Correlação vai a 1 na crise: o que protegeu estava fora da bolsa
Doze ações grandes da B3 tinham correlação de 0,30 em 2019 e de 0,76 na queda de 2020. Nos 23 piores meses do Ibovespa desde 2011, o CDI subiu em todos, o S&P em reais em 16, o IFIX em 9. E quem protegeu o S&P foi o dólar, não a bolsa americana.

Em 1 minuto
- A correlação entre ações brasileiras sobe nas crises: em março de 2020, doze papéis de setores diferentes andaram como 1,3 aposta.
- Nos 23 piores meses do Ibovespa desde 2011, o CDI rendeu em todos e o S&P 500 em reais subiu em 16; o IFIX caiu em 14.
- Quem protegeu o S&P foi o dólar: em dólar, a bolsa americana caiu junto em 17 dos 23 meses.
Ao fim desta aula você vai saber
- Medir a diversificação no mês ruim, e não na média
- Separar o que protege por ser outra bolsa do que protege por ser outra moeda
- Estimar quanto uma mistura de classes cai num mês de pânico
A tese: a diversificação entre ações tem dia de folga
Você montou uma carteira com banco, minério, energia, indústria e consumo. Nos meses comuns, ela se comporta bem: quando um papel cai, outro sobe, e o saldo oscila pouco. Aí vem um mês de pânico e tudo desaba junto, como se você tivesse um papel só.
A aula 1 mostrou como contar apostas pela correlação. Esta mostra o problema: a correlação não é fixa, ela sobe justamente na crise. A proteção que sobra nessas horas vem de fora da bolsa local. E, olhando de perto, vem mais da moeda do que de outra bolsa.
O mecanismo: três forças que juntam tudo no pânico
1. A venda é pelo que dá para vender. Quem precisa de dinheiro às pressas (um fundo com resgate, um investidor com chamada de margem) vende o que tem liquidez, não o que está caro. Liquidez é algo que todos os papéis grandes têm em comum. Venda sem escolha produz queda sem escolha.
2. Um fator só passa a mandar. No dia a dia, banco se mexe por crédito, varejo por consumo, siderurgia por aço. Na crise, o mercado passa a negociar "Brasil" em vez de empresas brasileiras. As histórias individuais somem atrás do risco do país.
3. A moeda vira a válvula. Quando o medo é com o Brasil, o real se desvaloriza. De janeiro de 2011 a setembro de 2026, a correlação mensal entre o Ibovespa e o dólar foi de −0,66: na maior parte dos meses, um sobe quando o outro cai. Qualquer ativo cotado em dólar ganha em reais nesse movimento, mesmo parado.
O que acontece com a correlação
Doze ações grandes, de setores diferentes: PETR4, VALE3, ITUB4, BBDC4, BBAS3, ABEV3, WEGE3, SUZB3, LREN3, RADL3, CMIG4 e GGBR4. Em 2019, um ano comum, a correlação média dos retornos diários entre os pares foi de 0,30.
Antes de continuar: Entre 21/02 e 23/03/2020, da véspera do Carnaval ao fundo do Ibovespa, qual foi a correlação média entre essas doze ações?
a) 0,35: quase a mesma de 2019 · b) 0,55 · c) 0,76 · d) 0,98: idênticas
Resposta: 0,76. 0,76. Até o par menos parecido teve 0,54. Em janelas de 21 pregões desde 2008, a mediana é 0,32; os picos foram 0,74 em outubro de 2008 e 0,83 em março de 2020.
Aplique a conta das apostas efetivas da aula 1. Em 2019: 12 ÷ (1 + 11 × 0,30) = 2,8 apostas. Na queda de 2020: 12 ÷ (1 + 11 × 0,76) = 1,3 aposta. Mesmo que cada ação oscilasse igual nos dois períodos, a carteira de doze balançaria cerca de 47% mais com a correlação da crise. Os papéis param de se compensar no momento em que você mais precisava disso.
A contagem do mês confirma. Nos oito piores meses do Ibovespa desde 2008, contando as ações hoje líquidas que já tinham histórico: em março de 2020, quando o índice caiu 29,9%, 98% das 88 ações fecharam no vermelho. Em outubro de 2008, 96%. Em junho de 2022, 97% de 102 papéis. No menos pior dos oito, 81%. Não havia seleção de ações brasileiras que atravessasse aqueles meses no azul.
A ideia: A diversificação entre ações do mesmo país funciona nos meses comuns e encolhe nos meses em que você precisa dela.
A conta nova: o Ibovespa contra as outras classes
Se as ações daqui caem juntas, a pergunta passa a ser o que cai menos junto com elas. Medimos, mês a mês de janeiro de 2011 a setembro de 2026 (189 meses), o Ibovespa contra o CDI, o IFIX (o índice de fundos imobiliários da B3), o S&P 500 com dividendos em dólar e o mesmo S&P convertido para reais pela PTAX. Fontes: os índices da B3 na base do Quantor, o CDI diário e a PTAX do Banco Central, e o S&P 500 com dividendos da base de dados americana.
Em 23 desses meses, o Ibovespa caiu 5% ou mais. Chamamos esses de meses de crise.
| Correlação com o Ibovespa (todos os meses) | Média nos 23 meses de crise | Meses positivos, dos 23 | |
|---|---|---|---|
| Ibovespa | 1 | −9,2% | 0 |
| IFIX | 0,54 | −1,7% | 9 |
| S&P 500 em dólar | 0,47 | −2,8% | 6 |
| Dólar (PTAX) | −0,66 | +5,6% | 22 |
| S&P 500 em reais | −0,20 | +2,6% | 16 |
| CDI | 0,01 | +0,8% | 23 |
Três leituras. O CDI foi a única perna positiva em todos os meses de crise: ele não depende do humor de ninguém. O IFIX caiu bem menos que a bolsa, mas caiu na maioria das vezes, e a correlação dele com o Ibovespa subiu de 0,54 para 0,63 dentro dos meses de crise. E o S&P 500 em dólar caiu junto com o Brasil em 17 dos 23 meses, com correlação de 0,47. O que transformou a bolsa americana em proteção foi a moeda: em reais, ela subiu em 16 dos 23.
A ideia: O S&P 500 protegeu o investidor brasileiro mais por ser dólar do que por ser outra bolsa.
O caso de março de 2020, no fechamento e no meio do mês
Antes de continuar: Março de 2020: o Ibovespa fechou o mês em −29,9%. E o S&P 500 em reais, no mesmo mês?
a) Cerca de −20%: caiu quase igual · b) Cerca de −10% · c) Cerca de +1%: praticamente no zero · d) Cerca de +15%
Resposta: Cerca de +1%: praticamente no zero. +1,3%. O S&P caiu 12,4% em dólar, mas o dólar subiu 15,6% contra o real. Uma queda compensou a outra.
Os dez piores meses do Ibovespa no período mostram o padrão e as exceções:
| Mês | Ibovespa | IFIX | S&P em US$ | Dólar | S&P em R$ | CDI |
|---|---|---|---|---|---|---|
| mar/2020 | −29,9% | −15,8% | −12,4% | +15,6% | +1,3% | +0,3% |
| mai/2012 | −11,9% | +3,5% | −6,0% | +6,9% | +0,5% | +0,7% |
| set/2014 | −11,7% | +0,6% | −1,4% | +9,4% | +7,9% | +0,9% |
| jun/2022 | −11,5% | −0,9% | −8,3% | +10,8% | +1,6% | +1,0% |
| jun/2013 | −11,3% | −7,2% | −1,3% | +3,9% | +2,5% | +0,6% |
| mai/2018 | −10,9% | −5,3% | +2,4% | +7,4% | +9,9% | +0,5% |
| abr/2022 | −10,1% | +1,2% | −8,7% | +3,8% | −5,2% | +0,8% |
| mai/2016 | −10,1% | +3,7% | +1,8% | +4,2% | +6,1% | +1,1% |
| dez/2014 | −8,6% | −1,8% | −0,3% | +3,8% | +3,5% | +1,0% |
| fev/2020 | −8,4% | −3,7% | −8,2% | +5,4% | −3,3% | +0,3% |
O fechamento do mês, porém, esconde o pior. Do pregão de 21/02/2020 ao fundo de 23/03/2020, o Ibovespa caiu 44,1%, o IFIX 28,1%, o S&P em dólar 32,8%, e nem o dólar (+15,7%) segurou o S&P em reais, que caiu 22,3%. Só o CDI rendeu, 0,3%. A recuperação do fim de março fez o mês fechar melhor do que foi vivido. Quem olha só o dado mensal subestima o quanto até as proteções balançam no meio do pânico.
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