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Histórias do mercadopor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

Magalu: a maior alta e a maior queda

A ação multiplicou cerca de 750 vezes em pouco mais de cinco anos e depois devolveu 98%. A régua virou em abril de 2021, com −21% desde o topo.

Teve uma época em que todo mundo tinha Magalu.

O tio que nunca tinha investido. O colega de trabalho que abriu conta na corretora em 2020. O vizinho que mostrava o print do lucro no grupo da família.

E por um tempo, todos eles estavam certos.

Do fechamento de novembro de 2015 ao topo de janeiro de 2021, com proventos, a MGLU3 multiplicou cerca de 750 vezes. Não é erro de digitação. Quem colocou mil reais ali no fim de 2015 e segurou até o topo teria visto esse dinheiro virar centenas de milhares de reais.

Depois, a ação caiu 98% até junho de 2026.

As duas coisas são verdade sobre a mesma empresa. E entender como elas convivem ensina mais sobre bolsa do que muito livro.

A subida: quando a história e o preço andavam juntos

Em 2015, o Brasil estava em recessão, o varejo sofria e a ação de uma rede de lojas de eletrodomésticos com dívida não empolgava ninguém. Estava barata porque ninguém queria.

O que veio depois foi uma das transformações mais comentadas do varejo brasileiro. A empresa apostou pesado na venda pela internet, montou um marketplace, ou seja, abriu o site para outros lojistas venderem lá dentro, investiu em tecnologia e logística. Os resultados começaram a aparecer, trimestre após trimestre. O mercado foi percebendo. E o preço foi subindo.

Em 2020, veio a pandemia. Loja fechada, todo mundo comprando pela internet. A empresa que tinha se preparado para isso virou símbolo do momento. A ação chegou ao topo em janeiro de 2021.

E aqui tem um dado que eu acho lindo. Entre 2017 e 2020, a MGLU3 subiu 6.292%. Sabe quantos pregões foram de alta nesse período? 50,40%. Quase metade dos dias, 49,60%, foram de queda. A média dos dias de alta foi +3,07%; a dos dias de queda, −2,13%.

Ou seja: a maior alta da bolsa brasileira em anos aconteceu com o papel caindo praticamente um dia sim, um dia não. Quem olhava o gráfico todo dia e saía a cada susto não pegou nada disso.

A queda: quando o preço parou de acreditar

Não houve um escândalo. Não houve uma fraude. Foi algo mais comum e, por isso, mais perigoso.

O mundo mudou. A partir de 2021, os juros no Brasil começaram a subir com força. Para uma empresa de crescimento, cujo valor estava todo no lucro de muitos anos à frente, juro alto pesa duas vezes: encarece o crédito do consumidor e reduz o valor, hoje, daquele lucro lá na frente. A concorrência no comércio eletrônico apertou. A euforia da pandemia passou. E o preço, que tinha antecipado anos de crescimento, começou a devolver.

Devolveu quase tudo. −98% do topo.

E a matemática disso é cruel. Uma queda de 90% pede +900% para voltar. Uma queda de 98% pede mais do que isso, muito mais.

Do pinga-pinga ao casamento com a marca

Na subida, a armadilha era sair cedo. "Já subiu demais." "Vou realizar e entrar de novo mais embaixo." Quem fez isso em 2017 ou 2018 viu o papel continuar subindo sem ele. É o erro do pinga-pinga: ganhar 20% aqui, 30% ali, e perder o ciclo inteiro.

No topo, a armadilha virou ao contrário. Depois de anos vendo a ação subir, a cabeça aprendeu uma regra falsa: "toda queda da Magalu é oportunidade". E por anos isso tinha sido verdade. Esse é o viés de recência: a gente acha que o que aconteceu nos últimos anos é como o mundo funciona.

Na queda, apareceu o casamento. "Foi ela que me deu meu primeiro 100%." "Eu conheço a empresa, uso o aplicativo, vejo as entregas." A familiaridade com a marca virou confiança no preço. Só que usar o aplicativo não diz quanto o mercado vai pagar pela ação.

E no fundo do poço, o "vai voltar". "Já voltou de coisa pior." Voltou mesmo, de 2015 a 2021. Mas uma ação que caiu de um topo de euforia não tem obrigação nenhuma de repetir o filme.

Sair com −21% em vez de −98%

A régua do Quantor olha uma coisa só: no fechamento do mês, o preço está acima ou abaixo da média dos últimos 5 meses.

Depois do topo de janeiro de 2021, ela virou para baixo em abril de 2021, com a ação 21% abaixo do topo.

Quem tinha a régua como regra de saída teria devolvido um pedaço. Um pedaço dói. Sair 21% abaixo do topo nunca parece uma boa ideia no dia. Parece que você vendeu na queda e que o papel vai voltar amanhã.

Mas compara: −21% contra −98%. Quem saiu com −21% precisava de pouco mais de +25% para voltar ao topo. Quem ficou até o fim precisaria de uma multiplicação que pouquíssimas ações conseguem.

E repara na outra metade da história. Durante a subida, a mesma régua tinha mantido o investidor dentro, mês após mês, apesar daquele monte de dias vermelhos. Ela não liga para o dia. Liga para o mês. Foi justamente isso que deixou o ciclo inteiro acontecer.

A régua não conserta entrada ruim

Primeiro: isso tudo é olhar para trás. Em abril de 2021, a virada da régua parecia mais uma correção numa ação que já tinha corrigido várias vezes e voltado. Nada garantia que dessa vez seria diferente. Na base do Quantor, de 2006 a setembro de 2026, 63% das trocas da régua terminaram no prejuízo. Ela sai muitas vezes e o papel volta.

Segundo: numa queda longa, a régua não fica desligada para sempre. Ela pode ligar de novo num repique e desligar outra vez, e cada ida e vinda custa um pouco.

Terceiro: quem entrou tarde, já perto do topo, não tinha os 750 vezes de colchão. Para essa pessoa, −21% era prejuízo puro. A régua reduz o tamanho do estrago; não transforma entrada ruim em boa.

O que os dados mostram é sobre o conjunto, não sobre um caso. De 2006 a setembro de 2026, nas ações líquidas da B3, a régua rendeu mais que segurar em 66% dos papéis e caiu menos em 91% deles. Os 10% melhores ganhos somaram mais que o resultado inteiro: poucos ciclos grandes, como a subida da Magalu, pagaram muitos erros pequenos.

Quanto maior o ganho, maior o apego

  • A mesma ação pode ser a melhor e a pior da carteira. O que muda é a fase, não a empresa que eu conheço.
  • Na subida, o meu inimigo é a pressa de realizar. Na queda, é a vontade de ficar.
  • Conhecer a marca e usar o produto não me diz nada sobre o preço.
  • Eu não tento vender no topo. Aceito devolver um pedaço para não devolver tudo.
  • Quanto maior foi o ganho, mais eu preciso de uma regra, porque mais apego eu vou ter.
Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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