Vai ter dia que a bolsa vai te destruir por dentro
Os piores dias da bolsa brasileira já tiraram 15% num pregão só. Eles vão voltar. O que decide o seu resultado é o que você faz no dia seguinte.

Vai ter dia que a bolsa vai te destruir por dentro.
Não é exagero. É certeza.
Vai ter dia em que o estômago trava. A cabeça gira. Você olha a tela e pensa: "o que eu estou fazendo aqui?".
Eu já tive muitos dias assim. Vermelho no talo. Papel despencando sem notícia nenhuma que eu entendesse. Aquela sensação de que não tem nada que eu possa fazer.
E o que eu aprendi, depois de 20 anos, é que o problema nunca foi o dia ruim.
O problema é o que a gente faz depois dele.
Por que o dia ruim é tão perigoso
No dia da porrada, você não está pensando. Está reagindo.
O cérebro entra no modo alarme. Tudo parece pior do que é. A queda de hoje parece o começo do fim. E nesse estado a pessoa faz as três coisas que mais destroem patrimônio:
- vende o que não devia, só para a dor parar;
- aumenta posição errada, para "aproveitar" ou "recuperar";
- joga fora o plano que tinha feito com calma.
Repara que nenhuma dessas decisões é tomada com informação nova. É tomada com adrenalina. A informação é a mesma de ontem. Você é que está diferente.
−15,8% num dia só, e não foi o fim
Para você saber o tamanho do monstro, olha os piores dias do Ibovespa de 1995 para cá (em pontos, sem dividendos):
| Dia | Queda | O que era |
|---|---|---|
| 10/09/1998 | −15,8% | Crise da Rússia |
| 27/10/1997 | −15,0% | Crise da Ásia |
| 12/03/2020 | −14,8% | Pandemia |
| 16/03/2020 | −13,9% | Pandemia |
| 15/10/2008 | −11,4% | Crise de 2008 |
Quinze por cento num dia. Imagina olhar a carteira às cinco da tarde e ver isso.
Agora olha os melhores dias:
| Dia | Alta |
|---|---|
| 15/01/1999 | +33,4% |
| 15/09/1998 | +18,7% |
| 13/10/2008 | +14,7% |
| 13/03/2020 | +13,9% |
Viu as datas? Os maiores dias de alta vieram colados aos piores. Mesma semana, mesmo mês. Em março de 2020, o Ibovespa caiu 14,8% numa quinta-feira, subiu 13,9% na sexta e caiu 13,9% de novo na segunda.
O dia que te destrói e o dia que te salva costumam morar no mesmo endereço. Quem vende tudo no desespero da quinta, muitas vezes, assiste à sexta de fora.
E tem os meses. Esses doem mais devagar, mas doem mais fundo:
- agosto de 1998: −39,6%
- março de 2020: −29,9%
- outubro de 2008: −24,8%
- outubro de 1997: −23,8%
- dezembro de 1998: −21,4%
Um mês só levou quase 40% do índice.
E a última pergunta: quanto tempo levou para voltar? Olhando as grandes quedas no fechamento de cada mês:
| Queda | Tamanho | Tempo para voltar ao topo |
|---|---|---|
| 1997–98 | −50% | 28 meses |
| 2000–02 | −52% | 43 meses |
| 2008 | −50% | 112 meses |
| 2020 | −37% | 12 meses |
| 2021–22 | −22% | 29 meses |
Às vezes um ano. Às vezes mais de nove. Ninguém sabia, no dia da porrada, qual das duas ia ser.
O dia seguinte
O dia seguinte é onde o jogo se decide. E ele tem um roteiro simples, que eu sigo há anos.
Primeiro: eu não abro a tela antes de dormir bem. A decisão tomada à meia-noite, com o coração acelerado, quase nunca é boa.
Segundo: eu separo o que eu sinto do que mudou. A empresa é a mesma de ontem? O lucro é o mesmo? A minha regra virou? Se a resposta é "nada mudou, só o preço caiu", então a única coisa nova é o meu medo.
Terceiro: eu olho o tamanho da posição, não o tamanho da queda. Se uma única ação conseguiu tirar o meu sono, o problema não foi o dia ruim. Foi que eu estava grande demais naquele papel. Isso eu corrijo com calma, nas semanas seguintes, e não no susto.
Quarto: eu anoto. O que eu senti, o que tive vontade de fazer, o que fiz. Na próxima porrada, eu leio. Ajuda mais do que parece.
Não decida no dia da porrada
Eu não vou te dizer "segura que volta". Esses números não dizem isso.
Primeiro, porque é o índice, em pontos, sem dividendos e sem comparar com a renda fixa. Ação individual é outra história. Ação não tem obrigação de voltar.
Segundo, porque às vezes o dia ruim é sim o começo de uma queda longa. 2008 foi assim. Quem tinha uma regra de saída e saiu no caminho fez bem. Sair por regra não é o mesmo que sair por pânico, mesmo que as duas coisas aconteçam no mesmo dia.
O que eu estou dizendo é outra coisa: não decida no dia da porrada. Se a sua regra manda sair, ela já mandava antes de você sentir a dor. Se ela não manda, a dor não é motivo.
Fechar o app e ir jantar fora
Nos dias ruins, eu saio da frente da tela. Sério.
Fecho o gráfico. Fecho o app. Vou jantar fora, vou caminhar, vou dormir cedo.
No dia seguinte a visão clareia. Aí eu olho a minha regra, com calma, e vejo se ela mudou alguma coisa.
Cuidar da cabeça faz parte do método. Quem não se protege nos dias ruins começa a operar com raiva, com medo, no escuro.
Vai ter porrada? Vai. Vai ter dor? Vai. O que importa é continuar inteiro para o próximo mês.
