"O Brasil decolou": a capa, o otimismo e os seis anos seguintes
Em 2009, o Cristo Redentor virou foguete na capa de uma revista estrangeira. Nos seis anos seguintes, o Ibovespa caiu 37% e só voltou em 2017.

Fim de 2009.
Uma das revistas de economia mais conhecidas do mundo estampou na capa o Cristo Redentor decolando como um foguete. A mensagem era clara: o Brasil tinha chegado.
E fazia sentido acreditar.
O país tinha atravessado a crise de 2008 melhor que quase todo mundo. As ações da B3, na média, tinham mais que dobrado em 2009. O petróleo do pré-sal prometia uma nova era. Copa do Mundo e Olimpíada estavam a caminho. Investidor estrangeiro chegava em peso. Empresas abriam capital uma atrás da outra.
Na roda de conversa, no jornal, na televisão, a pergunta não era se o Brasil ia crescer. Era quanto.
O Ibovespa fechou dezembro de 2009 em 68.588 pontos.
Seis anos depois, em dezembro de 2015, estava em 43.350. −37%.
Por que o otimismo de todo mundo é perigoso
Quando uma ideia vira consenso, ela já está no preço.
Isso é a parte que a cabeça tem mais dificuldade de aceitar. A gente acha que boa notícia é motivo para comprar. Mas se a boa notícia está na capa de revista, quem ia comprar por causa dela provavelmente já comprou. Sobra pouca gente para empurrar o preço para cima, e muita gente para se decepcionar.
Tem nome para isso: viés de confirmação. Quando você está otimista, você lê as notícias que confirmam o otimismo e passa batido pelas outras. Todo mundo junto fazendo isso cria um efeito manada. E manada não percebe que o terreno mudou.
E tem o efeito do que é recente. Depois de um ano espetacular como 2009, a cabeça projeta o mesmo ritmo para os próximos. Parece natural. Só que bolsa não anda em linha reta, e o ano depois de um ano excepcional não carrega a mesma garantia.
O que aconteceu depois
Não houve um único dia de tragédia. Foi pior: uma erosão lenta, de anos.
O crescimento do país perdeu força. O cenário fiscal piorou. As commodities caíram. Em 2015, o Brasil entrou numa recessão profunda. O dólar, só em 2015, subiu 48%.
Na bolsa, o estrago apareceu em quase tudo:
- Entre 2011 e 2016, numa janela de cinco anos, o Ibovespa caiu 39%. No mesmo período, o S&P 500 medido em reais subiu +275%.
- Em 2015, 67% das ações líquidas da B3 caíram no ano, e 46% caíram mais de 20%.
- O Ibovespa só voltou ao nível de dezembro de 2009 em agosto de 2017. Quase oito anos parado, em pontos, sem descontar a inflação. Comparado com o CDI do período, foi bem pior.
A Oi: o retrato do período
Se tem uma ação que conta essa década, é a Oi.
Uma das maiores empresas de telefonia do país, com um plano ambicioso de expansão. A ação OIBR3 começou a ser negociada com esse código em maio de 2012 e fez o topo logo em julho de 2012.
Em setembro de 2012, a régua mensal virou para baixo: o preço fechou abaixo da média dos últimos 5 meses. Nessa hora, a Oi estava só 13% abaixo do topo. Parecia pouco. Parecia correção.
Depois vieram as recuperações judiciais. A ação foi praticamente a zero: −100%.
E a Oi não estava sozinha no setor. Na média da base do Quantor, de 2006 a 2026, as ações de telecomunicações renderam −5,0% ao ano, com pior queda de −92%.
Quem comprou Oi pela história do "Brasil que decola" viu a história desabar. Quem seguia a régua do papel teria saído com −13%. Não porque previu o que ia acontecer. Ninguém previu. Só porque o preço parou de subir e a regra mandava sair.
Em 2015, −18% segurando e +4% na régua
A régua não salvou todo mundo em todo papel nesse período. Mas, no conjunto, fez diferença.
Na base do Quantor, com todas as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões por dia, peso igual, de 2006 a setembro de 2026:
| Ano | Segurando sempre | Seguindo a régua (dinheiro no CDI fora) |
|---|---|---|
| 2015 | −18% | +4% |
Em 2015, no fundo daquela década perdida, segurar todas as ações custou 18%. Seguir a régua de cada papel, saindo quando o preço fechava abaixo da média de 5 meses e deixando o dinheiro no CDI, terminou no positivo.
No período inteiro, a régua ficou fora da bolsa 48% do tempo. Muito desse tempo fora foi justamente em anos como esses.
O otimismo de 2009 não era bobo
Seria fácil olhar para trás e dizer que estava óbvio. Não estava.
Em dezembro de 2009, os motivos para otimismo eram reais. A economia tinha resistido à crise, as empresas lucravam, o país atraía capital. Quem foi otimista não era bobo. Estava lendo a mesma realidade que todo mundo.
E a régua também não acertou cada mês. Em períodos de lado, ela entra e sai várias vezes, perdendo um pouco em cada vez. Na base, 63% das trocas terminaram no prejuízo. O ganho dela vem de poucos movimentos grandes, não de acertar sempre.
Também vale lembrar o contrário. Entre 2016 e 2021, o Ibovespa subiu +187%. Quem desistiu da bolsa para sempre em 2015 perdeu essa parte. O erro de 2009 era achar que só podia subir. O erro de 2015 seria achar que só podia cair.
Quem ainda falta comprar?
- Quando uma ideia está em capa de revista, eu me pergunto quem ainda falta comprar.
- Uma história bonita sobre um país, um setor ou uma empresa não é regra de saída.
- Eu não preciso prever a década. Preciso saber o que me tira quando o preço deixa de concordar comigo.
- E quando o pessimismo vira consenso, vale a mesma desconfiança, no sentido contrário.
A capa mostrou o foguete. O preço mostrou a trajetória.
