Concentração: quando uma ação vira metade da carteira
O peso mais perigoso da carteira não é o que você comprou, é o que subiu sozinho. Uma carteira com 10% em MGLU3 no fim de 2015 chegou a ter 95% nela, multiplicou por 40 e devolveu 91%. Vendendo o excesso, terminou com quase o dobro.

Em 1 minuto
- Quando uma ação sobe muito mais que as outras, ela vira a carteira sem que você tenha comprado nada.
- Com 10% em MGLU3 no fim de 2015 e nenhum ajuste, a ação chegou a 95% da carteira; depois caiu 98% do topo e levou a carteira junto.
- Vender só o excesso acima de um teto de 25% terminou com quase o dobro de quem nunca mexeu.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular quanto uma vencedora passa a pesar na carteira
- Escrever um teto por papel antes de ele subir
- Aparar o excesso sem vender a vencedora inteira
A tese: o peso mais perigoso é o que você não comprou
Todo investidor sonha com a ação que multiplica. Poucos pensam no problema que ela cria. Quando uma posição sobe muito mais que as outras, ela passa a ser a carteira: o que começou como uma aposta de 10% vira 50%, 70%, 90% do patrimônio, sem uma única ordem de compra. E o seu futuro passa a depender de uma empresa só.
A aula 3 dimensionou a posição no dia da compra. Esta trata do que acontece depois, quando o mercado redimensiona por você.
A ideia: Carteira boa é a que não depende de uma ação dar certo.
O mecanismo: três forças que fazem a vencedora engolir a carteira
1. O peso cresce por multiplicação. Se uma posição multiplica por 10 e o resto da carteira por 2, a fatia dela não dobra, ela se multiplica por cinco em relação ao resto. Começando em 10%, vai a mais de 35%. A conta não pede que você faça nada: ela acontece no extrato.
2. Quanto mais a ação sobe, mais difícil é vender. Cada venda de excesso, no meio de uma alta, parece um erro olhando para trás. A ação continua subindo, a vontade de "deixar correr" ganha argumentos, e a venda ainda gera imposto sobre um lucro grande. O resultado é que o peso sobe exatamente quando cortar é mais desconfortável.
3. A queda pega o peso do topo. A ação não cai do peso que tinha quando você comprou. Cai do peso que ela tem no dia da queda. Uma queda de 70% numa posição de 10% custa 7% da carteira; a mesma queda numa posição de 90% custa 63%.
O caso: MGLU3, de dezembro de 2015 a setembro de 2026
Uma simulação com dados reais: em dezembro de 2015, uma carteira de R$ 100 mil com R$ 10 mil em MGLU3 e R$ 90 mil no Ibovespa, que aqui faz o papel das outras ações. Tudo com dividendos. Não é recomendação: é um caso extremo, escolhido justamente por ser extremo.
De dezembro de 2015 a janeiro de 2021, a MGLU3 multiplicou por 375, contando dividendos. Na carteira que nunca foi mexida, o peso dela foi a 32% no fim de 2016 e a 70% no fim de 2017. Em 2019 já passava de 88%.
Antes de continuar: Sem nenhuma compra nem venda, até quanto a MGLU3 chegou a pesar nessa carteira que começou com 10%?
a) Cerca de 30% · b) Cerca de 50% · c) Cerca de 75% · d) Cerca de 95%
Resposta: Cerca de 95%. 95%, em outubro de 2020. Na prática, a carteira inteira era uma ação só. Depois, a ação caiu 98% do topo.
Em setembro de 2026, a MGLU3 valia cerca de 10 vezes o valor de dezembro de 2015, depois de ter valido 375. Três jeitos de cuidar da mesma carteira, de dezembro de 2015 a setembro de 2026:
| Como cuidou | Melhor momento | Pior queda | Terminou em |
|---|---|---|---|
| Nunca mexer | 40 vezes o inicial, no fim de 2020 | −91% | 4,8 vezes |
| Voltar a 10% todo mês | nunca passou de 6 vezes | −35% | 5,5 vezes |
| Vender o excesso quando passar de 25% | uma parte maior da subida | −35% | 8,8 vezes |
| Só Ibovespa | — | — | 4,2 vezes |
40× o pico de quem nunca mexeu, no fim de 2020 · 4,8× onde terminou, depois de devolver 91% · 8,8× quem vendeu o excesso acima de 25%
Quem não mexeu teve o melhor momento de todos e terminou pouco acima de quem nunca teve a MGLU3. Quem vendeu o excesso nunca viu o 40 vezes e terminou na frente, com quase o dobro.
Por que vender o excesso é tão difícil
Em 2019, com a MGLU3 já perto de 90% da carteira, vender parecia burrice: a ação tinha multiplicado mais de cem vezes e continuava subindo. Em 2020, subiu mais. A regra de 25% vendeu o excesso quatro vezes antes do topo, e cada uma dessas vendas, no dia seguinte, pareceu um erro.
O teste mostra por que a regra ganhou: ela não tentou acertar o topo. Ninguém sabia que o topo seria em 2021, nem que a queda seria de 98%. Ela só impediu que um papel decidisse o destino da carteira inteira. Quando a queda veio, pegou uma posição entre 10% e 25%, não de 95%.
Há uma segunda lição, mais discreta. Nos testes do Quantor com carteiras concentradas, escolhidas por tendência, a dependência de poucos nomes apareceu de forma brutal: numa carteira de 3 ações, as duas melhores do período (MGLU3 e BIDI4) eram quase todo o ganho. Sem elas, a carteira perdia 5,9 pontos por ano. Numa carteira de 10 ações, tirar as duas melhores custava só 1,2 ponto por ano. Uma carteira que precisa acertar a próxima MGLU3 para dar certo é uma aposta, não uma carteira.
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