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Ideias testadas nos dadospor Vinícius Rosa · 5 min de leitura

Rentabilidade passada não garante futuro. Eu testei de olhos vendados

Guardei dez anos de dados numa gaveta trancada e deixei as estratégias vencedoras provarem que eram boas. Quase nenhuma provou.

"Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura."

Você já leu essa frase mil vezes. Ela vem em letra miúda, no rodapé de todo fundo, todo relatório, toda propaganda.

E ninguém acredita nela.

Porque, quando a gente vê um gráfico subindo há cinco anos, a cabeça não lê o rodapé. Lê o gráfico. "Essa ação subiu bem nos últimos anos, deve continuar." "Essa estratégia rendeu 25% ao ano, é só seguir."

Eu resolvi levar a frase a sério. E testar.

Por que a cabeça confia no retrovisor

O cérebro foi feito para achar padrão. Se choveu três dias seguidos, ele espera chuva no quarto. Se a ação subiu três anos, ele espera o quarto.

Na bolsa isso é traiçoeiro por um motivo simples: sempre vai existir alguma coisa que subiu muito no passado. Pegue mil ações, mil estratégias, mil fundos. Alguns vão ter um histórico lindo só por sorte, do mesmo jeito que, se mil pessoas jogarem moeda dez vezes, alguém vai tirar dez caras seguidas.

Essa pessoa não tem um dom. Teve sorte. Mas, olhando só o resultado, ela parece um gênio.

Quanto mais coisa você testa, mais fácil é achar um "gênio" desses. E mais fácil é se enganar.

A prova cega

Então fiz o seguinte no Laboratório do Quantor.

Peguei a base da B3 de 2006 a 2026, com as empresas que quebraram e saíram da bolsa. Dividi em duas metades:

  • 2006 a 2016: a parte aberta. Aqui eu podia testar, comparar e escolher.
  • 2017 a 2026: a gaveta trancada. Ninguém olhava. Só no final, e só para as vencedoras.

Antes de rodar qualquer coisa, escrevi num arquivo as regras do jogo: quais ideias seriam testadas, como, e o que contaria como "vencer". Sem poder mudar depois. É como prova de escola: o professor escreve o gabarito antes de corrigir, não depois de ver as respostas.

Foram 36 ideias só com preço e volume, cada uma em duas versões: 72 testes. Momentum de vários prazos, ações perto do topo, médias, volume, força relativa. Tudo o que circula por aí.

A régua para vencer: bater a melhor regra do Laboratório, sem cair muito mais que ela.

Cinco finalistas, cinco derrotas na gaveta

Na parte aberta, 2006 a 2016, cinco ideias chegaram à final. Todas bateram a melhor regra do Laboratório. Por pouco: entre 0,6 e 1,0 ponto ao ano a mais.

Aí abri a gaveta.

As cinco perderam. Nenhuma bateu a melhor regra em 2017–2026. Ficaram de 0,7 a 6,7 pontos ao ano abaixo dela.

Dois exemplos:

Estratégia 2006–2016 (aberto) 2017–2026 (gaveta)
Novos topos (as que mais renovaram máximas) +26,5% ao ano, pior queda −16,8% +20,0% ao ano, pior queda −27,6%
Momentum de 9 meses (as que mais subiram em 9 meses) +24,7% ao ano +14,6% ao ano

O caso do momentum de 9 meses é o mais didático. Eu tinha decidido antes: "o momentum que for melhor na parte aberta segue para os testes seguintes". Ele ganhou. Na gaveta, rendeu 10 pontos ao ano a menos.

É o retrato exato de escolher o vencedor do passado.

E não foi só nesse estudo. No teste de 596 setups gráficos (candles, gaps, quedas, calendário), 55 foram aprovados na parte aberta. Na gaveta, sobrou um: comprar na abertura um gap de baixa de mais de 2% e vender na abertura seguinte. E até esse está sumindo: rendia cerca de +1% por operação em 2006–2009 e ficou negativo em 2021–2026.

Efeitos de calendário, como a "virada do mês", eram fortes até 2016. Desapareceram depois.

E o investidor que começa com sorte? Num sorteio de 4.000 carteiras de 5 ações, as que ganharam 53% ou mais no primeiro ano tiveram, no segundo, mediana de +9%, e bateram o CDI em 51% das vezes. Qualquer outra carteira bateu em 46%. O primeiro ano bom não disse nada sobre o segundo.

O passado serve, com a gaveta trancada

Seria fácil concluir "então nada funciona, o passado é inútil". Não é isso.

O passado é a única coisa que a gente tem para testar uma ideia. O problema não é olhar para trás. É olhar para trás sem trancar a gaveta: testar até achar algo bonito e chamar isso de prova.

Algumas coisas aguentaram a gaveta. Na pesquisa de carteiras, a regra de dividendos de preço-teto confirmou fora da amostra. E o que mais ajudou quase tudo, em todos os estudos, foi o mais sem graça: sair para o CDI quando a régua do Ibovespa vira para baixo.

Outra honestidade: mesmo o que passa na prova cega não está garantido. Quando se fazem mais de mil testes, algum passa por acaso. Nem a melhor regra do Laboratório passa limpa nesse desconto de sorte. Passar na gaveta é condição necessária. Não é certeza.

E vale para o outro lado também: a ação que subiu muito não está "condenada" a cair. Ela só não está garantida.

O passado mede o risco, não promete retorno

  • Quando vejo um histórico bonito, pergunto: quantas outras coisas foram testadas para chegar nessa?
  • Desconfio de vantagem pequena. Ganhar por menos de 1 ponto ao ano no passado cabe dentro do acaso.
  • Prefiro regra simples, escrita antes, a regra esperta descoberta depois.
  • Uso o passado para saber o tamanho do risco, não para prometer o retorno.
  • E leio o rodapé. Ele está certo.
Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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