EUA ou Brasil: o que 20 anos de dados dizem
No total, a bolsa americana em reais ganhou da brasileira. Mas o vencedor trocou de lado a cada cinco anos, e parte do ganho veio do dólar.

"A bolsa brasileira não anda. O dinheiro de verdade está lá fora."
Se você investe há alguns anos, já ouviu essa frase. Talvez já tenha falado.
E ela tem um pedaço de verdade. Nos últimos 20 anos, o S&P 500, o índice das 500 maiores empresas americanas, medido em reais, rendeu mais que o Ibovespa.
Mas a frase esconde duas coisas. Quem ganhou mudou de lado várias vezes no caminho. E uma parte do ganho não veio das empresas americanas. Veio do real perdendo valor.
Por que a cabeça escolhe o último vencedor
A gente decide olhando para o retrovisor.
Quem começou a investir depois de 2015 viu o S&P subindo quase sem parar e o Ibovespa patinando. Para essa pessoa, "lá fora é melhor" não é opinião, é o que ela viu acontecer.
Isso tem nome: viés de recência. A cabeça dá peso demais ao que aconteceu por último e trata como regra o que pode ter sido só uma fase. Foi o que aconteceu com quem, em 2010, achava que o Brasil era o país do futuro e o mundo rico estava acabado. A capa de revista estava cheia disso.
Os dois estavam olhando para o retrovisor. Só que retrovisores diferentes.
Um terço do ganho veio do câmbio
Comparei, de março de 2006 a setembro de 2026 (20 anos e meio), o S&P 500, o Ibovespa, o ouro, o dólar e o CDI, sempre medidos em reais.
Um aviso importante antes da tabela: o S&P e o Ibovespa estão sem dividendos, só a variação do índice. Os dois ficam um pouco abaixo do que um investidor de verdade teria recebido.
| Ativo (mar/2006 a set/2026) | Ao ano |
|---|---|
| Ouro em reais | +14,9% |
| S&P 500 em reais | +13,8% |
| CDI | +10,2% |
| Ibovespa | +8,1% |
| Dólar | +4,4% |
No período inteiro, o S&P em reais rendeu +13,8% ao ano, contra +8,1% do Ibovespa. A diferença é grande e a frase do começo parece confirmada.
Agora repare na linha do dólar: +4,4% ao ano. Em dólar, o S&P rendeu +9,1% ao ano. Os +13,8% em reais são, mais ou menos, os +9,1% das empresas americanas somados aos +4,4% do dólar. Cerca de um terço do resultado veio do câmbio, ou seja, do real se desvalorizando.
E repare que o Ibovespa, sem dividendos, ficou abaixo do CDI no período. Isso também é verdade, e também é desconfortável.
O vencedor trocou de lado
Agora o mesmo período, cortado em janelas de cinco anos:
| Janela | S&P em reais | Ibovespa | Ouro em reais | Quem ganhou |
|---|---|---|---|---|
| 2006–2011 | −25% | +75% | +73% | Brasil |
| 2011–2016 | +275% | −39% | +108% | EUA |
| 2016–2021 | +157% | +187% | +122% | Brasil |
| 2021–2026 | +78% | +56% | +144% | Ouro (EUA na frente do Brasil) |
Leia de novo a primeira linha. Quem colocou dinheiro no S&P em 2006, pensando em reais, perdeu 25% em cinco anos, enquanto o Ibovespa subia 75%. Naquela época, a frase da moda era a contrária: "o Brasil é a bola da vez".
Aí veio 2011–2016. O S&P em reais quase quadruplicou (+275%) e o Ibovespa perdeu 39%. Essa é a janela que criou a frase "lá fora é melhor". E aqui o dólar pesou demais: só em 2015 ele subiu 48%. Quem tinha S&P em reais ganhou duas vezes, com as empresas e com a moeda.
De 2016 a 2021, o Brasil voltou a ganhar: +187% contra +157%.
E de 2021 a 2026, o S&P ficou na frente do Ibovespa (+78% contra +56%), mas quem ganhou das duas bolsas foi o ouro, com +144%.
Em quatro janelas, cada país venceu duas vezes contra o outro.
E a queda
O S&P em reais também caiu feio. A pior queda desde 2006 foi de −44%. A proteção do dólar não é garantida: em algumas crises o dólar sobe e segura a queda, em outras o real se valoriza e piora a conta.
Diversificar não é apostar no vencedor
Tem um argumento sério a favor de ter uma parte lá fora, e ele não é "lá rende mais".
É que o dólar e a bolsa brasileira costumam andar em direções opostas. De 2003 a 2026, nos meses em que o dólar subiu 3% ou mais, o Ibovespa caiu 4,5% em média e só subiu em 22% das vezes. De julho de 2008 a fevereiro de 2009, o dólar subiu 49% e o Ibovespa caiu 36%. No começo de 2020, o dólar subiu 26% e o Ibovespa caiu 29%.
Ter uma parte em ativos de fora, nesses meses, teria amortecido a pancada. Isso é diversificação, não aposta em quem vai ganhar.
Mas o contrário também vale: quando o real se valoriza, como entre 2006 e 2011, o ativo de fora perde em reais mesmo que suba em dólar.
O último vencedor não avisa o próximo
Eu não escolheria entre EUA e Brasil olhando os últimos cinco anos. Os dados mostram que o último vencedor não disse nada sobre o próximo.
Eu separaria duas perguntas: o que eu espero das empresas e o que eu espero do câmbio. Num investimento lá fora, as duas vêm juntas, e a segunda pode pesar tanto quanto a primeira.
E compararia tudo com o CDI, que rendeu +10,2% ao ano no período sem nenhuma queda no caminho.
