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A economia em quatro regimes · Aula 6 de 8

Focus: a previsão que erra e mesmo assim serve

Desde 2016, a inflação esperada pelo Focus para os 12 meses seguintes errou em média 1,84 ponto, e em abril de 2021 errou 8. O valor do boletim não está no número: está na direção das revisões e na distância até o que a curva de juros cobra.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Focus: a previsão que erra e mesmo assim serve

Em 1 minuto

  • Como previsão, o Focus erra muito: 1,84 ponto em média na inflação de 12 meses, desde 2016, e 8 pontos em abril de 2021.
  • Como termômetro, serve: revisões seguidas para o mesmo lado mostram o mercado mudando de ideia, e o Copom lê o boletim.
  • A curva DI não é previsão de ninguém: é preço. A distância entre ela e o Focus é o prêmio que o mercado cobra pelo risco.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Ler a direção das revisões do Focus na régua
  • Comparar o regime esperado com o realizado
  • Separar a previsão dos economistas do preço da curva

A tese: previsão ruim, termômetro bom

Toda segunda-feira o Banco Central publica o boletim Focus: a mediana das projeções de bancos, gestoras e consultorias para inflação, PIB, Selic e dólar. Em 23/10/2026, entre 130 e 140 instituições responderam sobre a Selic de cada reunião do Copom. A mediana é o valor do meio: metade das projeções acima, metade abaixo.

Muita gente usa o Focus como se fosse o futuro: "o mercado espera inflação de 4,5%, então a inflação vai ser 4,5%". É o pior uso possível. E muita gente, sabendo que ele erra, o ignora. Também é um erro.

Antes de continuar: Desde 2016, quanto a inflação de 12 meses esperada pelo Focus errou, em média, para mais ou para menos?

a) Uns 0,3 ponto: os economistas acertam quase sempre · b) Uns 0,8 ponto · c) Uns 1,8 ponto · d) Uns 4 pontos

Resposta: Uns 1,8 ponto. 1,84 ponto em média, em 117 meses. Para uma inflação que costuma rodar entre 3% e 6%, é muito. E em mais da metade dos meses (56%), o erro passou de 1 ponto.

Comparamos, mês a mês de janeiro de 2016 a setembro de 2025, o IPCA que o Focus esperava para os 12 meses seguintes com o IPCA que de fato veio 12 meses depois. O erro médio foi de 1,84 ponto. O maior: em abril de 2021, o boletim esperava 4,04%. Veio 12,13%. E o erro vai para os dois lados: em janeiro de 2025, esperava 5,74%; vieram 4,44%. Em 58 meses a inflação veio acima do esperado, em 59 abaixo. O Focus não tem viés para um lado; tem pouca precisão para os dois.

A ideia: O valor do Focus não está no número: está na direção em que ele está sendo revisado.

O mecanismo: por que o consenso anda devagar, e por que isso é útil

1. Cada economista parte da própria projeção anterior. Ninguém refaz o modelo do zero toda semana; ajusta um pouco. Somando 130 ajustes pequenos, a mediana anda em degraus e demora meses para virar. Por isso o Focus quase nunca antecipa uma virada grande, como a de 2021.

2. A mediana esconde a discordância. Pode haver quem espere inflação de 3% e quem espere 6%; a mediana mostra só o meio. Ela é estável, e por isso uma mudança persistente nela é informação: quer dizer que o meio do mercado inteiro se deslocou.

3. O Banco Central lê o Focus. A inflação esperada entra na decisão do Copom. Se ela sobe e se afasta da meta de 3%, o comitê tende a parar de cortar, mesmo com a inflação do mês caindo. O Focus é previsão ruim e, ao mesmo tempo, insumo real da política de juros.

A régua aplicada ao Focus

A aba Macro faz com o Focus o mesmo que faz com o dado realizado: aplica a régua de 5 meses a duas medianas, o PIB esperado para o ano seguinte e o IPCA esperado para os próximos 12 meses. O resultado é o regime que o mercado espera.

Com o boletim de 23/10/2026:

Mediana do Focus Antes 23/10/2026 Na régua
PIB esperado para 2027 1,80% (março) 1,31% abaixo da média há 14 meses: crescimento caindo
IPCA esperado para 12 meses 4,05% (abril) 4,53% acima da média há 5 meses: inflação subindo

Crescimento caindo com inflação subindo: Stagflation esperado, desde junho de 2026.

Realizado contra esperado: quem cedeu

Entre junho e agosto de 2026, o dado realizado dizia Slowdown: o núcleo do IPCA caía na régua. O Focus dizia Stagflation: o mercado esperava a inflação subindo e não comprou a melhora. A diferença era a pergunta que o cenário fazia: alguém ia ter que ceder.

Em setembro, quem cedeu foi o dado. O núcleo foi a 4,54%, acima da própria média de 4,50%, e o IPCA de 12 meses saltou de 4,22% para 4,58% (aula 3). O eixo da inflação realizada virou na direção que o Focus desenhava havia quatro meses. Ainda é um mês só, sem confirmação, mas é o tipo de convergência que vale anotar.

Não é sempre assim. Entre maio e agosto de 2025, o regime esperado era Goldilocks enquanto o realizado era Stagflation; em outubro de 2025, o realizado virou Slowdown, um caminho intermediário. Desde 2016, o regime esperado e o realizado coincidiram em só 44 de 124 meses comparáveis, 35% das vezes.

1,84 ponto erro médio do IPCA esperado para 12 meses, 2016–2025 · 8,1 pontos o erro de abril de 2021: 4,04% esperado, 12,13% realizado · 35% dos meses com regime esperado igual ao realizado, desde 2016

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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