A curva que só sobe, até descer tudo
Toda estratégia tem um período em que parece perfeita. A pergunta que importa é outra: o que ela faz no pior momento dela?

Toda estratégia bonita tem uma foto.
A curva subindo devagar, sem susto, mês após mês. Quem mostra a foto escolhe a moldura. E a moldura quase sempre corta o pedaço que dói.
A curva que só sobe não existe. Existe a curva que só subiu até a data do print.
E é aí que muita gente coloca o dinheiro: no fim da parte bonita.
Por que a cabeça compra a foto
A cabeça adora sequência. Dez meses no verde parecem prova. Dezoito dias seguidos de ganho parecem método.
Isso tem nome: viés de recência. O que aconteceu por último pesa mais do que tudo o que veio antes. Se a estratégia ganhou nos últimos três anos, a cabeça conclui que ela "funciona", e para de perguntar em que condições ela ganhou.
Tem um segundo truque, mais perigoso. A curva lisa quase sempre esconde um risco que não aparece no gráfico enquanto não acontece. Ganhar pouco muitas vezes e, de vez em quando, perder muito. O preço médio feito para "consertar" a operação ruim. A alavancagem que transforma uma queda normal num buraco.
A curva fica bonita justamente porque o risco está guardado. Ele não sumiu. Está esperando.
Por isso a pergunta certa nunca é "quanto essa estratégia ganha?". É "quanto ela perde quando tudo dá errado, e quanto tempo fica errada?".
Três curvas bonitas vistas por dentro
O Laboratório do Quantor testou 32 estratégias populares de seleção de ações, em 64 versões, na base própria da B3 de 2006 a 2026, com as empresas que quebraram e saíram da bolsa, dividendos reinvestidos e custo de operação. Escolhi três casos que mostram bem como a foto engana.
1. A regra do preço-teto de dividendos (Bazin). A ideia: comprar só ações que pagam pelo menos 6% ao ano em dividendos e esperar. Foi a família mais forte do lote. A melhor versão, exigindo cinco anos seguidos de pagamento, rendeu +16,7% ao ano no período todo, contra +10,2% do CDI e +8,6% do Ibovespa.
Bonito. Agora olha o período a período da versão mais simples (dividend yield de 6%, top 10, revisão mensal):
| Período | Ao ano |
|---|---|
| 2006–2012 | +25,5% |
| 2013–2019 | +13,3% |
| 2020–2026 | +6,0% |
Quem olhasse a curva em 2019 veria uma máquina. Quem entrou ali pegou a parte em que, segundo o relatório, nenhuma versão bateu o CDI com folga: rendendo de 6% a 7% ao ano contra 10% do CDI. E no caminho, a pior queda da versão simples chegou a −51%.
A regra não mudou. O mundo mudou.
2. O número de Graham. Comprar ações abaixo do "preço justo" de Graham, com margem de segurança. No período todo, rendeu entre +9,8% e +10,9% ao ano, praticamente o CDI. Mas por dentro:
| Período | Ao ano |
|---|---|
| 2011–2015 | −11% |
| 2016–2020 | +41% a +45% |
| 2021–2026 | +5% |
Se você conhecesse essa estratégia em 2020, depois de cinco anos rendendo mais de 40% ao ano, ia achar que tinha encontrado o caminho. O relatório resume: um "valor barato" que só funcionou num quinquênio.
3. As pequenas que "crescem mais". A teoria diz que as empresas menores rendem mais no longo prazo. Na base sem viés, as 10 menores ações líquidas renderam −8,2% ao ano, com pior queda de −88%. Só 2016–2020 foi positivo. O motivo: as menores de um mês qualquer quase sempre eram empresas em crise. O "prêmio de tamanho" virou prêmio de quebra.
E tem o fundo do poço. As regras de "comprar o que mais caiu" renderam de −13% a −15% ao ano, com quedas de 97% a 98%. R$ 1.000 em 2006 viraram cerca de R$ 40. Os meses de estrago foram as crises: março de 2020, setembro e outubro de 2008, junho de 2022.
O pior dia diz mais que o melhor ano
Repara no padrão dos três casos.
A estratégia não estava errada o tempo todo. Ela estava certa por um tempo. Às vezes por muito tempo. E é exatamente isso que torna a coisa perigosa: o período bom constrói a confiança que vai ser cobrada no período ruim.
Um investidor que entra numa estratégia depois de cinco anos excelentes geralmente entra com mais dinheiro, mais certeza e menos plano. Se ela vira, ele não tem regra para sair. Só tem a lembrança da curva bonita. E aí vem a frase de sempre: "vai voltar".
Na base do Quantor, das ações que caíram 50% do topo, 47% ainda chegaram a −80% depois. Quem tenta salvar a operação ruim, dobrando a posição, costuma descobrir isso do pior jeito.
A quebra raramente vem do erro. Vem da tentativa de consertar o erro com desespero.
A curva não precisa ser perfeita
Seria desonesto dizer que nada disso presta. A regra de dividendos bateu o CDI e o Ibovespa no período todo, e na prova cega (testada só em 2017–2026, sem ajuste) ainda rendeu +12,9% ao ano com o CDI em 9,1%. Ela não quebrou. Ela ficou fraca por um tempo longo.
E o que mais ajudou, em quase todas as estratégias testadas, foi algo simples: uma trava que manda o dinheiro para o CDI quando o Ibovespa fecha o mês em baixa na régua. Na versão de dividendos com cinco anos de pagamento, a pior queda foi de −42% para −20% com a trava, e o retorno ficou praticamente igual (+16,4% contra +16,7%).
Ou seja: a curva não precisa ser perfeita. Precisa ter um plano para quando ela entorta.
Procurar primeiro o período que não funcionou
- Quando vejo uma curva bonita, a primeira coisa que procuro é o período em que ela não funcionou. Se não me mostram, desconfio.
- Olho a estratégia em pedaços. Uma média de 20 anos esconde décadas muito diferentes.
- Pergunto sempre: qual foi a pior queda, e quanto tempo levou para sair dela?
- Não uso preço médio para salvar operação errada. Uso regra de saída escrita antes.
- E lembro que toda estratégia vai ter o seu período ruim. A questão é se eu vou estar preparado quando ele chegar.
