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Outros mercadospor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

Bitcoin na régua: onde a tendência perdeu de segurar

Testei a régua mensal no bitcoin desde 2015. Ela rendeu menos que segurar e cortou pouco da pior queda. O porquê ensina mais do que se tivesse ganhado.

Eu gosto de regra. Você já percebeu.

Régua mensal, preço acima ou abaixo da média dos últimos 5 meses. Acima, fico. Abaixo, saio. Nas ações da B3, em 20 anos, ela fez o trabalho dela.

Então a pergunta natural é: se funciona na bolsa brasileira, deve funcionar ainda melhor no bitcoin, certo? Um ativo que vive de tendência, que sobe como foguete e cai como pedra.

Testei. E a resposta foi não.

Vou mostrar os números do mesmo jeito que mostro quando a régua ganha. Porque regra que só aparece quando dá certo não é regra. É propaganda.

13 pontos ao ano atrás de segurar

Bitcoin em dólar, de junho de 2015 a setembro de 2026. Régua mensal, sem caixa: quando ela mandava sair, o dinheiro ficava parado, sem render nada.

Ao ano Pior queda Tempo fora
Segurando sempre +67% −76% 0%
Seguindo a régua +54% −68% 33%

A régua perdeu de segurar por 13 pontos ao ano. E a pior queda, que é onde ela costuma brilhar, só foi de −76% para −68%.

Para comparar: nas ações líquidas da B3, de 2006 a 2026, a mesma régua com o dinheiro parado rendeu o mesmo que segurar (+8,1% ao ano), mas a pior queda foi de −51% para −21%. Lá, a régua cortou mais da metade do tombo. No bitcoin, cortou um pedacinho.

Então não, a régua não "funcionou melhor onde o barulho é maior". Funcionou pior.

Por que deu errado

Não é mistério. Tem três motivos, e todos fazem sentido quando você entende como a régua trabalha.

1. A régua chega atrasada, e no bitcoin o atraso é caro. A régua mensal só confirma a alta depois que o preço já passou da média de 5 meses. Nas ações, o primeiro pedaço de uma alta costuma ser modesto. No bitcoin, o primeiro pedaço pode ser enorme. Quando a régua dá o sinal, uma parte grande da subida já ficou para trás. E a régua ficou fora 33% do tempo: em alguns desses meses, o bitcoin estava justamente arrancando.

2. As quedas são rápidas demais para uma régua mensal. Uma régua que olha o fechamento do mês só reage uma vez por mês. Se o ativo cai 30% em duas semanas, ela vê a queda depois que ela já aconteceu. É o mesmo problema que apareceu no IRB na B3: a ação desabou tão rápido que, quando a régua virou para baixo em março de 2020, a queda desde o topo já era de −78%. No bitcoin isso não é exceção. É o jeito normal de cair.

3. A tendência de longo prazo foi brutal para cima. Quem segurou um ativo que rendeu +67% ao ano por onze anos não precisou de regra nenhuma para ganhar. Precisou de estômago para aguentar −76%. Quando a direção de fundo é tão forte, cada mês fora pesa muito. A régua troca um pouco de retorno por menos queda. Aqui, pagou caro pelo retorno e recebeu pouca proteção de volta.

Tem ainda um quarto detalhe, menor: no teste, o dinheiro fora ficou parado. Se rendesse juros enquanto esperava, o resultado da régua melhoraria um pouco. Mas não fecharia uma diferença de 13 pontos ao ano.

Por que vale a pena falar disso

A gente aprende mais com o lugar onde a regra quebra do que com o lugar onde ela funciona.

Nas ações da B3, a régua ganhou por um motivo específico: as quedas eram longas. Duravam meses. A Petrobras levou de 2008 a 2016 para cair 87%, e a régua virou para baixo quando a queda desde o topo ainda era de −29%. Quedas longas dão tempo de sair.

O bitcoin cai de outro jeito. Cai rápido, volta rápido, e no saldo subiu muito. Isso é exatamente o terreno em que uma régua lenta sofre: ela perde a volta e não escapa da queda.

E tem a parte da cabeça. Depois de ver a régua funcionar em ações, a tentação é aplicar a mesma ferramenta em tudo, como se ela fosse uma verdade universal. É o viés de confirmação: a gente procura onde a ideia acerta e não testa onde ela pode errar. Toda regra tem um terreno em que funciona. Saber qual é faz parte da regra.

Segurar também cobrou um tombo de 76%

Antes de concluir "então é só segurar bitcoin", calma.

Segurar significou passar por −76%. Pensa no que isso é na vida real: de cada R$ 100, sobraram R$ 24. Pela matemática da perda, quem cai 76% precisa de muito mais que o dobro só para voltar ao ponto de partida (−50% já pede +100%; −80% pede +400%). Muita gente não segura isso. Vende no fundo e realiza a queda inteira, sem pegar a volta. O +67% ao ano é de quem aguentou cada um desses meses sem piscar.

E onze anos de um único ativo é uma amostra pequena. É um ativo novo, que passou por uma fase de adoção explosiva. Não dá para saber se os próximos onze anos vão ter a mesma cara. O teste diz o que aconteceu. Não diz o que vai acontecer.

Nenhuma ferramenta serve para tudo

  • A régua mensal funcionou em ações da B3 porque lá as quedas foram longas. No bitcoin, com quedas rápidas e altas explosivas, ela rendeu menos e protegeu pouco.
  • Não existe ferramenta que sirva para tudo. Antes de aplicar uma regra num ativo novo, eu olho o teste naquele ativo.
  • Se o ativo pode cair 76%, o que me protege primeiro é o tamanho da posição, não a régua.
  • E eu desconfio de quem só mostra a regra onde ela ganhou.
Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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