"Comprar no pânico": o que veio depois dos picos de medo
Olhei os 14 episódios em que o Ibovespa caiu 20% ou mais do topo desde 1995. Na maioria das vezes, quem comprou ali foi bem. Mas o fundo nem sempre estava ali.

Todo mundo concorda que é preciso comprar quando os outros estão com medo.
Até o dia em que todo mundo está com medo.
Aí a frase some. O noticiário está vermelho, o grupo da família só fala em crise, a sua carteira está 30% abaixo do topo e cada dia parece pior que o anterior. Comprar mais, nesse momento, não parece coragem. Parece loucura.
E é exatamente por isso que, na história, esses momentos pagaram bem com tanta frequência.
Só que "com frequência" não é "sempre". E a diferença entre as duas palavras é onde muita gente se machuca.
Por que a cabeça trava no pânico
Três coisas acontecem ao mesmo tempo.
A primeira é a aversão à perda: perder dói muito mais do que ganhar alegra. Quando você já está perdendo, a ideia de colocar mais dinheiro e perder de novo pesa o dobro.
A segunda é o efeito do mais recente: a cabeça projeta para frente o que acabou de acontecer. Caiu ontem, caiu hoje, então vai cair amanhã. A queda recente parece a regra, não um momento.
A terceira é a manada. Quando todo mundo está saindo, ficar parece burrice. Comprar parece insanidade. Ninguém quer ser o único otário que entrou antes do próximo tombo.
O resultado é que a maioria vende no pânico e compra de volta na euforia. Exatamente o contrário do que todos dizem que fariam.
E tem um detalhe cruel. Os maiores dias de alta do Ibovespa vieram colados aos piores. Em março de 2020, o índice caiu 14,8% no dia 12 e subiu 13,9% no dia 13. Quem saiu no desespero, muitas vezes, saiu na véspera do repique, e depois não teve coragem de voltar.
Positivo em 9 de 14 quedas fundas
Eu olhei o fechamento mensal do Ibovespa desde 1995 e marquei os momentos em que ele estava pelo menos 20% abaixo do topo anterior. Foram 14 episódios.
Doze meses depois de cada um, o resultado foi de −22% a +100%. Positivo em 9 dos 14.
Alguns exemplos:
| Momento | Queda do topo | 12 meses depois |
|---|---|---|
| Março de 2020 (pandemia) | −37% | +60% |
| Janeiro de 2016 | −44% | +60% |
| Agosto de 2008 | −23% | +1% (e +1% em 3 anos) |
| 2012 | −20% ou mais | −5% (e −20% em 3 anos) |
Quando o medo foi ainda maior, o padrão ficou mais forte. Nos 47 meses em que o Ibovespa estava 30% ou mais abaixo do topo, o índice estava positivo 12 meses depois em 87% das vezes, com média de +49%. Em qualquer mês, sem filtro nenhum, foi 66% das vezes e média de +17%.
Ou seja: nos dados, comprar quando a queda já era funda deu mais acerto e mais retorno do que comprar num mês qualquer.
O pânico de hoje pode não ser o último
Agora olha de novo para agosto de 2008.
Quem viu o Ibovespa 23% abaixo do topo e pensou "pronto, está barato, é hora", entrou antes do pior. Outubro de 2008 ainda viria, com o mês de −24,8% e dias de −11%. A queda total chegaria a −50%. E, em pontos, o índice só voltou ao topo de 2008 em setembro de 2017. Mais de nove anos.
Em 2012, a mesma coisa em câmera lenta: a queda parecia uma oportunidade, e três anos depois o índice estava 20% mais baixo.
É isso que a frase bonita esconde. O pânico que você está vendo pode não ser o último. Você só sabe que foi o fundo depois. No dia, uma queda de 20% e o começo de uma queda de 50% parecem exatamente iguais.
Tem mais dois cuidados honestos.
Esses números são do índice, em pontos, sem descontar a inflação e sem comparar com o CDI. Uma coisa é o Ibovespa voltar. Outra é ter valido a pena contra o dinheiro que ficaria rendendo juro no Brasil.
E índice não é ação. O Ibovespa troca de composição e sobrevive às crises. Uma ação sozinha, não necessariamente. Nas ações da B3 que caíram 80% do topo, só 8% voltaram ao topo antigo em 5 anos, e 36% ainda chegaram a −95%. Comprar o pânico do mercado é uma coisa. Comprar o pânico de uma empresa específica é outra, bem mais perigosa.
Por fim, 14 episódios em 30 anos é pouca história. Dá para enxergar uma tendência. Não dá para tratar como lei.
E mesmo quando o fundo veio rápido, ninguém o anunciou. Em março de 2020, o dia seguinte ao pior dia foi um dos melhores, e logo depois veio mais uma queda de quase 14%. Quem tentou acertar o dia exato do fundo foi chacoalhado para os dois lados na mesma semana.
Coragem sem plano é impulso
- Nos dados, as grandes quedas do índice foram, com mais frequência, momentos bons para quem já estava com dinheiro e cabeça preparados.
- Mas comprar no pânico exige aguentar mais queda. Se eu não aguentaria ver a posição cair mais 30%, eu não estou preparado para essa compra.
- Eu não confundo "o mercado caiu muito" com "esta ação caiu muito".
- Medo não é sinal de compra por si só. Ele só abre a porta. O que me faz entrar é a regra que eu escrevi antes, não a manchete do dia.
Coragem sem plano é só outro nome para impulso.
