", do que da caça pura à pechincha.

Por que o modelo ganha do especialista

O mecanismo é menos glamouroso do que parece. O modelo não é mais inteligente que o analista; é mais constante. Diante do mesmo balanço na segunda e na sexta-feira, depois de uma boa notícia ou de uma reunião ruim, ele devolve a mesma resposta. O humano não devolve. O humano pesa demais o que aconteceu há pouco, dá crédito extra ao executivo que fala bem e inventa exceções para a empresa que acompanha há anos.

Há um detalhe que a maioria perde. O modelo costuma usar as mesmas variáveis que o especialista escolheria; a vantagem não vem de informação superior, vem de aplicação sem desvio. E a parte mais dura dessa literatura é o que acontece quando se entrega ao especialista a saída do modelo e permissão para corrigi-la: em geral o resultado piora, porque as correções acertam pouco e erram muito. O analista conserta justamente os casos que o incomodam, que são os casos estranhos onde o desconto mora.

Daí a regra social do livro: o método só funciona se for obedecido quando parece burro. Comprar a siderúrgica no meio da recessão, manter a carteira enquanto as manchetes dizem o contrário, aceitar dois anos atrás do índice sem mexer em nada. O custo do valor sistemático não é intelectual, é emocional — e é por isso que ele não desaparece quando vira livro.

Para quem este livro serve

Serve para quem já leu Graham e quer transformá-lo em processo auditável, com critérios escritos, data de revisão marcada e número fixo de papéis. Serve para quem desconfia do próprio faro, ou já viu o faro falhar num nome específico e caro. Serve para quem aceita que uma estratégia se julga por dezenas de decisões, e não pela ação de que você mais gosta.

Não serve para quem quer uma lista de nomes para comprar amanhã. Também não serve para quem precisa de retorno rápido: a posologia é contada em anos.

A pergunta que o livro responde tem duas metades igualmente difíceis: como separar a ação barata da ação que só parece barata, e como impedir que você mesmo estrague o processo depois de montá-lo. A resposta começa por uma inversão — antes de comprar, elimine.

Continua no capítulo 2
Primeiro elimine, depois compre

As cinco ideias que transformam o valor de Graham numa máquina de triagem: cortar fraude, falência e deterioração antes de olhar o preço.

Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.

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Guia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.