"A bolsa sempre sobe no longo prazo"?
Em pontos, o Ibovespa quase sempre subiu em 10 anos. Contra o CDI, a história é outra: nestes 20 anos, a bolsa média brasileira perdeu da renda fixa.

"No longo prazo, a bolsa sempre sobe."
É a frase que se diz para quem está assustado. A carteira caiu, o noticiário está feio, e alguém aparece com a calma de quem sabe: "relaxa, no longo prazo sempre sobe".
E tem um pedaço de verdade nisso. Se você olhar só o número do Ibovespa, em pontos, ao longo de muitos anos, ele de fato tende a estar mais alto.
O problema é a pergunta que a frase esquece de fazer: subiu comparado com o quê?
Porque dinheiro parado no Brasil não fica parado. Ele rende CDI. E a bolsa não compete contra o zero. Compete contra a renda fixa.
Por que a frase convence tanto
Ela convence porque resolve uma dor. Quem está perdendo quer ouvir que a perda é temporária. "Longo prazo" é um lugar confortável para onde empurrar o prejuízo: lá na frente, tudo se resolve.
E ela vem de fora. A frase nasceu em mercados como o americano, onde a bolsa de fato teve décadas muito fortes. A gente importa a conclusão sem importar o contexto: lá os juros eram baixos; aqui, o CDI pagou dois dígitos por boa parte do tempo.
Por fim, ela mistura "subir" com "valer a pena". Uma ação pode subir 50% em dez anos e, mesmo assim, ter sido um péssimo negócio, se a renda fixa rendeu o dobro sem nenhum susto.
Primeiro, do jeito mais generoso com a frase
Comecei pelo jeito mais generoso com a frase: o Ibovespa diário e mensal, de 1995 a 2026, em pontos. Isso quer dizer sem dividendos, sem descontar a inflação e sem comparar com o CDI. A pergunta foi: comprando num mês qualquer, qual a chance de estar no prejuízo depois de cada prazo?
| Olhando depois de | Chance de estar no prejuízo (em pontos) |
|---|---|
| 1 mês | 41% |
| 12 meses | 34% |
| 3 anos | 19% |
| 5 anos | 12% |
| 10 anos | 0% |
Em pontos, a frase parece vencer. Quanto mais longo o prazo, menor a chance de prejuízo. Em 10 anos, nenhuma janela terminou abaixo do ponto de partida.
Mas guarde a ressalva, porque ela muda tudo: isso é em pontos, sem inflação e sem comparar com a renda fixa. Um índice que sobe um pouco em dez anos, num país de inflação e juros altos, pode ter perdido dinheiro de verdade. Contra o CDI, o resultado é bem pior.
E mesmo em pontos, o caminho pode ser longo. Depois do tombo de 2008, o Ibovespa só voltou ao topo antigo em setembro de 2017: 112 meses, mais de nove anos. Quem comprou no fim de 2009, no auge do "o Brasil decolou", viu o índice ir de 68.588 pontos em dezembro de 2009 a 43.350 em dezembro de 2015, −37%, e só voltar ao nível de partida em agosto de 2017.
Agora contra o CDI
Aqui a frase começa a quebrar.
De março de 2006 a setembro de 2026, mais de 20 anos, comparei o Ibovespa com o CDI e com outros mercados, tudo em reais:
| De mar/2006 a set/2026 | Ao ano |
|---|---|
| Ouro em reais | +14,9% |
| S&P 500 em reais (sem dividendos) | +13,8% |
| CDI | +10,2% |
| Ibovespa (sem dividendos) | +8,1% |
| Dólar | +4,4% |
O Ibovespa ficou abaixo do CDI. Em mais de 20 anos.
É verdade que o número do Ibovespa está sem dividendos, e isso puxa para baixo. Então fiz o teste mais justo que dava: todas as ações líquidas da B3, peso igual, segurando sempre, sem deixar de fora as que quebraram ou saíram da bolsa. De 2006 a setembro de 2026, essa carteira rendeu +8,1% ao ano, com uma pior queda de −51%. O CDI do mesmo período rendeu +10,1%, sem queda nenhuma.
Ou seja: no Brasil, nestes 20 anos, a bolsa média não bateu o CDI. Correu mais risco, passou por um tombo de metade do patrimônio, e chegou atrás.
E se em vez da carteira inteira você olhar ação por ação, fica pior. No teste do Laboratório com 437 ações líquidas desde 2006, segurando cada uma no seu período, a média rendeu +0,7% ao ano, contra +10,5% do CDI no período de cada ação. A ação típica, sozinha, perdeu feio da renda fixa.
O mesmo mercado, janelas muito diferentes
Olhando por janelas de cinco anos, dá para ver como "longo prazo" depende de onde você começa:
| Janela | Ibovespa | S&P 500 em reais | Ouro em reais |
|---|---|---|---|
| 2006–2011 | +75% | −25% | +73% |
| 2011–2016 | −39% | +275% | +108% |
| 2016–2021 | +187% | +157% | +122% |
| 2021–2026 | +56% | +78% | +144% |
Quem entrou no Ibovespa em 2011 passou cinco anos perdendo 39%. Quem entrou no S&P em reais em 2006 passou cinco anos perdendo 25%. Nenhum mercado "sempre subiu" em qualquer janela. E o S&P em reais, o melhor dos índices de ações aqui, chegou a cair −44% desde 2006.
O problema foi segurar qualquer coisa
Não quero trocar uma frase ruim por outra. A bolsa não é inútil, e o CDI não é imbatível.
Teve janela em que a bolsa brasileira deixou a renda fixa para trás com folga, como 2016–2021. E teve forma de estar na bolsa que se saiu melhor do que segurar tudo. No mesmo período de 2006 a 2026, a mesma carteira de ações líquidas, seguindo a régua mensal (dentro quando o preço estava acima da média dos últimos 5 meses, no CDI quando estava abaixo), rendeu +13,2% ao ano com pior queda de −20%. Num teste, sem custos, olhando para trás. Mas mostra que o problema não foi "ter ações". Foi segurar qualquer coisa, para sempre, contando com o tempo.
O tempo não resolve sozinho. Ele só alonga o que já está acontecendo.
A régua é o CDI, não o zero
- Eu não comparo a bolsa com o zero. Comparo com o CDI, porque é o que o meu dinheiro renderia sem risco.
- Em pontos, o Ibovespa quase sempre subiu em 10 anos. Contra o CDI, nestes 20 anos, a bolsa média perdeu.
- "Longo prazo" depende de onde você começa: 2008 levou mais de nove anos só para voltar ao topo em pontos.
- Para mim, ter bolsa só faz sentido com um motivo para estar nela e uma regra para sair dela.
A bolsa pode subir no longo prazo e ainda assim perder da renda fixa. As duas coisas foram verdade aqui.
