Joesley Day e a pandemia: os dias em que tudo caiu
Um dia de −8,8% em 2017 e um mês de −47% em 2020. O que o pânico fez com a cabeça do investidor, e quanto tempo levou para o preço voltar.

Quarta-feira, 17 de maio de 2017, noite.
Uma notícia sobre a gravação de uma conversa envolvendo o presidente da República toma conta de todos os sites. Em poucas horas, a pergunta deixa de ser política e vira financeira: o que vai acontecer com a bolsa amanhã?
Na quinta, 18 de maio, a resposta veio na abertura. As negociações foram interrompidas pelo circuit breaker, a trava automática que a B3 aciona quando o índice cai demais em pouco tempo. O dia ficou conhecido como Joesley Day.
O Ibovespa fechou em −8,8%, de 67.540 para 61.597 pontos.
Três anos depois, o mercado conheceria um pânico muito maior.
Março de 2020
Em 23 de janeiro de 2020, o Ibovespa estava no topo: 119.528 pontos. O vírus ainda era uma notícia distante.
Em março, ele chegou.
| Dia | Ibovespa |
|---|---|
| 9/3/2020 | −12,2% |
| 12/3/2020 | −14,8% |
| 16/3/2020 | −13,9% |
| 18/3/2020 | −10,3% |
Quatro dias de queda de dois dígitos em menos de duas semanas. O circuit breaker virou rotina. O 12 de março foi o pior dia do Ibovespa desde 1998.
Em 23 de março, o índice fechou em 63.570 pontos. Eram −47% desde o topo, em dois meses.
E março inteiro fechou em −29,9%, o segundo pior mês desde 1995.
Pânico é corpo, não raciocínio
Quem viveu esses dias lembra da sensação. Não era raciocínio. Era corpo.
O coração acelerado abrindo o aplicativo. A tela inteira vermelha. A notícia de cada hora pior que a da anterior. E uma pergunta martelando: "e se não parar mais?"
O pânico tem uma lógica simples. A cabeça dá muito mais peso a uma perda do que a um ganho do mesmo tamanho. É a aversão à perda. Quando a perda é rápida e coletiva, isso se multiplica: você vê todo mundo vendendo e sente que ficar parado é ser o último a sair do prédio pegando fogo.
E tem o viés do que é recente. Depois de três dias de queda forte, a cabeça projeta o quarto, o quinto, o décimo. Parece óbvio que vai continuar, só porque é o que está acontecendo agora.
Só que o mercado tem um detalhe que o pânico esquece.
Os piores dias vêm colados nos melhores
Os piores dias quase nunca vêm sozinhos. Vêm colados nos melhores.
No Ibovespa, de 1995 a 2026, em pontos e sem dividendos, o dia seguinte ao tombo de 12 de março foi +13,9%, um dos maiores dias de alta da história. Dos 20 melhores dias do período, 16 aconteceram a menos de 30 dias de um dos 20 piores.
Quem vendeu tudo no pânico de março e esperou "a poeira baixar" corria o risco de ficar fora justamente do repique. E ficar de fora dos melhores dias custa caro: com todos os dias, o Ibovespa rendeu +13,2% ao ano no período. Sem os 10 melhores dias, +7,8%. Sem os 20 melhores, +4,8%.
E o que veio depois?
| Evento | Queda | Voltou ao nível anterior |
|---|---|---|
| Joesley Day | −8,8% em um dia | 07/08/2017 (menos de 3 meses) |
| Pandemia | −47% do topo ao fundo | 06/01/2021 (menos de 1 ano) |
Doze meses depois do fundo de março de 2020, o Ibovespa estava +78% acima dele.
Olhando o fechamento mensal, que suaviza os dias extremos: o Ibovespa chegou a −37% do topo em março de 2020 e, 12 meses depois, estava +60%.
Nem toda crise volta em um ano
Até aqui, parece que a lição é "nunca venda no pânico, sempre volta". Não é tão simples.
Primeiro, a recuperação rápida de 2017 e 2020 não é a regra de toda crise. Depois de 2008, o Ibovespa levou mais de 9 anos, até setembro de 2017, para voltar ao topo em pontos. Ninguém sabia, no meio do pânico de março de 2020, se seria um 2017 ou um 2008.
Segundo, o índice voltou. Muitas ações não. Na base do Quantor, em 2020, 60% das ações líquidas da B3 caíram no ano, e 34% caíram mais de 20%. E nem o dividendo protegeu: o terço de ações com maior dividendo no início do ano teve mediana de −11%, pior que as outras (−7%).
Terceiro, nem a régua salvou. Com todas as ações líquidas, peso igual, segurando sempre, 2020 terminou em +2%. Seguindo a régua mensal, em −5%. A queda foi rápida demais para uma regra mensal sair a tempo, e a volta foi rápida demais para ela entrar a tempo. Em crises de dias, regras de meses chegam atrasadas nas duas pontas.
E o pior de todos: quem tentou comprar o fundo também sofreu. Na primeira semana de março, a bolsa já parecia barata. Depois caiu mais. Comprar no pânico exige aguentar mais queda, e não tem como saber quanto.
O plano se escreve antes do tombo
- O dia mais assustador da bolsa costuma estar perto de um dos melhores. Decisão tomada no meio dele quase sempre é decisão de corpo, não de cabeça.
- Eu não decido nada sobre a carteira inteira no dia do tombo. A regra eu escrevi antes, com calma.
- Crise rápida não é crise curta garantida. 2020 voltou em um ano; 2008 levou nove.
- A proteção que funciona em dia de pânico é a que eu montei antes dele: quantas ações, quanto em cada uma, quanto fora da bolsa.
O pânico não pede opinião. Ele só cobra de quem não tinha plano.
