"Segunda-feira é dia ruim na bolsa"?
Separei 30 anos de pregões do Ibovespa por dia da semana. A segunda foi, sim, levemente pior. Tão levemente que o custo de uma operação apaga a diferença.

Ninguém gosta de segunda-feira.
E a bolsa, dizem, também não.
A teoria é conhecida: no fim de semana as notícias se acumulam, o investidor passa dois dias remoendo o que leu, e chega na segunda com o pé atrás. Resultado: a semana abre no vermelho. Daí a frase: "segunda-feira é dia ruim na bolsa."
Tem gente que evita comprar na segunda. Tem gente que prefere comprar na segunda, "porque está mais barato". Os dois partem da mesma ideia: o dia da semana muda alguma coisa.
Será que muda?
Por que a cabeça acredita
A segunda-feira já chega com má fama. É o dia do despertador, do trânsito, da caixa de e-mail cheia. A gente associa o dia ao mau humor e, sem perceber, espera mau humor do mercado também.
Aí entra a memória seletiva. Uma segunda de queda forte fica marcada: "viu? segunda de novo". Uma quinta de queda forte não ganha a mesma etiqueta, porque não existe frase pronta sobre quinta-feira. O cérebro guarda o que confirma a história e deixa passar o resto.
E tem um motivo que soa técnico: o fim de semana acumula notícia. Isso é verdade. Só que notícia boa também se acumula no fim de semana. A pergunta é se, na soma, as segundas foram de fato piores.
A segunda perdeu por 0,2 ponto
Fui olhar o Ibovespa dia a dia, de 1995 a 2026, em pontos (sem dividendos e sem inflação). Separei cada pregão pelo dia da semana e calculei a variação média e a frequência de dias positivos.
| Dia | Variação média | Dias positivos |
|---|---|---|
| Segunda | −0,04% | 50% |
| Terça | +0,16% | 53% |
| Quarta | +0,11% | 52% |
| Quinta | −0,01% | 52% |
| Sexta | +0,13% | 52% |
A segunda-feira foi, de fato, o pior dia da semana na média: −0,04%. E subiu em 50% das vezes, cara ou coroa perfeito, contra 53% na terça.
Então a frase tem algum fundo de verdade. A segunda foi levemente pior.
Agora repara no tamanho dessa diferença.
A distância entre a segunda e a terça, o melhor dia, foi de 0,2 ponto. E a quinta-feira, que ninguém acusa de nada, ficou praticamente empatada com a segunda: −0,01%. Para comparar: no conjunto de todos os pregões, o Ibovespa subiu em 52,7% dos dias. Todos os dias da semana orbitam esse mesmo cara ou coroa levemente puxado para cima.
Diferença real, pequena demais para usar
Uma coisa é uma diferença existir na média de 30 anos. Outra é ela ser útil.
Pensa no custo. Toda operação tem corretagem, a diferença entre o preço de compra e de venda, emolumentos e, se der lucro, imposto. Nos testes do Quantor com a régua mensal, pagar só 0,25% por troca já tirou 0,8 ponto do retorno anual (de +13,2% para +12,4% ao ano). Um custo desse tamanho, numa única ida e volta, é maior que toda a vantagem média de evitar a segunda.
E a média de um dia esconde uma dispersão enorme. A variação de um único pregão pode ser de vários por cento para cima ou para baixo. Uma diferença de 0,2 ponto se perde nesse barulho. Quem tentasse operar isso estaria tentando ouvir um sussurro no meio de um show de rock.
Os dias extremos não escolheram a segunda
Se a segunda fosse especialmente perigosa, era de esperar que os grandes tombos se concentrassem nela. Não foi o que aconteceu.
Os cinco piores dias do Ibovespa desde 1995:
- 10/09/1998, quinta-feira: −15,8% (crise da Rússia)
- 27/10/1997, segunda-feira: −15,0% (crise da Ásia)
- 12/03/2020, quinta-feira: −14,8% (pandemia)
- 16/03/2020, segunda-feira: −13,9% (pandemia)
- 15/10/2008, quarta-feira: −11,4% (crise de 2008)
Duas segundas, duas quintas, uma quarta. E um dos melhores dias da história, 13/10/2008, com +14,7%, foi justamente uma segunda-feira. Outro, 13/03/2020, +13,9%, uma sexta colada na quinta do tombo. O Joesley Day, 18/05/2017, quando o índice caiu −8,8%, foi uma quinta.
Os grandes dias não escolhem dia da semana. Escolhem crise. E vêm grudados: os maiores dias de alta apareceram na mesma semana ou no mesmo mês dos piores.
Verdadeiro e, mesmo assim, inútil
Existe um registro antigo, em outros mercados, do chamado "efeito segunda-feira": segundas piores que os outros dias. E, nos nossos dados, a segunda também ficou em último lugar. Não é invenção.
O ponto honesto é outro. Uma diferença pode ser verdadeira e, ao mesmo tempo, inútil. Ela aparece na média de milhares de dias, mas não sobrevive ao custo de uma operação e some no barulho de qualquer pregão. E padrões de calendário que todo mundo conhece tendem a enfraquecer, porque as pessoas passam a agir antes deles.
Esse é o tipo de estatística curiosa que vale como conversa de bar. Não como estratégia.
O mercado não sabe que dia é hoje
- A segunda foi o dia mais fraco na média, por 0,2 ponto. Eu sei disso e não mudo nada por causa disso.
- Qualquer custo de operação come essa diferença inteira.
- Eu não escolho o dia de entrar pelo calendário. Escolho pela regra que eu defini antes.
- O que separa resultado bom de ruim na bolsa está em meses e anos de tendência, não no dia da semana.
O mercado não sabe que dia é hoje. Quem sabe é o seu humor.
