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O que a base mostrapor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

Diretor comprando ação da própria empresa avisa alguma coisa?

Testei na B3 a ideia de seguir as compras de quem está dentro da empresa. A diretoria comprando rendeu +0,7% ao ano, abaixo do CDI.

"O diretor está comprando. Ele sabe de alguma coisa."

Parece a dica perfeita. Quem conhece a empresa por dentro, quem senta na reunião do conselho, quem vê o caixa antes de todo mundo, está colocando o próprio dinheiro na ação.

Se ele compra, deve ter motivo.

E a frase tem pedigree. Nos livros americanos, seguir a compra dos executivos aparece como um dos sinais clássicos. Faz sentido, não faz? Ninguém conhece a casa melhor do que quem mora nela.

Fui medir isso na B3. E o resultado foi o contrário do que a frase promete.

Por que a cabeça adora essa dica

Porque ela resolve o problema mais chato da bolsa: a incerteza.

Você não sabe se o lucro vai melhorar. Não sabe se a dívida vai apertar. Não sabe o que vem no próximo balanço. Aí aparece alguém que, em tese, sabe. E a cabeça pensa: "pronto, é só ir atrás dele".

Isso tem nome: viés de autoridade. A gente dá mais peso à opinião de quem parece saber mais, e para de pensar por conta própria. É o mesmo mecanismo que faz alguém comprar a ação que o guru indicou ou que o colega do banco comentou no almoço.

E tem um segundo ingrediente, mais sutil: a sensação de informação privilegiada. Saber que o diretor comprou dá a impressão de estar um passo à frente da multidão. A gente adora essa sensação.

Só que "ele sabe mais" não quer dizer "ele está comprando porque sabe que vai subir". Diretor compra ação por muitos motivos. E vários deles não têm nada a ver com o preço de amanhã.

Seguir a diretoria rendeu 0,7% ao ano

A CVM obriga as empresas a informar, todo mês, o que diretores, conselheiros e controladores compraram e venderam da própria ação. Essa base existe desde 2018. Então peguei as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia e montei, de 2019 a 2026, uma carteira de 10 ações que todo mês ia atrás de onde quem está dentro estava comprando. Com custo de 0,1% por operação.

Duas versões: só a diretoria e o conselho comprando, e todos de dentro comprando, incluindo o controlador (o dono da maior fatia da empresa).

Na mesma janela (2019–2026) Ao ano Pior queda
Diretoria e conselho comprando +0,7% −58%
Todos de dentro comprando (com controlador) +10,7% −57%
Todas as ações líquidas +4,5% —
Ibovespa +9,1% —
CDI +9,5% —

Lê de novo a primeira linha.

Ir atrás da diretoria comprando rendeu +0,7% ao ano. Abaixo do CDI. Abaixo do Ibovespa. Abaixo até de comprar todas as ações líquidas com peso igual. E com uma queda de 58% no caminho.

Somando o controlador, melhorou: +10,7% ao ano, um pouco acima do CDI na janela toda. Mas a queda foi a mesma, −57%. E quando separei os últimos anos como prova cega, um pedaço do tempo que fica guardado e só é medido no fim, sem mexer em nada, o resultado ficou abaixo do CDI. O sinal não se confirmou.

Ou seja: correr um risco de ação, com queda de mais da metade, para ganhar mais ou menos o que a renda fixa pagou.

Por que na B3 deu o contrário

Aqui entra a parte que eu acho mais interessante. Os números não dizem por quê, mas dá para levantar hipóteses.

A primeira: compra em queda é muitas vezes sinalização. Quando a ação está apanhando, a diretoria às vezes compra para mostrar confiança ao mercado. É um recado: "nós acreditamos". Só que o recado não muda o lucro. Se a ação estava caindo por um motivo real, o motivo continua lá.

A segunda: quem compra muitas vezes já é dono. Na B3, muita empresa tem controlador definido. Quando ele aumenta a posição, pode ser estratégia de controle, de longo prazo, de família. Não é necessariamente uma aposta de que o preço vai subir nos próximos meses.

A terceira: a informação chega atrasada. O dado é mensal e publicado depois. Quando você fica sabendo da compra, o mercado já teve tempo de reagir.

É a mesma lição da picanha. A compra do diretor parece uma etiqueta de "promoção". Mas ação não é produto de prateleira. O preço é o que o mercado espera do lucro daqui para frente, e o diretor comprar não muda o lucro.

Janela curta, média que esconde casos

Seria desonesto parar por aqui.

Primeiro, a janela é curta. A base da CVM só existe desde 2018, então são uns 7 anos e meio de teste, e a prova cega cobre menos de 4 anos. Em ciência, isso é pouco. Pode ser que em outra década o resultado mude.

Segundo, a média esconde casos. Em algum momento, alguma diretoria comprou e a ação disparou. Sempre vai ter a história que confirma a frase. O problema é que ela não se repetiu como regra.

Terceiro, o valor das compras foi estimado pelo preço do fim do mês, porque o formulário quase nunca traz o preço exato da operação. É uma aproximação razoável, mas é aproximação.

E tem um detalhe que eu acho curioso: no mesmo estudo, o lado da venda de quem está dentro pareceu dizer mais do que o da compra. Mas o próprio teste não cumpriu todos os critérios que eu exijo, e a janela é curta. Então fica como indício, em acompanhamento, e não como regra. Não vou transformar um indício em conselho.

Quem está dentro não sabe mais do preço

  • Compra de diretor é informação. Não é sinal de compra.
  • Eu não terceirizo a minha decisão para a carteira de ninguém, nem para a do dono da empresa.
  • Quando uma dica parece boa demais, eu pergunto: isso foi testado, ou só parece lógico?
  • O que me interessa continua sendo o que o preço está fazendo e o que o lucro está fazendo. O resto é história.

Quem está dentro sabe mais da empresa. Não quer dizer que sabe mais do preço.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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