Volatilidade: o tamanho do susto que você contratou
A PETR4 oscilava 27% ao ano em setembro de 2026, menos que a ação típica da B3 (35,5%). O mesmo stop de 5% que quase nunca dispara nela disparou 23 vezes no ano na MGLU3.

Em 1 minuto
- Volatilidade é o tamanho do susto normal de um ativo, não a chance de perder dinheiro nele.
- A PETR4 oscilava 1,72% por dia e 27,3% ao ano em setembro de 2026; a ação típica da B3, 35,5%; a MGLU3, 60%.
- O uso mais importante não é prever nada: é dimensionar a posição e o stop pelo susto de cada papel.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular a volatilidade e levá-la do dia para o mês e para o ano
- Medir a distância de um stop em desvios
- Ajustar o tamanho da posição pelo inverso da volatilidade
A tese: volátil não quer dizer perigoso
Quase todo mundo usa "volátil" como sinônimo de "arriscado". São coisas diferentes. Um papel pode oscilar muito e subir no ano; outro pode oscilar pouco e cair devagar até perder metade do valor.
A ideia: Volatilidade é o tamanho do susto que é normal naquele ativo. Ela não diz para onde ele vai; diz quanto ele balança no caminho.
A aula anterior tratou do centro de uma fila: média, mediana, retorno composto. Esta trata da largura. E a largura é o que decide duas coisas que o investidor costuma escolher no chute: o tamanho da posição e a distância do stop.
O mecanismo: três forças que fazem a volatilidade funcionar
1. O desvio-padrão mede a distância típica até o normal. Em cada pregão, um papel fecha um pouco acima ou abaixo do dia anterior. O desvio-padrão resume esses movimentos num número: o quanto um dia costuma se afastar do dia "médio". Pela regra de bolso de uma distribuição em forma de sino, cerca de dois terços dos dias ficam dentro de um desvio para cada lado.
2. A oscilação cresce com a raiz do tempo, não com o tempo. Se um papel oscila 1,72% num dia, ele não oscila 1,72% × 252 num ano. Dias bons e ruins se cancelam em parte, e a conta certa multiplica pela raiz do número de pregões. O ano tem cerca de 252 pregões, e √252 ≈ 15,9. Para ir do ano ao mês, divide-se por √12 ≈ 3,46. Um número só, várias escalas de tempo.
3. A volatilidade cobra pedágio no retorno composto. A aula 1 mostrou que a PETR4 teve média de +23,8% ao ano e rendeu 16,1%. Essa diferença vem da oscilação: com o mesmo retorno médio, quem balança mais leva menos para casa. Volatilidade não é só desconforto; ela come resultado.
A conta, passo a passo, na PETR4
Passo 1: os movimentos diários. De 19/09/2025 a 23/09/2026 foram 251 pregões. Em cada um, a variação do fechamento: +1,2%, −0,8%, +0,3%, e assim por diante.
Passo 2: o desvio típico. Na PETR4, o desvio-padrão desses 251 movimentos deu 1,72% por dia.
Passo 3: para o ano e para o mês. 1,72% × 15,9 = 27,3% ao ano. E 27,3% ÷ 3,46 = 7,9% ao mês.
Antes de continuar: Pela regra de bolso, cerca de dois terços dos dias ficam dentro de um desvio (entre −1,72% e +1,72%). Quantos dos 251 pregões da PETR4 ficaram dentro dessa faixa?
a) Cerca de 50% · b) Cerca de 71% · c) Cerca de 95%
Resposta: Cerca de 71%. 177 de 251, ou 71%. Um pouco mais que os dois terços do sino perfeito: o mercado tem mais dias calmos que o sino, e também mais dias muito grandes.
Comparar é o que dá sentido ao número
Sozinho, 27% não é alto nem baixo. Nos Rankings de 23/09/2026, a mediana da volatilidade anual das 159 ações mais negociadas da B3 era 35,5%. A PETR4, apesar das manchetes, oscilava menos que a ação típica.
18% BOVA11, o Ibovespa inteiro · 27% PETR4 · 35,5% a ação típica: mediana das 159 mais negociadas · 60% MGLU3
O índice oscila menos que quase todas as ações que o compõem, porque elas não caem todas no mesmo dia. A aula 4 mostra que é a correlação que faz esse trabalho.
O stop que é seguro num papel e armadilha no outro
Um stop é uma ordem para vender se o preço cair um tanto. Muita gente usa o mesmo percentual em tudo: 5%, por exemplo.
Antes de continuar: No mesmo ano, quantos pregões da MGLU3 caíram 5% ou mais? (Na PETR4, foi um só.)
a) 2 · b) 8 · c) 23
Resposta: 23. 23 pregões. Na MGLU3, 5% ficavam a 1,3 desvio diário; na PETR4, a 2,9 desvios. O mesmo número em reais é um seguro distante num papel e um bilhete de saída aleatório no outro.
Medido em desvios, o stop deixa de ser um número mágico e vira uma distância: a 1 desvio, ele dispara num dia comum; a 3, só num dia raro. Uma terça-feira sem notícia nenhuma tira você da MGLU3 com um stop de 5%.
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