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Montar e dimensionar · Aula 5 de 7

Caixa em Selic é posição, não indecisão

De outubro de 2010 a janeiro de 2016, o BOVA11 caiu 44,2% e o dinheiro na Selic rendeu 69,3%. No Brasil, esperar é uma linha da carteira com peso, retorno e função, e ela tem um preço que muda com o juro.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Caixa em Selic é posição, não indecisão

Em 1 minuto

  • Caixa em Selic não é dinheiro parado: é a posição de menor risco da carteira, com retorno conhecido e uma função.
  • De 2010 a 2016, o BOVA11 caiu 44,2% e a Selic rendeu 69,3%; na PETR4, o caixa remunerado explicou uns 4,5 pontos por ano da régua.
  • O preço do caixa muda com o juro real: em 2021, ele perdeu da inflação.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Tratar o caixa como uma linha da carteira, com peso e retorno
  • Medir quanto a espera está pagando hoje
  • Reconhecer quando o caixa custa caro

A tese: dinheiro parado que não está parado

"Dinheiro parado" é das expressões mais caras do mercado brasileiro. Quem vende um papel em tendência de baixa e deixa o dinheiro na Selic não está parado. Está na posição de menor risco da carteira, com retorno conhecido, recebendo juro enquanto o resto oscila.

A ideia: Caixa em Selic é uma linha da carteira como qualquer outra: tem peso, tem retorno e tem função.

O amador lê o caixa como fracasso, porque carrega uma premissa invisível: estar investido é estar trabalhando. No Brasil, com juro alto na maior parte das últimas décadas, essa premissa custou caro a muita gente. A aula 2 mostrou que, nos 23 piores meses do Ibovespa desde 2011, o CDI foi a única perna positiva em todos. Esta aula mede o que isso vale numa carteira.

O mecanismo: as três funções do caixa

1. Render enquanto o resto cai. É a função óbvia e a mais subestimada. Nos meses de crise de 2011 a 2026, o CDI rendeu em média +0,8% ao mês enquanto o Ibovespa fazia −9,2%. A queda do caixa é zero por construção: o Tesouro Selic e os pós-fixados de liquidez diária quase não marcam a mercado, como o curso Renda Fixa com Dados mostra.

2. Ser a munição do rebalanceamento. Quem tem caixa no dia da queda pode comprar o que caiu sem vender nada a preço ruim. Quem está 100% investido só consegue comprar vendendo outra coisa, quase sempre também em queda. A aula 6 mostra a conta de rebalancear depois de um tombo.

3. Baixar a temperatura das decisões. Jim Rogers, entrevistado por Jack Schwager em Os Magos do Mercado, descreve o próprio método como esperar até ver o dinheiro caído no canto da sala, e só então ir buscá-lo. Quem tem uma fatia em caixa não sente que está "zerado", e é a sensação de estar de fora que costuma levar à compra por ansiedade, perto do topo.

O caso: de 2010 a 2016, os anos que somem do gráfico longo

O Ibovespa fez um topo de fechamento em 04/11/2010, a 72.996 pontos, e só voltou a esse nível em 06/09/2017. No meio, em 26/01/2016, chegou a 37.497 pontos: −48,6%.

Antes de continuar: De outubro de 2010 a janeiro de 2016, o BOVA11 caiu 44,2%. Quanto rendeu, no mesmo período, o dinheiro deixado na Selic?

a) Uns 10% · b) Uns 30% · c) Uns 70% · d) Uns 120%

Resposta: Uns 70%. +69,3%. Quem ficou comprado tinha perdido quase metade; quem ficou no caixa tinha 69,3% a mais. No fim, quem ficou no caixa tinha cerca de três vezes o patrimônio de quem ficou comprado.

Três formas de atravessar o período, a partir de outubro de 2010:

Até janeiro de 2016 Resultado
100% em BOVA11 o tempo todo −44,2%
Régua mensal, com o dinheiro na Selic nos meses fora +0,7%
Tudo na Selic +69,3%

A régua mensal é pública: se o mês fecha acima da média exponencial dos últimos 5 fechamentos mensais, o papel está em alta e você fica; se fecha abaixo, sai. Nesse período ela esteve dentro do BOVA11 em só 23 dos 63 meses, e recebeu Selic nos outros. Ela não acertou fundo nem topo. Boa parte do que entregou veio do que evitou, e do lugar remunerado para onde foi enquanto esperava.

O quadro vira quando a bolsa volta a subir. Até dezembro de 2019, o caixa acumulava +137%, a régua +116% e o BOVA11 +58%. Quem esperou tinha capital para aproveitar a alta. Quem ficou 100% dentro ainda estava se recuperando.

Quanto do resultado vem do juro: o teste da PETR4

A mesma régua na PETR4, de junho de 2000 a 2026, com preços que incluem os proventos, em três versões:

PETR4, desde 2000 Ao ano Pior queda
Segurar sempre +18,0% −87%
Régua, com o dinheiro na Selic nos meses fora +17,0% −40%
Régua, com o dinheiro parado nos meses fora +12,5% −59%

Antes de continuar: A régua mandou ficar fora da PETR4 em 36% dos meses. Quanto do retorno anual veio só do juro recebido nesses meses?

a) Quase nada, uns 0,5 ponto por ano · b) Uns 2 pontos por ano · c) Uns 4,5 pontos por ano

Resposta: Uns 4,5 pontos por ano. Cerca de 4,5 pontos por ano: é a distância entre 17,0% (caixa na Selic) e 12,5% (caixa parado). Sem a Selic, a régua teria ficado bem atrás de segurar.

Retorno parecido com o de segurar, com menos da metade da queda. E a diferença entre as duas versões da régua veio inteira do caixa remunerado. Um detalhe que surpreende: na PETR4, os meses em baixa na régua renderam, em média, +2,0%, e os meses em alta, +2,1%. A régua não prevê o mês seguinte. Ela evita as sequências de queda, como a que levou o papel a −87% entre 2008 e 2016.

Nem todo papel conta a mesma história. Em VALE3, a régua com Selic fez +19,5% ao ano contra +18,3% de segurar, com pior queda de −28% contra −79%. Em MGLU3, +31,7% contra +4,9%, porque ficou fora de boa parte da destruição de 2021 a 2023. Na WEGE3, de alta persistente, ficou atrás: +18,9% contra +22,1%. E na ITUB4, desde 2009, perdeu até com a Selic (+7,1% contra +14,1%), sem melhorar a pior queda (−42% contra −39%). Papel que anda de lado em torno da média vira serrote: sai num mês ruim, o seguinte sobe, volta mais caro.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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