Diretor comprando ação da própria empresa avisa alguma coisa?
Testei na B3 a ideia de seguir as compras de quem está dentro da empresa. A diretoria comprando rendeu +0,7% ao ano, abaixo do CDI.

"O diretor está comprando. Ele sabe de alguma coisa."
Parece a dica perfeita. Quem conhece a empresa por dentro, quem senta na reunião do conselho, quem vê o caixa antes de todo mundo, está colocando o próprio dinheiro na ação.
Se ele compra, deve ter motivo.
E a frase tem pedigree. Nos livros americanos, seguir a compra dos executivos aparece como um dos sinais clássicos. Faz sentido, não faz? Ninguém conhece a casa melhor do que quem mora nela.
Fui medir isso na B3. E o resultado foi o contrário do que a frase promete.
Por que a cabeça adora essa dica
Porque ela resolve o problema mais chato da bolsa: a incerteza.
Você não sabe se o lucro vai melhorar. Não sabe se a dívida vai apertar. Não sabe o que vem no próximo balanço. Aí aparece alguém que, em tese, sabe. E a cabeça pensa: "pronto, é só ir atrás dele".
Isso tem nome: viés de autoridade. A gente dá mais peso à opinião de quem parece saber mais, e para de pensar por conta própria. É o mesmo mecanismo que faz alguém comprar a ação que o guru indicou ou que o colega do banco comentou no almoço.
E tem um segundo ingrediente, mais sutil: a sensação de informação privilegiada. Saber que o diretor comprou dá a impressão de estar um passo à frente da multidão. A gente adora essa sensação.
Só que "ele sabe mais" não quer dizer "ele está comprando porque sabe que vai subir". Diretor compra ação por muitos motivos. E vários deles não têm nada a ver com o preço de amanhã.
Seguir a diretoria rendeu 0,7% ao ano
A CVM obriga as empresas a informar, todo mês, o que diretores, conselheiros e controladores compraram e venderam da própria ação. Essa base existe desde 2018. Então peguei as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia e montei, de 2019 a 2026, uma carteira de 10 ações que todo mês ia atrás de onde quem está dentro estava comprando. Com custo de 0,1% por operação.
Duas versões: só a diretoria e o conselho comprando, e todos de dentro comprando, incluindo o controlador (o dono da maior fatia da empresa).
| Na mesma janela (2019–2026) | Ao ano | Pior queda |
|---|---|---|
| Diretoria e conselho comprando | +0,7% | −58% |
| Todos de dentro comprando (com controlador) | +10,7% | −57% |
| Todas as ações líquidas | +4,5% | — |
| Ibovespa | +9,1% | — |
| CDI | +9,5% | — |
Lê de novo a primeira linha.
Ir atrás da diretoria comprando rendeu +0,7% ao ano. Abaixo do CDI. Abaixo do Ibovespa. Abaixo até de comprar todas as ações líquidas com peso igual. E com uma queda de 58% no caminho.
Somando o controlador, melhorou: +10,7% ao ano, um pouco acima do CDI na janela toda. Mas a queda foi a mesma, −57%. E quando separei os últimos anos como prova cega, um pedaço do tempo que fica guardado e só é medido no fim, sem mexer em nada, o resultado ficou abaixo do CDI. O sinal não se confirmou.
Ou seja: correr um risco de ação, com queda de mais da metade, para ganhar mais ou menos o que a renda fixa pagou.
Por que na B3 deu o contrário
Aqui entra a parte que eu acho mais interessante. Os números não dizem por quê, mas dá para levantar hipóteses.
A primeira: compra em queda é muitas vezes sinalização. Quando a ação está apanhando, a diretoria às vezes compra para mostrar confiança ao mercado. É um recado: "nós acreditamos". Só que o recado não muda o lucro. Se a ação estava caindo por um motivo real, o motivo continua lá.
A segunda: quem compra muitas vezes já é dono. Na B3, muita empresa tem controlador definido. Quando ele aumenta a posição, pode ser estratégia de controle, de longo prazo, de família. Não é necessariamente uma aposta de que o preço vai subir nos próximos meses.
A terceira: a informação chega atrasada. O dado é mensal e publicado depois. Quando você fica sabendo da compra, o mercado já teve tempo de reagir.
É a mesma lição da picanha. A compra do diretor parece uma etiqueta de "promoção". Mas ação não é produto de prateleira. O preço é o que o mercado espera do lucro daqui para frente, e o diretor comprar não muda o lucro.
Janela curta, média que esconde casos
Seria desonesto parar por aqui.
Primeiro, a janela é curta. A base da CVM só existe desde 2018, então são uns 7 anos e meio de teste, e a prova cega cobre menos de 4 anos. Em ciência, isso é pouco. Pode ser que em outra década o resultado mude.
Segundo, a média esconde casos. Em algum momento, alguma diretoria comprou e a ação disparou. Sempre vai ter a história que confirma a frase. O problema é que ela não se repetiu como regra.
Terceiro, o valor das compras foi estimado pelo preço do fim do mês, porque o formulário quase nunca traz o preço exato da operação. É uma aproximação razoável, mas é aproximação.
E tem um detalhe que eu acho curioso: no mesmo estudo, o lado da venda de quem está dentro pareceu dizer mais do que o da compra. Mas o próprio teste não cumpriu todos os critérios que eu exijo, e a janela é curta. Então fica como indício, em acompanhamento, e não como regra. Não vou transformar um indício em conselho.
Quem está dentro não sabe mais do preço
- Compra de diretor é informação. Não é sinal de compra.
- Eu não terceirizo a minha decisão para a carteira de ninguém, nem para a do dono da empresa.
- Quando uma dica parece boa demais, eu pergunto: isso foi testado, ou só parece lógico?
- O que me interessa continua sendo o que o preço está fazendo e o que o lucro está fazendo. O resto é história.
Quem está dentro sabe mais da empresa. Não quer dizer que sabe mais do preço.
