IRB: quando a queda é rápida demais para qualquer regra
A IRB caiu 99% do topo. Quando a régua mensal virou para baixo, o papel já tinha perdido 78%. É aqui que a regra quebra, e o que sobra.

Janeiro de 2020.
A IRB, a maior resseguradora do Brasil, estava no topo. Era a ação queridinha de muita carteira. Lucro crescendo, gráfico subindo, analista elogiando. Parecia o tipo de empresa que não dava trabalho.
Em fevereiro, uma gestora publicou um relatório questionando a qualidade dos lucros. Logo depois, circulou a notícia de que um famoso investidor americano teria comprado ações da empresa. Não tinha. O desmentido veio público. A confiança, que era o ativo mais valioso de uma resseguradora, evaporou em semanas.
E tudo isso no mesmo momento em que a pandemia derrubava a bolsa inteira.
Quando a régua mensal do papel virou para baixo, em março de 2020, a IRB já tinha caído 78% desde o topo.
Setenta e oito.
Esse é o artigo em que eu conto onde a régua não funciona.
O que a cabeça fazia no meio do tombo
Vamos lembrar o estado de espírito de quem tinha IRB naquelas semanas.
No começo, a defesa: "é ataque de vendido, a empresa é sólida". A ação era de qualidade, todo mundo dizia. Ninguém vende uma ação de qualidade por causa de um relatório.
Depois, a confusão: notícia, desmentido, saída de executivo, balanço sob suspeita. Cada dia trazia uma informação nova. A cabeça não conseguia processar tão rápido quanto o preço caía.
E aí vem a paralisia. Quando o papel já está em −40%, −50%, o investidor pensa: "agora não adianta mais vender, já perdi muito". É a aversão à perda em estado puro. Vender transforma a perda em fato. Segurar mantém a esperança viva.
O problema é que a perda não para de crescer porque você parou de olhar.
Por que a régua chegou tarde
A régua do Quantor é simples: no fim de cada mês, o preço está acima ou abaixo da média dos últimos 5 meses. Acima, tendência de alta. Abaixo, de baixa.
Ela foi feita para pegar tendências que levam meses para se formar. E é exatamente aí que mora o limite dela.
Uma régua mensal só olha o fechamento do mês. Se o papel despenca em poucas semanas, a média de 5 meses ainda carrega os preços altos de antes. Ela demora para "acreditar" na queda. Quando o fechamento finalmente fica abaixo da média, o estrago já foi feito.
Na IRB, entre o topo de janeiro e o fechamento de março, o papel perdeu quase 80%. A régua não teve um único mês para avisar no meio do caminho.
Compare com outras histórias da mesma bolsa:
| Papel | Queda desde o topo quando a régua virou |
|---|---|
| OGX (OGXP3), dez/2010 | −10% |
| Oi (OIBR3), set/2012 | −13% |
| Hering (HGTX3), jan/2013 | −21% |
| Magalu (MGLU3), abr/2021 | −21% |
| Americanas (AMER3), set/2021 | −25% |
| Petrobras (PETR4), ago/2008 | −29% |
| IRB (IRBR3), mar/2020 | −78% |
Nas outras, a queda foi construída devagar, ao longo de meses e anos. A régua teve tempo de virar cedo. Na IRB, a queda foi um desabamento.
Só 5,9% das trocas perderam mais de 20%
Seria fácil dizer "então a régua não serve". Mas os dados mostram outra coisa: a IRB é exceção, não regra.
Na base do Quantor, todas as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões por dia, de 2006 a setembro de 2026, a régua teve 4.809 trocas. Só 5,9% delas perderam mais de 20%. A IRB está nesse canto pequeno da estatística.
Também tem um detalhe que pouca gente lembra. O fundo da IRB não foi em março de 2020. Foi em fevereiro de 2023, com −99% desde o topo. Mesmo chegando tarde, a régua ainda separava quem saiu em −78% de quem viveu o resto da descida.
E aqui a matemática da perda ajuda a enxergar o tamanho disso:
| Se caiu | Precisa subir para voltar |
|---|---|
| −50% | +100% |
| −80% | +400% |
| −90% | +900% |
De −78% para −99% parece "só mais um pouco". Não é. É a diferença entre um prejuízo enorme e o fim do dinheiro.
E quem pensou "caiu 80%, agora é oportunidade" pode olhar outro número da base: das 132 ações que caíram 80% do topo desde 2006, só 8% voltaram ao topo antigo em 5 anos. E 36% ainda chegaram a −95% depois. Barato não é sinônimo de oportunidade.
Quando a queda é mais rápida que o mês
Toda regra tem um tipo de mercado em que ela falha. Esconder isso seria desonesto.
A régua mensal falha quando a queda é mais rápida que o mês. Fraude que aparece de uma vez. Notícia que destrói a confiança da noite para o dia. Uma crise que derruba tudo junto em semanas.
Nesses casos, nenhuma regra de tendência de longo prazo te protege a tempo. Se fosse uma régua rápida, diária, ela teria saído antes, mas também teria saído em centenas de quedas falsas que voltaram no dia seguinte. Toda regra troca um erro por outro.
Então, se a régua não salva desse tipo de tombo, o que salva?
O tamanho da posição.
Na mesma base, quando sorteamos 2.000 carteiras e seguramos por 5 anos, com uma ação só, 32% perderam dinheiro, e as 10% piores perderam 68%. Com 10 ações, só 9% perderam, e as 10% piores ainda terminaram com +2%. A mediana quase não mudou. O que mudou foi o tamanho do desastre possível.
Quem tinha a IRB como 5% da carteira teve um ano muito ruim nesse papel. Quem tinha 40% teve a vida financeira mudada.
A régua cuida das quedas que levam meses. A diversificação cuida das que levam dias.
Tarde ainda é melhor que nunca
- Nenhuma regra mensal me protege de um desabamento de semanas. Eu sei disso antes de entrar.
- Por isso, nenhum papel sozinho pode ter o poder de destruir a minha carteira, por melhor que ele pareça.
- "Ação de qualidade" não é escudo. A IRB era chamada assim no topo.
- Mesmo chegando tarde, eu obedeço quando a minha regra vira. Tarde ainda é melhor que nunca: −78% não é −99%.
- E eu desconfio da frase "agora não adianta mais vender".
A regra cobre a maioria dos casos. O tamanho da posição cobre o resto.
