A ação típica da B3 perdeu do CDI em 20 anos
Segurei, no teste, cada uma das 437 ações líquidas da B3 desde 2006. A média rendeu +0,7% ao ano. O CDI do mesmo período, +10,5%.

"Ação, no longo prazo, sempre ganha."
Você já ouviu essa frase mil vezes. Talvez já tenha repetido.
Ela tem um pedaço de verdade e um pedaço de armadilha. A verdade está no plural: a bolsa, o conjunto, no longo prazo, costuma pagar. A armadilha está no singular: a sua ação, aquela que você escolheu e prometeu nunca vender.
Quando eu peguei todas as ações líquidas da B3 desde 2006 e simulei o investidor mais paciente do mundo, aquele que compra e segura cada uma delas até hoje (ou até ela sair da bolsa), a resposta foi dura.
A ação típica perdeu do CDI.
Por que a gente acredita no contrário
A cabeça mistura duas coisas diferentes: o índice e o papel.
Quando alguém fala que "a bolsa sobe no longo prazo", está olhando para um gráfico de índice. Um índice é uma cesta que troca de dono o tempo todo. Quem cai muito sai. Quem cresce entra. O índice de hoje não é o mesmo de 2006.
A sua ação não troca. Ela é uma empresa só, com um destino só.
E tem um segundo motivo. As histórias que circulam são as dos vencedores. Ninguém faz vídeo sobre a ação que comprou em 2010, segurou com fé e viu derreter. Faz vídeo sobre a que multiplicou por dez. A memória coletiva do mercado é uma vitrine de sobreviventes, e a gente toma a vitrine como se fosse a loja inteira.
Por último, tem o conforto. "Segurar para sempre" parece a escolha mais prudente, porque tira de você a responsabilidade de decidir. Não decidir também é uma decisão. Só que ela não aparece no extrato como decisão. Aparece como resultado.
Só 160 de 437 bateram o CDI
O teste usou a base própria do Quantor, com todas as ações que negociaram na B3 desde 2006 com pelo menos R$ 5 milhões por dia (em reais de hoje), inclusive as que saíram da bolsa por falência, fechamento de capital ou incorporação. Dividendos reinvestidos, sem custos. Foram 437 ações, cada uma segurada do primeiro dia em que entrou no radar até hoje ou até a saída.
| Segurando cada ação, 2006–set/2026 | Ao ano |
|---|---|
| Média das 437 ações | +0,7% |
| Ação do meio da fila (mediana) | +5,2% |
| CDI no mesmo período de cada ação (média) | +10,5% |
Só 160 das 437 bateram o CDI segurando. Uma em cada três, mais ou menos.
Cortando só as ações com pelo menos 5 anos de histórico, para ninguém dizer que a janela era curta demais, a média de segurar foi de −0,1% ao ano (314 ações). Mais tempo não salvou a média.
Leia de novo: o investidor que escolheu uma ação ao acaso, entre as líquidas, e teve a paciência de nunca vender, ganhou em média menos do que ganharia deixando o dinheiro rendendo no banco. Sem susto, sem queda de 50%, sem noite mal dormida.
Agora repara no contraste. A carteira com todas as ações líquidas, cada uma com o mesmo peso, rebalanceada todo mês, rendeu +8,9% ao ano no mesmo período, com pior queda de −49%.
Como as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo?
Porque a carteira tem as poucas ações que multiplicaram. Elas puxam tudo para cima. A ação típica, sozinha, não tem ninguém para puxar. Na média, ela é uma das muitas que andaram de lado, sangraram ou sumiram.
É a diferença entre comprar o bilhete de todos os cavalos e apostar num só. O hipódromo, no conjunto, devolve alguma coisa. O seu cavalo, provavelmente, não ganha.
E tem uma conta que pesa: quando uma ação cai 50%, ela precisa subir 100% para voltar. Uma queda funda come anos de alta. É por isso que a média de cada ação fica tão abaixo da mediana: os desastres puxam a média para o chão.
O problema não é a ação, é segurar sem regra
Isso não quer dizer que ação não presta. A carteira com todas rendeu perto de +8,9% ao ano. É menos que o CDI do período, mas não é zero, e houve fases longas em que a bolsa pagou muito bem.
Também não quer dizer que escolher é inútil. Nesse mesmo teste, a régua mensal (preço acima ou abaixo da média dos últimos 5 meses), aplicada papel a papel com o dinheiro no CDI quando a régua ficava em baixa, teve média de +11,7% ao ano nas mesmas 437 ações, e bateu o CDI em 219 delas. Não é milagre: a outra metade ainda ficou abaixo do CDI. Mas mostra que o problema não é a ação. É segurar qualquer coisa, para sempre, sem regra nenhuma de saída.
E vale lembrar o tamanho do Brasil nesse período. Juro alto o tempo todo. O CDI aqui é um adversário que pouca bolsa do mundo enfrenta. Em outro país, com juro baixo, a mesma conta poderia dar outro resultado.
Segurar para sempre também é risco
- Eu separo "a bolsa" de "a minha ação". A primeira tem história de longo prazo. A segunda tem só a dela.
- Eu comparo sempre com o CDI. Uma ação que rendeu 5% ao ano em 15 anos não "deu lucro". Perdeu para o dinheiro parado.
- Segurar para sempre não é ausência de risco. É assumir o risco de ser a ação típica.
- Eu quero saber, antes de entrar, o que me tira do papel.
