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Frases da bolsa, testadaspor Vinícius Rosa · 5 min de leitura

"O rali de fim de ano existe"?

Olhei 31 dezembros do Ibovespa. Dezembro foi, em média, melhor que um mês qualquer. Mas um em cada três dezembros caiu, e a média esconde muita coisa.

Todo ano, lá por novembro, ela volta.

"Agora vem o rali de fim de ano."

A ideia é simples: em dezembro a bolsa sobe. Tem 13º salário entrando, tem fundo arrumando a carteira para fechar o ano bonito, tem clima de festa. Então quem entra antes pega a alta.

Parece um presente de Natal do mercado. A pergunta é se o presente chega mesmo, e com que frequência.

Por que a cabeça adora um calendário

A bolsa é incerta. Isso incomoda.

Um calendário acalma. Se existe um mês "bom", existe um momento certo de entrar. A incerteza vira agenda. Você não precisa entender nada, só marcar a data.

E a memória ajuda a reforçar. Você lembra do dezembro em que a carteira subiu bonito, porque ele combinou com a história que você já tinha na cabeça. O dezembro que caiu some, ou vira "exceção". Isso é viés de confirmação: a gente guarda o que confirma o que já acredita e esquece o resto.

Some a isso o fato de que a frase vem com explicações que fazem sentido. Dinheiro do 13º, gestores querendo mostrar ganho no balanço do ano. Quando uma história tem um "porquê" convincente, a gente para de perguntar se ela é verdadeira.

Então vamos perguntar.

Dezembro rendeu o dobro e caiu em 32%

Peguei o Ibovespa mês a mês, de 1995 a 2026, em pontos. Isso quer dizer: sem somar os dividendos e sem descontar a inflação. É o número que aparece no jornal.

Média do mês Meses positivos
Dezembro +2,9% 68% (31 anos)
Qualquer mês +1,4% 58%

Então, sim: dezembro foi melhor que um mês qualquer. Rendeu, em média, o dobro. E subiu com mais frequência: em 68% dos anos, contra 58% de um mês comum.

A frase tem um fundo de verdade. Não dá para dizer que é lenda.

Mas olha o outro lado do mesmo número. Se dezembro subiu em 68% dos anos, caiu em 32%. Praticamente um em cada três dezembros foi de queda. Quem contava com o rali como coisa certa se frustrou, em média, a cada três anos.

E +2,9% é uma média. Média mistura dezembros de alta forte com dezembros ruins. Ela não diz o que vai acontecer no seu dezembro.

A sazonalidade mais ampla

Dezembro não está sozinho. Olhando o ano em duas metades, aparece um padrão parecido, maior:

  • De novembro a abril, o Ibovespa subiu em média +14,0%, positivo em 84% dos 31 anos.
  • De maio a outubro, média de +3,0%, positivo em 63% dos 32 anos.

O fim e o começo do ano, juntos, foram bem mais fortes que o meio.

Mas aqui entra um aviso importante. Esse período começa em 1995, e os anos 1990 foram uma era de inflação alta, câmbio instável e crises em série. Os grandes tombos e as grandes altas daquela época pesam muito numa média de 30 anos. Parte do que parece "calendário" pode ser só o acaso de onde caíram as crises da Ásia, da Rússia e do câmbio.

Com 31 dezembros, cada ano extremo mexe bastante na média. É pouca amostra para cravar uma lei.

Vantagem pequena contra risco grande

Primeiro: um padrão de calendário que todo mundo conhece tende a ficar mais fraco. Se todo mundo sabe que dezembro sobe, alguém compra em novembro para chegar antes. Aí outro compra em outubro. O efeito vai sendo puxado para trás e diluído. Não digo que isso aconteceu aqui; digo que é o risco natural de qualquer padrão que vira frase popular.

Segundo: o tamanho da vantagem é pequeno perto do tamanho do risco. A diferença média entre dezembro e um mês qualquer foi de 1,5 ponto. Um único mês ruim de bolsa, desses que aparecem algumas vezes por década, apaga isso com folga. Quem entra só por causa do calendário está apostando um ganho médio pequeno contra uma perda possível grande.

Terceiro: o custo. Entrar e sair todo ano por causa de um mês tem corretagem, diferença entre o preço de compra e de venda, imposto. Em retornos pequenos, o custo come uma parte grande do que sobra.

E quarto: tentar acertar a data é um primo próximo de tentar acertar o fundo e o topo. Nos testes com o Ibovespa diário, ficar fora dos 10 melhores dias entre 1995 e 2026 derrubou o retorno de +13,2% para +7,8% ao ano. Quem fica pulando para dentro e para fora conforme o calendário corre o risco de perder justamente os dias que fazem o ano.

Curiosidade interessante, não método

Seria desonesto dizer que o calendário não mostra nada. Mostra. Dezembro foi, na média destes 31 anos, um mês melhor que os outros, e o semestre de novembro a abril foi bem mais forte que o de maio a outubro.

O ponto não é que a estatística está errada. É que ela é fraca demais para virar decisão sozinha. Um padrão que acerta dois em três, com amostra pequena e período contaminado por uma era de inflação, é uma curiosidade interessante. Não é um método.

É parecido com outra frase de calendário, "janeiro define o ano". Nos mesmos dados, janeiro acertou o sinal do resto do ano em 20 de 30 anos, 67%. Pouco mais do que tirar cara ou coroa.

Dezembro bom é bônus, não plano

  • Dezembro foi melhor na média. Eu sei disso e não decido nada por causa disso.
  • Um em cada três dezembros caiu. Para mim, isso basta para não tratar o "rali" como certeza.
  • Eu olho para a tendência do papel e da bolsa no mês, não para a folhinha na parede.
  • Se o meu plano já diz que estou dentro, dezembro bom é bônus. Se diz que estou fora, o calendário não muda isso.

A bolsa não lê o calendário. Quem lê é a gente.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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