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Os mestres, testados na B3 · Aula 3 de 8

Greenblatt: a fórmula que quase ninguém aguenta seguir

Bom e barato ao mesmo tempo, escolhido por uma conta de duas linhas. Na B3, de 2011 a 2026, a fórmula mágica rendeu 6,6% ao ano, quase o mesmo que um sorteio, e dependeu de duas carteiras em quinze. O difícil nunca foi a conta.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Greenblatt: a fórmula que quase ninguém aguenta seguir

Em 1 minuto

  • A fórmula de Greenblatt junta qualidade (retorno sobre o capital) e preço (lucro sobre o valor da empresa) num ranking só, e compra o que é bom e barato ao mesmo tempo.
  • Na B3, de 2011 a 2026, rendeu 6,6% ao ano, perto de um sorteio (6,2%) e abaixo do CDI (9,8%), e o resultado dependeu de duas carteiras em quinze.
  • De 2011 a 2015, a fórmula perdeu 10,1% ao ano, e só quem ficou pegou a carteira de 2016: ela diz o que comprar, não quando o mercado vai concordar.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Montar o ranking de Greenblatt somando duas posições
  • Reconhecer o que a lista está comprando: o barato que o mercado abandonou
  • Medir quanto um resultado depende de poucos anos excepcionais

A tese: a conta é simples, o difícil é continuar

Graham ensinou a comprar barato. Buffett, a comprar qualidade. Joel Greenblatt, gestor em Nova York e professor da Universidade Columbia, juntou as duas coisas em O Mercado de Ações ao Seu Alcance (The Little Book That Beats the Market, 2005) e as transformou numa regra que cabe numa planilha.

O livro é honesto num ponto que quase ninguém lê: a fórmula passa longos períodos atrás do mercado, às vezes anos seguidos. É ali que o investidor desiste. Na B3, os dados mostram que esse aviso não era exagero. Era o centro do método.

A ideia: A fórmula está certa sobre o que comprar. Ela não diz nada sobre quando o mercado vai concordar.

O mecanismo: três forças dentro de um ranking

1. Nenhum critério pode comprar o outro. Ordene as ações pelo retorno sobre o capital, ordene de novo pelo preço, some as duas posições e compre as que somam menos. Uma empresa 10ª em retorno e 15ª em preço soma 25. Outra, 1ª em retorno e 120ª em preço, soma 121 e fica muito atrás. A excelente e cara cai no ranking de preço; a barata e ruim cai no de qualidade. Sobra o que é bom e barato ao mesmo tempo.

2. Qualidade e preço são medidos na empresa inteira, com a dívida. A qualidade é o lucro operacional (antes de juros e impostos) dividido pelo capital que o negócio emprega. O preço é o mesmo lucro dividido pelo valor da firma, ações mais dívida líquida. Uma aproximação comum é o inverso do EV/EBITDA: a 4 vezes, a empresa "rende" 25% sobre o próprio valor; a 20, só 5%. Bancos, seguradoras e empresas de energia e saneamento ficam fora, porque o balanço delas não é comparável.

3. A lista compra o que está sendo abandonado. Greenblatt diz que a fórmula ganha porque compra o que o mercado, por medo, está recusando. Em 23/09/2026, as 20 primeiras do ranking (ações com mais de R$ 2 milhões por dia) tinham caído 4,6% em 12 meses, na mediana, enquanto o ranking inteiro subira 4,4%. Só 25% delas estavam em alta na régua mensal, contra 50% do total. Você monta a carteira, as ações continuam caindo por meses, e cada notícia confirma o medo que já estava no preço.

Nenhuma das primeiras era a "melhor empresa do Brasil" das listas de revista. A WEG (WEGE3), com ROIC de 28,2%, ficava no meio, derrubada pelo EV/EBITDA de 24. A Lojas Renner (LREN3), com ROIC de 14% e EV/EBITDA de 3,3, entrava em 6º.

O teste: quinze anos de fórmula na B3

De maio de 2011 a setembro de 2026, com as empresas que depois saíram da bolsa e os balanços na data em que chegaram à CVM: todo abril, as 10 com a melhor soma, com pesos iguais, por um ano. Uma adaptação: a base não tem o ativo fixo das empresas, então o capital foi medido pelo lado de quem financia (patrimônio mais dívida líquida).

Antes de continuar: Um sorteio de 10 ações, com o mesmo calendário, rendeu 6,2% ao ano. Quanto rendeu a fórmula mágica?

a) Uns 15% ao ano: o livro promete bater o mercado · b) Uns 10%: empate com o CDI · c) 6,6%: quase o mesmo que o acaso

Resposta: 6,6%: quase o mesmo que o acaso. 6,6% ao ano, com queda de 51%. Abaixo do CDI (9,8%), perto do Ibovespa (6,9%) e menos de meio ponto acima de um sorteio.

Com 20 ações, 8,4%. Comprando aos poucos, em 12 fatias ao longo do ano, como o livro sugere, 8,2%. Nenhuma variação mudou a figura. Por blocos, o padrão que se repete em quase todo método de valor desta B3: −10,1% ao ano em 2011–15, +34,3% em 2016–20 e +0,1% em 2021–26. Quem começou em 2011 passou cinco anos perdendo dinheiro enquanto o CDI pagava perto de 10%.

Duas carteiras em quinze

Olhando carteira por carteira, o resultado fica ainda mais concentrado. Sete das 15 carteiras anuais fecharam no vermelho. A de abril de 2016 subiu 101% em um ano, puxada pela Magazine Luiza, que multiplicou o preço por quase sete. A de 2020 subiu 84%, com a PetroRio (hoje PRIO) multiplicando por 4,5.

Antes de continuar: R$ 1.000 aplicados na fórmula em 2011 viraram R$ 2.668 em setembro de 2026. Quanto seriam se você tirasse só as carteiras de 2016 e de 2020?

a) Uns R$ 2.000: duas carteiras não mudam tanto · b) Uns R$ 1.300 · c) R$ 719: menos do que entrou

Resposta: R$ 719: menos do que entrou. R$ 719. Duas carteiras boas transformaram uma perda de 2,1% ao ano num ganho de 6,6% ao ano. Quem saiu no ano errado perdeu a década.

R$ 2.668 R$ 1.000 na fórmula, mai/2011 a set/2026 · R$ 719 o mesmo, sem as carteiras de 2016 e 2020 · +101% e +84% as duas carteiras que fizeram a década

É isso que torna a fórmula tão difícil de seguir. Não é que ela erre muito; é que ela acerta em poucos anos, sem avisar quais. Ficar fora de um deles custou mais que todos os anos ruins juntos.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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