O viés de sobrevivência: o que some das contas
Todo teste feito só com as ações listadas hoje esquece quem quebrou e quem foi comprado. Refiz as contas com as duas turmas de volta, e o resultado mudou.

Anda por qualquer rua comercial da sua cidade e conta os restaurantes.
Todos abertos. Todos funcionando. Alguns cheios.
Se você concluir, olhando só para essa rua, que abrir restaurante é um ótimo negócio, vai cometer um erro clássico. Você não está vendo os que fecharam. Eles não estão na rua. Não têm placa, não têm fila, não aparecem na foto.
A rua só mostra quem sobreviveu.
Isso tem nome: viés de sobrevivência. É tirar conclusão olhando só para quem sobrou, como se os que sumiram nunca tivessem existido.
Na bolsa, ele está em quase todo teste que você vê por aí.
Como ele entra nas contas sem ninguém perceber
O jeito mais fácil de testar uma ideia é pegar a lista de ações que existem hoje, baixar o histórico de cada uma e simular.
Parece honesto. Não é.
A lista de hoje é a rua comercial. Ela não tem a empresa que quebrou em 2012, a que foi engolida por uma concorrente em 2015, a que fechou o capital em 2019. Essas ações eram negociadas. Gente comprou. Gente perdeu ou ganhou com elas. Só que, no teste feito com a lista de hoje, elas desaparecem.
A história clássica é a dos aviões na Segunda Guerra. Os engenheiros olhavam os aviões que voltavam das missões, cheios de furos nas asas, e pensavam em reforçar as asas. Um estatístico apontou o óbvio que ninguém via: os aviões que levaram tiro no motor não voltaram. Os furos que importavam estavam justamente nos aviões que não estavam ali para ser contados.
A cabeça faz isso porque trabalha com o que está na frente dela. O que sumiu não gera lembrança, não gera notícia, não gera gráfico. E o que não está na frente, para a cabeça, não existe.
Até 3,6 pontos de ilusão por ano
Eu refiz os testes do Laboratório do Quantor de três jeitos, de 2006 a setembro de 2026, com ações de mais de R$ 5 milhões por dia em reais de hoje:
- Antes: a base antiga, com dados do Yahoo e só as 362 ações listadas hoje.
- Depois: a base própria, com todas as ações que negociaram desde 2006, inclusive as que saíram da bolsa.
- Só ativos: a base própria, mesmo critério, mas só com as ações que continuam listadas.
A diferença entre "só ativos" e "depois" é o viés de sobrevivência puro.
Primeiro, as estratégias de dividendos. Comprar as ações que mais pagaram dividendos nos últimos 12 meses:
| Estratégia | Com as que saíram | Só as listadas hoje | Diferença |
|---|---|---|---|
| Maiores dividend yield | +15,3% ao ano | +17,7% ao ano | 2,4 pontos |
| Barsi aproximado | +13,0% ao ano | +16,6% ao ano | 3,6 pontos |
Olhando só a lista de hoje, essas carteiras pareciam render de 2,4 a 3,6 pontos a mais por ano. Por quê? Porque a ação que pagava um dividendo enorme e depois quebrou some da lista. O teste com a rua de hoje nunca "comprou" ela.
Em 20 anos, 3 pontos ao ano é a diferença entre um resultado bom e um resultado que parece genial.
Agora o lado que me surpreendeu. Segurando cada ação, papel a papel:
| Segurar cada ação (média) | Ao ano |
|---|---|
| Antes (Yahoo, só as listadas hoje) | +4,4% |
| Só as listadas hoje, base própria | −1,3% |
| Com as que saíram, base própria | +0,7% |
Aqui o viés foi ao contrário: com as ações que saíram de volta, o resultado melhorou. E a base antiga, com outros dados, dava um número bem mais bonito do que os dois.
A explicação é que "sair da bolsa" não é só quebrar. Das 437 ações do teste, 179 saíram. A maioria saiu por oferta de compra ou incorporação, muitas vezes com prêmio. E muitas perdedoras continuam listadas até hoje. A rua não esconde só os restaurantes que fecharam. Esconde também os que foram vendidos por um bom dinheiro para uma rede maior.
O viés aponta para os dois lados
O viés não aponta sempre para o mesmo lado. Em estratégia de dividendos, inflou. Em segurar papel a papel na B3, escondeu um resultado melhor. Na carteira com todas as ações líquidas, quase não mexeu: +8,9% ao ano com as que saíram, +9,2% só com as listadas, diferença de 0,3 ponto.
Então a lição não é "todo teste está inflado". É mais simples e mais chata: o teste que deixa gente de fora não é confiável, para nenhum lado. Você não sabe se ele exagera ou esconde até refazer com todo mundo.
E ninguém está livre. Até a base própria depende de decisões: quanto vale uma ação que saiu, quando considerar falência. No teste, empresa falida vale zero, e quem saiu por oferta vira o valor recebido. São escolhas documentadas, mas são escolhas.
Quem ficou de fora do backtest?
- Quando vejo um backtest bonito, a primeira pergunta é: quem ficou de fora?
- Se o teste usa "as ações de hoje", eu desconto o resultado até ver a versão completa.
- Histórias de quem ficou rico com uma ação são a rua comercial. Os que quebraram não dão entrevista.
- Eu prefiro um número feio e completo a um número lindo e pela metade.
