Banco barato por P/VP raramente é barato
Num banco, o preço sobre o patrimônio é o preço da confiança no ROE de amanhã. Em setembro de 2026, o Itaú custava 2,35 vezes o patrimônio e o Banco do Brasil 0,71, com o mesmo P/L.

Em 1 minuto
- Num banco, o P/VP é o preço que o mercado paga pela confiança no ROE futuro: P/VP baixo quase sempre é desconfiança, não desconto.
- Em 30/09/2026, o Banco do Brasil valia 0,71 vez o patrimônio com ROE de 6,6%; o Itaú, 2,35 vezes com ROE de 21,5%, e os dois tinham P/L perto de 11.
- A conta P/VP × custo de capital diz qual ROE está no preço; o trabalho é decidir se você acredita nele.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular o P/VP que um ROE justifica e o ROE que um P/VP embute
- Explicar por que P/L e EV/EBITDA enganam em banco
- Ler a inadimplência e o capital antes de contar com o lucro e o dividendo
A tese: em banco, P/VP baixo é desconfiança, não desconto
Comprar R$ 1 de patrimônio pagando R$ 0,71 parece a definição de barganha. Em banco, quase nunca é. O patrimônio de um banco só vale alguma coisa pelo que ele rende, e um P/VP abaixo de 1 é o mercado dizendo, em número, que não acredita que aquele patrimônio vá render o que o acionista exige.
Em 30 de setembro de 2026, os dois maiores bancos da bolsa mostravam isso lado a lado:
| ITUB4 | BBAS3 | |
|---|---|---|
| ROE (lucro de 12 meses ÷ patrimônio) | 21,5% | 6,6% |
| P/VP (preço ÷ patrimônio por ação) | 2,35 | 0,71 |
| P/L (preço ÷ lucro por ação) | 10,9 | 10,7 |
Pelo P/L, que mede quantos anos de lucro o preço paga, os dois eram gêmeos. Pelo P/VP, um custava mais que o triplo do outro. Os dois números estão certos. O que muda é a pergunta que cada um responde.
A ideia: O P/VP de um banco não diz se ele está caro ou barato. Diz qual ROE o preço está assumindo, e você decide se acredita.
O mecanismo: três forças que fazem o patrimônio ser o produto
1. O balanço é a fábrica. Numa indústria, o patrimônio é máquina e estoque, um meio para produzir. Num banco, o balanço é o próprio negócio: ele capta dinheiro (depósitos, letras, CDBs) e empresta mais caro. O patrimônio é o colchão que o regulador exige para que ele possa emprestar. As regras de Basileia limitam quanto crédito cabe em cada real de capital. Por isso a pergunta central é quanto cada real de patrimônio rende por ano, e esse número é o ROE.
2. O lucro de banco tem uma estimativa dentro. Parte da despesa do ano é a provisão para calote: quanto o banco acha que vai perder com quem pegou crédito. Provisionar muito agora derruba o lucro de hoje; provisionar pouco o infla e empurra a conta para frente. O caixa é o mesmo nos dois casos, o P/L não. É por isso que o P/L de banco, sozinho, é um número frágil.
3. O juro chega antes do calote. Quando a Selic sobe, o banco reajusta o que cobra antes do que paga, e o lucro melhora primeiro. A fatura chega um ou dois anos depois, quando quem tomou crédito caro começa a atrasar. Lucro de banco no meio de um ciclo de juro alto costuma estar no ponto mais bonito, logo antes de piorar.
A conta: o ROE que está no preço
Existe uma conta de bolso que transforma P/VP em expectativa. Se o banco não crescesse e distribuísse todo o lucro, o P/VP justo seria o ROE dividido pelo custo de capital, o retorno que o acionista exige para correr o risco de ação. Com a Selic em 13,75% em setembro de 2026, usar 15% ao ano como custo de capital é uma hipótese razoável. Ela é sua, não do mercado, e o simulador abaixo deixa você trocá-la.
Fazendo a conta ao contrário, o P/VP de hoje vezes o custo de capital dá o ROE que o preço embute:
- BBAS3: 0,71 × 15% = 10,6%. O preço assume que o ROE volta de 6,6% para perto de 11%.
- ITUB4: 2,35 × 15% = 35,2%. Como o ROE é 21,5%, a conta simples diz que o preço está "caro".
A versão mais completa considera que o banco retém parte do lucro e cresce. O dividendo de 12 meses dividido pelo lucro dá a fatia distribuída (o payout): no Itaú, cerca de 76%; no BB, cerca de 32%. O crescimento sustentável é o ROE vezes a parte retida. Com isso, o P/VP justo do Itaú a 15% sobe para 1,65 (a mesma conta da aula 2 do módulo 3), e o custo de capital que fecha a conta com o preço de mercado cai para 12,1%. Em outras palavras: ou o mercado acredita num ROE ainda maior, ou aceita um retorno abaixo da Selic de hoje, apostando que o juro vai cair.
O simulador começa no BBAS3 de 30/09/2026. Ele recalcula o crescimento junto com o ROE, por isso pede um ROE de cerca de 13,3%, acima dos 10,6% da conta simples: nos dois jeitos, o preço aposta numa recuperação. Mexa no ROE e no custo de capital. Você vai perceber que um ponto de custo de capital muda o P/VP justo mais do que dois pontos de ROE. O P/VP de banco é, em boa parte, uma aposta no juro.
O caso do Banco do Brasil: o barato que ficou mais barato
Em setembro de 2024, o BBAS3 tinha ROE de 17,6% e P/VP de 0,87. Pela conta de bolso, um banco com esse ROE justificaria mais de 1 vez o patrimônio. Parecia o desconto do século.
Antes de continuar: Setembro de 2024: BBAS3 com ROE de 17,6% e P/VP de 0,87. Dois anos depois, com os dividendos, quanto rendeu quem comprou?
a) Uns 40% a mais: o desconto fechou · b) Uns 30% a mais, o mesmo que o CDI · c) Perdeu uns 6%
Resposta: Perdeu uns 6%. Perdeu 6,4% com proventos até 30/09/2026, enquanto o CDI rendeu 29,7% e o ITUB4, 62,9%. O ROE caiu para 6,6% e o P/VP ficou em 0,71.
O que aconteceu foi a força 3 em câmera lenta. O lucro de 12 meses do banco, que chegou a R$ 31,5 bilhões no balanço de junho de 2024, caiu para R$ 12,3 bilhões no de junho de 2026. A inadimplência da carteira rural foi de 1,32% no segundo trimestre de 2024 para 3,49% no segundo de 2025, segundo o próprio balanço do banco noticiado na época (IstoÉ Dinheiro, 15/08/2025). O mercado tinha precificado essa piora antes de ela chegar ao lucro: o P/VP de 0,87 já era a desconfiança.
E repare num detalhe da tabela do começo: com o lucro caindo, o P/L do BB subiu de 4,9 para 10,7 sem o preço subir. O "barato pelo P/L" de 2024 virou "normal pelo P/L" em 2026 só porque o denominador encolheu.
Voltar à trilha Setores de contrato, regulador e balançoTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.