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Histórias do mercadopor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

Hering: a vencedora de +2.386% que virou −73%

Deixar a vencedora correr tem um outro lado que quase ninguém conta: saber descer do barco quando a tendência vira. A Hering ensinou as duas coisas.

Eu já contei o meu erro com a Hering.

Em 2009, eu era trader de pinga-pinga. Comprava, realizava um lucrinho, vendia. O papel subia mais e eu ficava de fora, travado no "já subiu demais". A Hering subiu mais de 200% em 2009 e mais de 100% em 2010. Eu assisti.

Foi ali que eu aprendi a deixar a vencedora correr.

Mas a história da Hering não termina em 2010. E a segunda metade dela ensina uma lição que é o espelho da primeira.

Quem aprendeu a deixar correr precisa aprender, também, a sair quando a corrida acaba.

A subida

Os números da base do Quantor, com proventos, no fechamento mensal: de outubro de 2008 até o topo de novembro de 2012, a Hering (HGTX3) subiu +2.386%.

Quem colocou R$ 10 mil no fundo da crise de 2008 tinha cerca de R$ 250 mil quatro anos depois.

Era a ação que todo mundo queria ter tido. Marca forte, lojas abrindo, resultado crescendo trimestre após trimestre. Virou case de palestra, exemplo de varejo bem feito, a prova de que o mercado brasileiro tinha empresas excelentes.

E aqui começa o perigo.

O que a cabeça faz com uma vencedora

Quando você ganha muito com uma ação, ela deixa de ser uma ação. Vira parte da sua história.

Você lembra do dia em que comprou. Conta para os amigos. A empresa vira "a minha empresa". É o casamento com a ação: você não analisa mais, você defende.

Depois vem a âncora no topo. O investidor que viu o papel a um preço alto passa a medir tudo a partir dali. A ação cai 10%, e ele pensa: "está mais barata que o topo, é oportunidade". Cai 20%: "olha o desconto". O topo vira o "preço justo" na cabeça dele, e qualquer coisa abaixo parece promoção.

E tem a pior de todas: a confiança herdada. "Essa ação já me deu 20 vezes o dinheiro. Ela sabe o que faz." O sucesso passado vira argumento para o futuro. Só que o mercado não deve nada a ninguém por gratidão.

A virada

A partir de 2013, o cenário da empresa mudou. O crescimento perdeu fôlego, a concorrência no varejo de moda apertou, a economia brasileira começou a esfriar. Nada disso aconteceu num dia só. Foi uma mudança lenta, trimestre a trimestre.

O preço contou essa história antes que ela ficasse clara para todo mundo.

Em janeiro de 2013, dois meses depois do topo, a régua mensal virou para baixo: o preço fechou abaixo da média dos últimos 5 meses. Naquele momento, a Hering estava 21% abaixo do topo.

Vinte e um por cento. Para um papel que tinha subido mais de 2.000%, isso parecia uma correção à toa. "Respira. Já já volta."

Não voltou.

Até julho de 2015, a Hering caiu −73% desde o topo.

Só 32% voltaram ao topo em 5 anos

Olha a matemática da perda:

Se caiu Precisa subir para voltar
−20% +25%
−50% +100%
−80% +400%

Quem saiu com a régua, perto dos −21%, tinha uma perda que um ano bom recupera. Quem ficou até os −73% precisava que o papel quase quadruplicasse.

E a Hering não é exceção. Na base do Quantor, todas as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões por dia de 2006 a setembro de 2026, olhamos 326 casos de ações que caíram 50% do topo. Só 32% voltaram ao topo antigo em 5 anos. E 47% ainda chegaram a −80% depois.

Agora junte isso com o que eu aprendi em 2009. Nas 4.047 entradas em que a régua virou para alta, no mesmo período, comparamos dois jeitos de sair:

Deixar correr até a régua virar Realizar no +20%
Ganho médio por entrada +5,6% +3,0%
Entradas acima de +50% 7% 1%
Maior ganho +852% +292%

Repare que "deixar correr" no teste não é "segurar para sempre". É ficar até a régua virar. A mesma regra que te mantém dentro na subida é a que te tira na descida.

Essa é a parte que a lição do pinga-pinga costuma esquecer.

As duas metades da mesma coragem

Em 2009, o meu erro foi sair cedo demais. Pinga-pinga.

Em 2013, o erro de muita gente foi o contrário: ficar tarde demais. Casamento.

Parecem erros opostos. Mas a raiz é a mesma: decidir pela emoção, não pela tendência. Em 2009, o medo de devolver o lucro me tirou do papel. Em 2013, o orgulho do lucro passado segurou muita gente dentro.

Deixar correr não é fé. É uma regra com duas pontas. Você fica enquanto a tendência existe, mesmo quando dá vontade de realizar. E você sai quando ela vira, mesmo quando dá vontade de esperar.

Só a primeira ponta te transforma num investidor que pega a alta e devolve tudo na queda.

Uma perda pequena contra anos de espera

A régua também erra. Ela vira para baixo em correções que depois voltam a subir, e você sai para entrar de novo mais caro. Isso é chato e acontece muito: na base, 63% das trocas terminaram no prejuízo, a maioria com perdas pequenas.

E sair em −21% dói. Você entrega um quinto do topo antes de agir. Nenhuma regra de tendência sai na máxima.

Mas compare os dois desconfortos. Sair e ver o papel voltar custa uma perda pequena e um pouco de orgulho. Ficar e ver o papel ir a −73% custa anos.

Deixar correr também tem fim

  • A Hering me ensinou a deixar correr. E depois me ensinou que deixar correr tem fim.
  • O lucro passado de uma ação não diz nada sobre o próximo ano dela.
  • O topo não é o preço justo. É só o preço mais alto que ela já teve.
  • A mesma regra que me segura dentro é a que me tira. Se eu obedeço só a metade que me agrada, não tenho regra.

Sentar em cima da posição certa exige coragem. Levantar quando ela deixa de ser certa também.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

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Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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