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O que a base mostrapor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

As ações que saíram da bolsa renderam mais que as que ficaram

Das 437 ações líquidas da B3 desde 2006, 179 saíram. Segurar essas rendeu +3,7% ao ano. Segurar as que ficaram, −1,3%.

"Saiu da bolsa" soa como enterro.

A cabeça imagina logo a empresa quebrada, o investidor desesperado, o papel que virou pó. E às vezes é isso mesmo.

Só que, na B3, quase nunca foi.

Quando eu juntei todas as ações líquidas que passaram pela bolsa desde 2006, inclusive as que já não existem, e simulei quem segurou cada uma até o fim, aconteceu o contrário do que todo mundo espera. As que saíram renderam mais do que as que ficaram.

Não um pouco mais. Bem mais.

Por que a gente acha que sair é sinônimo de quebrar

Porque as falências fazem barulho. Uma empresa que quebra vira manchete, vira processo, vira caso de estudo. Todo mundo lembra.

Já uma empresa que é comprada por uma concorrente vira uma nota de rodapé. O acionista recebe o dinheiro ou as ações da compradora, o código some do home broker, e ninguém mais fala dela.

E tem o outro lado da moeda, que a gente também não vê: a empresa que não quebra, mas também não anda. Ela continua listada, com o código lá, aparecendo na tela todo dia. Só que a ação está 70%, 80% abaixo de onde já esteve. Ela não morreu. Virou um zumbi. E o zumbi continua na lista "das ações da bolsa", fazendo companhia para quem nunca vendeu.

Morrer de verdade é raro. Ficar parado para sempre é comum.

As que saíram renderam mais que as que ficaram

O teste usou a base própria do Quantor: todas as ações com mais de R$ 5 milhões negociados por dia (em reais de hoje) entre 2006 e setembro de 2026, com dividendos reinvestidos, segurando cada uma do primeiro dia no radar até hoje ou até a saída. Quando a ação saiu, a posição virou o que o acionista recebeu de fato: dinheiro, ações da empresa compradora ou zero, no caso de falência.

Segurando cada ação, 2006–set/2026 Quantas Média ao ano
Saíram da bolsa 179 +3,7%
Continuam listadas 258 −1,3%
Todas 437 +0,7%

Das 179 que saíram, 9 foram a zero. Nomes que muita gente lembra, como MMX (MMXM3), Teka (TEKA4) e Inepar (INET3). O resto saiu, na maioria, por oferta pública de compra ou incorporação, muitas vezes com prêmio sobre o preço de tela.

Do outro lado, entre as que ficaram, estão histórias que doem: Oi, PDG, Americanas, Azul, e uma leva de empresas que abriram capital em 2020 e 2021 e nunca mais viram o preço de estreia. Continuam listadas. Continuam no "universo". E continuam puxando a média para baixo.

Repara que nenhuma delas "quebrou" no sentido que a gente imagina. Elas estão lá. Dá para comprar amanhã. Só que quem segurou com fé, esperando a volta, ficou anos preso a um papel que não devolveu o dinheiro. Para o extrato, esse investidor não perdeu tudo. Para o patrimônio, perdeu o tempo, que é o ativo que não volta.

Por isso a média de quem segurou as listadas de hoje deu negativa, e a de quem segurou as que saíram deu positiva.

Por que isso faz sentido

Pensa em quem compra uma empresa inteira.

Uma concorrente não faz oferta por uma empresa morta. Faz oferta por uma empresa que tem valor: clientes, marca, caixa, operação que se paga. E para convencer os acionistas a vender, costuma pagar acima do preço de tela. A saída, nesses casos, é o prêmio de quem tinha uma coisa boa nas mãos.

A falência existe, mas é a minoria. A maior parte do dano na bolsa não vem da empresa que acaba. Vem da empresa que fica, perdendo valor devagar, enquanto o investidor espera.

E aqui entra a psicologia de novo. A falência obriga uma decisão: o papel acaba, e a perda fica escrita. O zumbi nunca obriga nada. Ele deixa você adiar para sempre a pergunta "eu errei?". É o casamento que ninguém tem coragem de terminar, porque terminar seria admitir que não deu certo.

Nem a turma vencedora bateu o CDI

Isso não quer dizer que sair da bolsa seja sempre bom. Nove ações foram a zero. Quem estava nelas perdeu tudo. E nem toda oferta é generosa: há fechamentos de capital feitos por um preço que o minoritário achou baixo e não teve como recusar.

Também não quer dizer que dá para escolher as próximas que vão receber oferta. No dia em que você compra, não sabe se a empresa vai ser comprada, vai quebrar ou vai virar zumbi. O número acima é uma média olhando para trás, não um mapa do futuro.

E mesmo os +3,7% ao ano das que saíram ficaram longe do CDI do mesmo período, que deu em média +10,5% ao ano nas janelas das 437 ações do teste. A turma "vencedora" desse teste ainda perdeu para o dinheiro parado.

Continuar listada não é estar bem

  • "Continua listada" não é sinônimo de "está bem". Muita ação ruim simplesmente continua ali.
  • O maior risco que eu vejo não é a falência. É ficar anos segurando uma empresa que parou de andar.
  • Quando ouço "pelo menos ela não quebrou", eu pergunto: e quanto ela rendeu contra o CDI nesse tempo?
  • Teste que só olha a lista de hoje deixa de fora tanto as falências quanto as boas saídas. Eu quero as duas na conta.
Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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Conteúdo educacional. Os números vêm da base própria do Quantor e descrevem o que aconteceu, não prometem o que vai acontecer.

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