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Outros mercadospor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

O CDI é o adversário: todo resultado deve ser comparado com ele

Em 20 anos, o Ibovespa rendeu +8,1% ao ano e o CDI +10,2%. Lucro que perde do dinheiro parado não é lucro. É custo.

"Minha ação subiu 40% em cinco anos."

Parece bom. Quem fala está feliz. Fala com orgulho, mostra o print.

Só que tem uma pergunta que quase ninguém faz: e se o dinheiro tivesse ficado no CDI, sem risco nenhum, sem susto, sem acompanhar nada?

No Brasil, essa pergunta muda tudo. Porque aqui o adversário de qualquer investimento não é zero. É o CDI.

Por que a cabeça compara com zero

Quando a gente olha um investimento, a cabeça mede contra o ponto de partida. Comprei a 10, está a 14, ganhei. Ponto.

É a ancoragem: o preço que eu paguei vira a régua de tudo. E o zero vira a linha de chegada. Acima dele, "deu lucro".

Mas dinheiro tem custo. No momento em que você colocou o dinheiro na ação, abriu mão do que ele renderia parado. Os economistas chamam isso de custo de oportunidade. Eu chamo de aluguel: o CDI é o aluguel que o seu dinheiro cobraria sem fazer esforço nenhum. Qualquer investimento com risco tem que pagar mais que o aluguel. Senão, você correu o risco de graça.

E no Brasil o aluguel é caro. Juro alto o tempo todo. Pouca bolsa do mundo enfrenta um adversário desse tamanho.

Vinte anos de risco para ficar atrás

De março de 2006 a setembro de 2026, 20 anos e meio:

Ao ano
CDI +10,2%
Ibovespa (em pontos, sem dividendos) +8,1%

Vinte anos de bolsa, com todo o risco, todas as crises, todos os sustos. E o índice, em pontos, ficou atrás do dinheiro parado. Com os dividendos a diferença diminui, mas o ponto continua: a vantagem que todo mundo dá como certa não apareceu.

Agora, ação por ação. A base do Quantor, sem viés de sobrevivência (inclui as ações que quebraram ou saíram da bolsa), com as ações que negociaram mais de R$ 5 milhões por dia, peso igual, de 2006 a setembro de 2026, com proventos:

Ao ano Pior queda
Todas as ações, segurando sempre +8,1% −51%
CDI no mesmo período +10,1% 0%
As mesmas ações com a régua, dinheiro no CDI quando fora +13,2% −20%

Segurar todas as ações líquidas, com dividendo e tudo, rendeu menos que o CDI. E passou por uma queda de metade do dinheiro no caminho.

Olhando a ação típica, a coisa piora. Das 437 ações que entraram no teste papel a papel, a média do segurar foi +0,7% ao ano, contra +10,5% do CDI no período de cada uma. Só 160 das 437 bateram o CDI segurando. Uma em cada três, mais ou menos.

E o sorteio não salva. Em 4.000 carteiras sorteadas de 5 ações, segurando 12 meses, só 48% bateram o CDI. Em carteiras sorteadas de 1 a 40 ações, segurando 5 anos, bater o CDI ficou entre 45% e 50% em todos os tamanhos. Escolher no acaso foi, literalmente, cara ou coroa contra o dinheiro parado.

A régua só ganhou por causa do CDI

Repare na última linha da tabela das ações. A régua mensal (preço acima ou abaixo da média dos últimos 5 meses) rendeu +13,2% ao ano. Passou o CDI.

Mas olha de onde veio. Com a mesma régua e o dinheiro parado quando ela mandava sair, o resultado foi +8,1% ao ano. Exatamente o mesmo que segurar. A régua ficou fora 48% do tempo, e o ganho só apareceu quando esse dinheiro de fora foi trabalhar no CDI.

Ou seja: o CDI não é só o adversário. Ele também é o aliado de quem sabe ficar fora. Quase metade do tempo, a melhor posição em bolsa foi não estar nela, e deixar o aluguel correr.

E o juro também mexeu com a própria bolsa. De 2007 a 2026, nos meses com o CDI mais alto que seis meses antes (juro subindo), as ações renderam em média −0,25% ao mês. Com o juro caindo, +2,08% ao mês. Quando o aluguel sobe, o dinheiro sai da bolsa e vai morar no conforto.

Comparar com o CDI não condena a bolsa

Comparar com o CDI não quer dizer que bolsa não presta.

Houve fases longas em que a bolsa pagou muito mais. Entre 2016 e 2021, o Ibovespa subiu +187%. Quem olha só a média de 20 anos perde essas fases. E quem fica só no CDI também abre mão delas.

O período importa. Os números acima são de um Brasil com juro alto quase o tempo todo. Com outro juro, a mesma conta poderia dar outro resultado. E os prazos não são idênticos entre os testes, por isso o CDI aparece como +10,2% numa tabela, +10,1% na outra e +10,5% no papel a papel: cada um é o CDI da mesma janela do que está sendo comparado. Esse é o ponto. Comparar sempre na mesma janela.

CDI não é risco zero de tudo. Ele não protege de inflação alta por si só, e o que importa no fim é o que sobra depois do imposto. Mas como régua de comparação, é o mais honesto que a gente tem.

Quanto rendeu a mais que o aluguel?

  • Eu não pergunto "quanto rendeu". Pergunto "quanto rendeu a mais que o CDI, na mesma janela".
  • Uma ação que rendeu 5% ao ano em 15 anos não deu lucro. Perdeu para o dinheiro parado e ainda me fez passar pelos sustos.
  • Risco precisa pagar prêmio. Se não paga, eu prefiro o aluguel.
  • Ficar fora com o dinheiro no CDI não é covardia. Nos testes, foi o que fez a régua passar do CDI.
Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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