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Os mestres, testados na B3 · Aula 4 de 8

Lynch: a categoria antes do múltiplo, e o PEG que quase nunca acha ação

Peter Lynch separava as empresas em seis tipos antes de olhar qualquer número. Na B3, 58 de 147 ações líquidas multiplicaram por dez desde 2006, mas caíram 53% no caminho, na mediana. E a regra do PEG achou, em média, três empresas por ano.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Lynch: a categoria antes do múltiplo, e o PEG que quase nunca acha ação

Em 1 minuto

  • Lynch classificava a empresa em um de seis tipos antes de ler o múltiplo: o mesmo P/L é preço justo numa empresa de crescimento e armadilha numa cíclica.
  • Na B3, 58 de 147 ações líquidas multiplicaram por dez desde 2006, mas a mediana caiu 53% no caminho e levou 107 meses.
  • A regra do PEG achou em média três empresas por ano e ficou 70% no CDI; crescimento sem preço foi pior ainda: 1,2% ao ano comprando quem mais cresceu a receita.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Classificar uma empresa numa das seis categorias de Lynch antes de olhar o P/L
  • Calcular o PEG e saber quando ele não se aplica
  • Dimensionar uma posição para a queda que vem no caminho da multiplicação

A tese: o número só significa algo depois da categoria

Peter Lynch dirigiu o fundo Magellan, da Fidelity, de 1977 a 1990, período em que o fundo rendeu em média cerca de 29% ao ano. Depois escreveu O Jeito Peter Lynch de Investir (One Up on Wall Street, 1989), que popularizou duas ideias: o tenbagger, a ação que multiplica o dinheiro por dez, e o PEG, o P/L dividido pelo crescimento do lucro.

A ideia mais útil do livro, porém, vem antes das duas. Lynch separava as empresas em seis categorias antes de abrir qualquer múltiplo, porque o mesmo número significa coisas opostas em tipos diferentes de negócio. Quem pula essa etapa lê o P/L certo com a régua errada.

A ideia: Conhecer a empresa é ter a pergunta. A categoria é saber qual régua usar.

O mecanismo: três forças que mudam o sentido do múltiplo

1. Seis tipos, seis réguas. As de crescimento lento, as sólidas (que crescem de forma estável), as de crescimento rápido, as cíclicas (que seguem a economia ou uma commodity), as em recuperação e as que valem pelo patrimônio que têm. Um P/L de 30 numa empresa de crescimento rápido pode ser preço justo. Numa cíclica, costuma aparecer no fundo do ciclo, quando o lucro despencou. Em 30/09/2026, a Vale (VALE3) estava a P/L 27,5 com o lucro de 12 meses 64% menor: o múltiplo subiu porque o denominador encolheu. O módulo 7 mostra esse mecanismo por inteiro.

2. O PEG compara o preço com o crescimento. Pegue o P/L e divida pela taxa de crescimento do lucro, em %. Uma empresa a P/L 12 com lucro crescendo 20% ao ano tem PEG de 0,6. Para Lynch, PEG perto de 1 era preço justo; bem abaixo de 1, pechincha. E ele desconfiava de crescimento acima de 25% ou 30% ao ano, porque raramente dura. A ideia ganhou um nome genérico: GARP, crescimento a preço razoável.

3. A categoria muda sem avisar. A empresa de crescimento rápido é a fonte das grandes multiplicações e também das maiores quedas, porque o preço já carrega anos de crescimento esperado. Quando o crescimento para, ela não vira barata. Vira outra coisa.

A mesma empresa, duas categorias

A Magazine Luiza (MGLU3) é o caso mais didático da B3. Em novembro de 2015, a ação valia R$ 0,31, em preço ajustado por desdobramentos, grupamentos e proventos. Em janeiro de 2021, R$ 231,29. Multiplicou por 750 em pouco mais de cinco anos. Era a empresa de crescimento rápido que Lynch passaria o livro elogiando.

Depois, o crescimento parou e o lucro quase sumiu. De 29/01/2021 a 30/09/2026, a ação caiu 96,8%, e o ROE da empresa estava em 0,8%. Com lucro desse tamanho, o P/L não quer dizer nada. A empresa mudou de categoria, de crescimento rápido para recuperação, e quem continuou lendo com a régua de 2019 esperou uma volta que não veio.

O teste: quanto custa uma tenbagger

Nos fechamentos mensais com proventos desde 2006, contamos quantas ações líquidas da B3 multiplicaram por dez em até dez anos, e quanto cada uma caiu no caminho. Só entram as que ainda negociam com liquidez em setembro de 2026. As que fecharam o capital ou quebraram não aparecem, o que deixa o quadro otimista.

Antes de continuar: Das 147 ações líquidas de hoje, quantas multiplicaram por dez em até dez anos em algum momento desde 2006?

a) Umas 5: tenbagger é raridade · b) Umas 20 · c) 58: quase quatro em cada dez

Resposta: 58: quase quatro em cada dez. 58 de 147. Parece muito, e a ressalva importa: quem quebrou não está na conta. Mas o dado que decide é outro: quanto elas caíram antes de chegar lá.

58 de 147 ações líquidas que multiplicaram por dez em até dez anos, desde 2006 · −53% queda mediana no caminho até os dez · 33 de 58 perderam metade do valor ou mais antes de chegar · 107 meses espera mediana, quase nove anos

Cuidado: A tenbagger não é uma ação que sobe. É uma ação que você aguentou segurar enquanto ela caía pela metade.

Uma queda de 53% pede alta de 112,8% só para voltar ao preço de compra. É o pedágio mediano de uma multiplicação por dez. E várias devolveram quase tudo depois: a Magazine Luiza é só a mais famosa.

O teste do PEG: procura-se uma ação de Lynch

A regra do PEG foi testada de maio de 2011 a setembro de 2026. Todo abril, entre as empresas não financeiras com pelo menos R$ 5 milhões por dia de negócios, inclusive as que depois saíram da bolsa: lucro crescendo entre 10% e 30% ao ano nos últimos 3 anos, PEG abaixo de 1 e dívida de no máximo um terço do patrimônio. Até 10, as de menor PEG. Vaga sem candidata ficava no CDI.

Antes de continuar: Em cada abril, quantas empresas líquidas da B3 passaram em todos os critérios de Lynch, em média?

a) Umas 30 · b) Umas 10 · c) Três, e nenhuma em abril de 2021

Resposta: Três, e nenhuma em abril de 2021. Três, em média, nunca mais que sete. Em 2016, 2017 e 2020, uma só; em 2021, nenhuma. Por isso, em média, 70% do dinheiro ficou no CDI.

O PEG rendeu 7,4% ao ano, abaixo do CDI (9,8%), com pior queda de 21%. Um sorteio com o mesmo calendário fez 7,2%: empate. O resultado é mais Selic que Lynch. Crescer 10% a 30% ao ano por três anos seguidos, sem dívida e sem estar caro, é uma combinação rara por aqui.

A versão frouxa, o GARP (todo mês, as 10 com lucro crescendo pelo menos 15% e P/L até 15, sem exigência de dívida), rendeu 13,0% ao ano, mas com queda de 44%. Por blocos, o padrão dos métodos de valor: −6,6% em 2011–15, +39,3% em 2016–20 e +9,9% em 2021–26. Nenhum dos dois passou no critério completo: bater o CDI e o sorteio com folga em cada bloco e aguentar custos maiores.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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