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Ideias testadas nos dadospor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

Se até o porteiro está falando da ação, o perigo é outro

Testei 205 ações "da moda" na B3. Elas não renderam pior que as outras. O risco mora em quem entra no fim, sem regra nenhuma.

"Quando o porteiro começa a dar dica de ação, é hora de sair."

É uma das frases mais antigas do mercado. Dizem que um grande investidor americano vendeu tudo antes da quebra de 1929 depois que o engraxate começou a dar palpite sobre ações.

A gente já viu a cena de perto. O papel que todo grupo de WhatsApp comenta. O podcast que só fala dele. O cunhado no churrasco mostrando o print do lucro. Volume explodindo. Preço subindo em linha reta.

E aí vem a pergunta que todo mundo faz: "Será que ainda dá tempo?"

Eu gosto dessa frase do porteiro. Por muito tempo eu repeti ela como regra. Até que resolvi testar.

E os números me obrigaram a ajustar o que eu dizia.

O que a cabeça faz quando todo mundo está ganhando

Antes dos números, o mecanismo. Porque ele é real, mesmo que a frase não seja exata.

Existe um medo que pesa mais do que o medo de perder: o medo de ficar de fora. Ver o vizinho ganhando dói. A cabeça compara. "Ele ganhou 60% e eu aqui no CDI."

Isso empurra a pessoa a entrar depois de ver o resultado dos outros. Ou seja, depois que a alta já aconteceu.

E tem a prova social. Se muita gente está comprando, deve ter um motivo. A sensação de risco some quando todo mundo ao redor está tranquilo. É por isso que o perigo fica invisível justamente no momento em que mais gente está exposta.

Até aqui, a frase do porteiro parece certíssima. Agora vamos aos dados.

205 casos e nenhum castigo para a moda

Na base do Quantor, com todas as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia entre 2006 e 2026, sem deixar de fora as que quebraram e com os proventos somados, eu defini "ação da moda" de um jeito objetivo:

  • o volume do mês veio 3 vezes acima da média dos últimos 12 meses, e
  • o preço tinha subido mais de 50% em 6 meses.

Barulho e alta forte ao mesmo tempo. O papel de que o porteiro estaria falando.

Foram 205 casos. E o que aconteceu nos 12 meses seguintes?

12 meses depois Ação da moda As outras
Retorno mediano +8% +5%
Caíram 44% 45%

Mediana é o caso do meio: metade foi melhor, metade foi pior.

Ou seja: a ação da moda não rendeu pior que as outras. Também não rendeu claramente melhor. Na média, foi parecida.

Eu poderia esconder isso e continuar repetindo a frase bonita. Mas não faria sentido. O dado não confirma que "virou moda, é hora de correr".

Então onde está o perigo? Porque ele existe. Todo mundo conhece alguém que se queimou num papel da moda.

Onde o perigo mora de verdade

O perigo não está no papel. Está em como a pessoa entra e, principalmente, em como ela não sai.

Pensa em quem entra no auge do barulho. Essa pessoa entra por um motivo emocional: "todo mundo está ganhando". Ela não tem um motivo para sair, porque nunca teve um motivo para entrar. Quando o papel vira, ela não sabe o que fazer. Espera. "Vai voltar."

E aí os números ficam feios. Não da ação da moda em si, mas do que acontece com quem segura qualquer ação depois que ela vira:

  • Das ações da B3 que caíram 50% do topo, 47% ainda chegaram a −80% depois.
  • Das que caíram 80% do topo, só 8% voltaram ao topo antigo em 5 anos. E 36% delas ainda chegaram a −95%.

E tem o custo da hesitação. Nos testes da régua mensal do Quantor (preço acima ou abaixo da média dos últimos 5 meses), quem saiu na hora em que a régua virou para baixo teria tido +13,2% ao ano, com pior queda de −20%. Quem esperou só um mês a mais teria tido +11,1% ao ano, e a pior queda teria ido para −33%.

Um mês de "deixa eu ver se volta" custou 2,1 pontos por ano e mais de 10 pontos de queda extra.

Agora junta as duas coisas. Uma ação que subiu muito rápido costuma devolver rápido também, quando devolve. Quem entrou no fim, sem regra, e hesita na saída, pega exatamente a parte da curva que machuca.

O problema não é o porteiro falar da ação. O problema é você comprar dela pelo mesmo motivo que o porteiro.

Quando a moda continua subindo

Também vale lembrar que tendência forte nem sempre termina logo. Às vezes o papel da moda continua subindo por muito tempo. O Magazine Luiza subiu 6.292% entre 2017 e 2020, e durante boa parte desse caminho já era o assunto de todo mundo. Quem saiu "porque até o porteiro estava falando" deixou muito dinheiro na mesa.

E outra: nos testes, cortar o ganho cedo também custou caro. Saindo pela régua, 7% das entradas passaram de +50%, e o maior ganho foi de +852%. Realizando sempre no +20%, só 1% passou de +50%. Os ganhos grandes são os que pagam os erros pequenos.

Então "correr" do papel da moda por regra fixa não é a resposta. A resposta é ter uma regra de saída que valha para qualquer papel, da moda ou não.

Barulho é só barulho

  • Barulho não é sinal de compra nem de venda. É só barulho.
  • Antes de entrar, eu já sei o que me tira do papel. Se a resposta for "quando todo mundo parar de falar dele", não é regra.
  • Se eu sinto pressa de entrar porque os outros já ganharam, eu paro. Essa pressa é o sinal, não o papel.
  • E eu obedeço a saída quando ela vem. Hesitar foi o que mais custou nos testes.
Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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Conteúdo educacional. Os números vêm da base própria do Quantor e descrevem o que aconteceu, não prometem o que vai acontecer.

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