Diversificar demais é andar de lado?
Sorteei carteiras de 5, 10, 20 e 40 ações na B3. De 20 para 40, quase nada mudou. Mas o motivo não é o que a frase faz parecer.

Tem investidor que compra 30, 40 ações e chama isso de prudência.
Na prática, muitas vezes é outra coisa: medo de escolher.
Cada ação nova na carteira parece mais uma camada de proteção. Mais um nome, mais segurança. Só que proteção tem limite. Depois de certo ponto, a ação nova não protege mais nada. Só ocupa espaço, tempo e atenção.
A pergunta honesta é: onde fica esse ponto? E o que acontece depois dele?
Por que a gente pulveriza
O motivo raramente é técnico. É emocional.
Medo de errar sozinho. Com 40 ações, nenhuma decisão parece grande. Se uma cair, "é só 2,5% da carteira". Ninguém precisa assumir o erro.
Medo de ficar de fora. Saiu uma notícia boa de um setor, entra uma ação. Um amigo falou de outra, entra mais uma. A carteira cresce por acúmulo, não por critério.
A ilusão de controle. Muita coisa na tela dá a sensação de que tudo está sendo vigiado. Na verdade, ninguém acompanha 40 empresas de perto. Você mal lembra o código de metade delas.
É como rodízio de pizza. Você pega um pedaço de cada sabor que passa, com medo de perder o melhor. No fim, comeu de tudo, não lembra de nenhum e saiu do mesmo jeito que sairia comendo a de sempre.
Diversificação demais costuma ser falta de convicção vestida de prudência. E o curioso é que ela não protege do que a pessoa mais teme. Quem compra 40 ações com medo de uma queda grande descobre, na primeira crise, que as 40 caem juntas.
Mais ações, a mesma mediana
Para não ficar só na opinião, sorteei 2.000 carteiras na base do Quantor: ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia, de 2006 a setembro de 2026, incluindo as que quebraram e saíram da bolsa, com proventos e sem custos. Peso igual entre as ações, cada carteira segurada por 5 anos.
A pergunta era: quantas dessas carteiras terminaram os 5 anos perdendo dinheiro?
| Ações na carteira | Terminaram perdendo dinheiro em 5 anos |
|---|---|
| 5 | 15% |
| 10 | 9% |
| 20 | 5% |
| 40 | 2% |
De 5 para 10 ações, a chance de terminar no prejuízo caiu quase pela metade. De 10 para 20, caiu de novo. De 20 para 40, você dobrou o número de empresas para tirar mais 3 pontos de uma fatia que já era pequena.
E aqui vem a parte que contraria a frase do título.
A carteira típica, a do meio da fila, não piorou com mais ações. A mediana ficou entre +44% e +57% em 5 anos em todos os tamanhos, de uma a quarenta ações. A chance de bater o CDI também mal se mexeu: ficou entre 45% e 50% em todos os tamanhos.
Ou seja: diversificar demais não fez a carteira típica andar de lado. Ela rendeu parecido. O que mudou foi outra coisa.
O que realmente some quando você pulveriza
Some a ponta. Das duas pontas.
Com uma ação só, as 10% piores carteiras perderam −68% ou mais, e as 10% melhores ganharam +202% ou mais. Conforme você soma ações, as duas pontas se aproximam do meio. O desastre fica raro. O resultado extraordinário também.
Com 40 ações, cada uma pesa 2,5%. Se uma dobrar, a carteira sobe 2,5%. Se uma cair pela metade, a carteira perde 1,25%. Nada mexe a agulha sozinho. A carteira passa a ser, na prática, um retrato do mercado.
E o mercado, nesse período, teve dias ruins de verdade. Em 2008, 92% das ações líquidas caíram no ano. Em 2024, 81%. Quando quase tudo cai junto, ter 40 ações não ajuda muito mais do que ter 20. Esse é o risco do mercado inteiro, que nenhuma quantidade de nomes tira.
Então a frase certa não é "diversificar demais faz andar de lado". É: depois de um certo ponto, diversificar para de proteger e só deixa a carteira parecida com o mercado, com mais trabalho.
Quando 40 ações fazem sentido
Seria injusto tratar 40 ações como erro.
Para quem não quer escolher, não tem tempo de acompanhar e aceita ter o resultado do mercado, uma carteira bem espalhada é coerente. Ela reduziu a chance de prejuízo em 5 anos para 2%. Isso tem valor, principalmente para quem não aguentaria ver uma empresa derreter.
Mas aí vale uma pergunta prática: se a ideia é ter o mercado, por que montar isso na mão, papel a papel, com 40 ordens, 40 extratos de provento e 40 empresas para acompanhar?
E tem um ponto que vale para qualquer tamanho. O sorteio mostra que sortear não é método: de 5 a 40 ações, metade ou menos bateu o CDI. Diversificar dilui o risco de uma empresa específica. Não cria critério. Não diz quando sair. Não escolhe por você.
Dividir é bom, pulverizar é se esconder
- O grosso da proteção veio cedo: de uma para dez ações a fatia no prejuízo despencou.
- De 20 para 40, quase nada mudou. Eu não somo nome novo achando que estou me protegendo.
- Mais ações não me dão um retorno menor. Me dão um resultado mais parecido com o do mercado, e mais trabalho.
- Proteção de verdade vem de critério para escolher e de regra para sair, não da quantidade de códigos na tela.
- Prefiro conhecer bem poucas empresas do que ter dezenas que eu nem lembro o código.
Dividir é bom. Pulverizar é se esconder da responsabilidade de escolher.
