Tamanho de posição: a conta começa pelo ponto de erro
Ninguém quebra por escolher o papel errado uma vez. Quebra por carregar um papel num tamanho que não aguenta uma sequência normal de perdas, ou uma queda que não avisa. A conta que resolve cabe numa linha.

Em 1 minuto
- O tamanho de uma posição não sai da convicção: sai de quanto você aceita perder dividido pela distância até o ponto de erro.
- Sequências de erro são normais: arriscando 10% por vez, dez perdas seguidas levam 65% do patrimônio; arriscando 2%, 18%.
- Contra a queda que não avisa, como a da Americanas em 2023, a única defesa é um teto de peso por papel.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular o tamanho de uma posição pelo risco aceito e pelo ponto de erro
- Ajustar o tamanho pela oscilação de cada papel
- Escrever um teto por posição e usar o menor dos dois números
A tese: você não escolhe quanto comprar, escolhe quanto aceita perder
Quase todo investidor decide o tamanho de uma posição pela empolgação. Gostei muito, coloco 20%. Gostei mais ou menos, 5%. É convicção virando quantidade. O problema é que a convicção some justamente no dia em que o papel desaba, e o que sobra na tela é o peso que você tinha nele.
Inverta a pergunta. O tamanho de uma posição é uma conta feita antes da ordem, com dois números: quanto do patrimônio você aceita perder se estiver errado, e onde fica o ponto em que você admite o erro.
A ideia: Tamanho = patrimônio × risco aceito ÷ distância até o ponto de erro. A convicção entra na escolha do papel, nunca no tamanho.
A aula 1 contou apostas. Esta decide quanto cada uma pesa.
O mecanismo: três forças que punem o tamanho errado
1. Perda e recuperação não são simétricas. Cair 20% exige subir 25% para empatar. Cair 50% exige subir 100%. Quanto maior o tombo, mais desproporcional é a volta, e a volta leva tempo que nem sempre existe.
2. Sequências de erro são normais. Qualquer método com acerto razoável passa por filas de perdas. Nas operações da régua mensal em 389 ações da B3, nos testes do Quantor, das 307 ações com pelo menos 10 operações, 241 tiveram cinco ou mais perdas seguidas em algum momento, e 103 tiveram oito ou mais. Não é azar extraordinário: é o comportamento normal de uma regra que acerta cerca de um terço das vezes.
3. O tamanho muda quem decide. Com 3% da carteira num papel, uma queda de 15% é um mês chato. Com 30%, são 4,5% do patrimônio indo embora, e o cérebro já não pensa na empresa: pensa no carro, na reforma, no ano de escola que aquele número representa. Bruce Kovner, entrevistado por Jack Schwager em Os Magos do Mercado, estima que o iniciante opera de três a cinco vezes maior do que deveria, e ele mesmo arriscava entre 1% e 2% do capital por posição. Larry Hite, de estilo oposto, chegou à mesma régua: nunca mais de 1%.
A sequência que separa quem continua de quem desiste
Uma carteira de R$ 100 mil perde dez vezes seguidas.
Antes de continuar: Se cada erro custa 10% do que sobrou, quanto resta dos R$ 100 mil depois de dez erros seguidos?
a) Cerca de R$ 90 mil · b) Cerca de R$ 65 mil · c) Cerca de R$ 35 mil · d) Zero: dez vezes 10% é 100%
Resposta: Cerca de R$ 35 mil. R$ 34,9 mil (0,90 elevado a 10). Para voltar ao ponto de partida, a carteira precisa subir 187%. Com 2% por erro, restam R$ 81,7 mil e bastam +22%.
| Risco por erro | Depois de 10 erros seguidos | Alta necessária para empatar |
|---|---|---|
| 2% | R$ 81,7 mil (−18,3%) | +22% |
| 10% | R$ 34,9 mil (−65,1%) | +187% |
Com 2%, a fila dói e o método continua. Com 10%, não existe mais método, existe alguém tentando recuperar o que não volta. Quase todo mundo abandona a regra muito antes do décimo erro, e normalmente no pior momento.
A conta, com a PETR4 da tela
Em 29/09/2026, o bloco A régua, na Técnica da tela Analisar papel, mostrava a PETR4 a R$ 49,10, com a régua mensal em alta e o preço em que ela vira em R$ 44,18: se um mês fechasse abaixo disso, a régua passaria para baixa. O bloco mostra a folga de 11,1%, medida a partir da média; do preço até R$ 44,18, a distância é de 10,0%. Esse é o denominador.
Carteira de R$ 100 mil. Você aceita perder 1% do patrimônio se a tese der errado: R$ 1.000. Tamanho = 1.000 ÷ 0,10 = R$ 10.000, uns 10% da carteira.
Só que a régua decide no fechamento do mês, não no meio dele. Até o mês fechar, o papel pode cair bem mais do que os 10%. Por isso vale orçar uma margem de 1,3 a 1,5 vez a distância. Com 1,5 vez: 1.000 ÷ 0,15 = R$ 6.667, cerca de 135 ações.
Repare no que a conta faz sozinha. Um papel com o ponto de erro perto ganha posição maior; um papel com o ponto de erro longe ganha posição menor. Quanto mais longe a saída, menor a posição. Você não precisa de uma opinião sobre o risco: a conta produz a opinião.
A outra régua: quanto o papel oscila
Nem todo erro tem um preço exato. Para quem monta carteira de longo prazo, a medida mais simples do risco de cada papel é a volatilidade, o tamanho do mês comum. Nos 36 meses até setembro de 2026, três papéis da B3:
| Mês ruim típico | R$ 30 mil em cada: perda num mês ruim | Peso pelo inverso da oscilação | Perda num mês ruim com esse peso | |
|---|---|---|---|---|
| TAEE11 | ±4,4% | R$ 1.322 | 58% (R$ 52.058) | R$ 2.294 |
| PETR4 | ±8,9% | R$ 2.676 | 29% (R$ 25.705) | R$ 2.294 |
| MGLU3 | ±18,7% | R$ 5.622 | 14% (R$ 12.238) | R$ 2.294 |
"Mês ruim típico" é um desvio-padrão mensal: acontece com frequência, não é o pior caso. Com pesos iguais em reais, a MGLU3 pesa mais de quatro vezes a TAEE11 no seu bolso. Dividindo os R$ 90 mil pelo inverso da oscilação (1 ÷ 4,41, 1 ÷ 8,92 e 1 ÷ 18,74, cada um sobre a soma dos três), cada papel passa a tirar o mesmo num mês ruim. Pesos iguais em reais não são riscos iguais. O instinto põe mais dinheiro no que promete mais; a conta põe mais no que oscila menos.
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