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Setores de ciclo · Aula 2 de 5

Mineração e siderurgia: o preço é do minério, não da empresa

De 2011 a 2015, o minério de ferro caiu 79% e a VALE3, em dólar, 90%. De 2015 a 2021, ele subiu 442% e ela, 578%. Mês a mês a relação é fraca; em seis meses ou um ano, é o minério que desenha o gráfico, e é o balanço que decide quem chega ao fim do ciclo.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Mineração e siderurgia: o preço é do minério, não da empresa

Em 1 minuto

  • Quem compra uma mineradora compra, em boa parte, uma posição em minério de ferro com a empresa no meio.
  • Num mês, o minério explica só uns 15% do que a VALE3 faz; em um ano, cerca de metade, e nos grandes ciclos a ação amplia o minério.
  • O minério decide a direção; a dívida e a operação decidem quem sobrevive ao fundo.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Medir quanto do movimento de uma ação vem da commodity
  • Estimar quanto o lucro cai quando o preço da tonelada cai
  • Separar o risco do ciclo do risco da empresa

A tese: quem vende minério não escolhe o preço

A aula anterior mostrou que o lucro de uma cíclica oscila muito mais que a receita, e que por isso o P/L gira ao contrário. Esta aula faz a pergunta seguinte, que muda o jeito de olhar a ação: quanto do preço da VALE3 é só o preço do minério de ferro?

A Vale decide quanto extrai, quanto investe, quanto distribui. O preço da tonelada é decidido lá fora, principalmente pela demanda das siderúrgicas da China. Quem compra VALE3 achando que está comprando "a empresa" está, em boa parte, comprando uma posição em minério, com a empresa no meio.

A ideia: Em mineração, antes de perguntar se a empresa é boa, pergunte o que o minério vai fazer. É ele que desenha o gráfico da ação nos movimentos grandes.

Isso não torna o balanço inútil. Torna-o a segunda pergunta. E, como você vai ver, a segunda pergunta é a que decide quem chega vivo ao outro lado do ciclo.

O mecanismo: três forças entre a mina e a cotação

1. A demanda vem de um comprador só, e ele é enorme. O minério de ferro vira aço, e a maior parte do aço do mundo é feita na China. Quando a China constrói (prédios, pontes, ferrovias), o minério e o aço sobem juntos. Quando ela freia, os dois caem juntos. Nenhuma mineradora brasileira tem poder sobre esse ciclo.

2. O custo fixo amplifica tudo. Uma mina vende a US$ 100 a tonelada com custo de US$ 60: lucro de US$ 40. Se o preço cai 20%, para US$ 80, o lucro cai para US$ 20, metade. A receita caiu 20%; o lucro, 50%. Na Vale real, entre o fim de 2021 e setembro de 2026, a receita de 12 meses caiu 28% e o lucro, 89%, como a aula 1 mostrou.

3. A oferta chega atrasada. Preço alto atrai minas e usinas novas no setor inteiro. Só que uma mina leva anos para ficar pronta. A oferta nova costuma chegar quando o preço já virou, e derruba mais ainda. É por isso que o ciclo tem fases longas, de anos, e não oscilações curtas.

Os dois grandes ciclos, lado a lado

A aula de mineração publicada em setembro de 2026 comparou a VALE3 convertida em dólar (o minério é cotado em dólar) com o contrato futuro de minério negociado nos Estados Unidos (código TIO=F, com dados desde novembro de 2010), conferido com o preço mensal publicado pelo FMI. Só preço, sem dividendos:

Trecho Minério VALE3 em dólar
fev/2011 → dez/2015 −79% −90%
dez/2015 → jun/2021 +442% +578%
jun/2021 → out/2022 −57% −44%

Nos dois primeiros trechos, a ação ampliou o minério: caiu mais na queda e subiu mais na alta. É o custo fixo da segunda força chegando ao preço. No terceiro, caiu menos que o minério. A conta da tabela é só de preço, e no fim de 2021 a Vale tinha quase nenhuma dívida (0,1 vez o EBITDA) e um dividend yield de 18,8% em 12 meses, dinheiro que saiu do preço e foi para o bolso do acionista.

Mês a mês, é ruído

Aqui mora o engano mais comum. Quem vê o minério subir 3% numa semana e espera a VALE3 subir junto costuma se frustrar.

A medida usada é a correlação, um número de −1 a +1 que diz quanto duas coisas sobem e caem juntas. Elevada ao quadrado, ela dá a fração do movimento de uma que a outra explica.

Antes de continuar: Mês a mês, desde 2010, quanto do sobe e desce da VALE3 (em dólar) é explicado pelo minério de ferro?

a) Uns 15% · b) Uns 40% · c) Uns 70% · d) Uns 90%

Resposta: Uns 15%. A correlação mensal é de 0,39; ao quadrado, uns 15%. Em 12 meses, sobe para 0,71, ou cerca de metade. O resto do mês é juro, dólar, humor da bolsa e notícia da própria empresa.

Em janelas que não se sobrepõem, as correlações da VALE3 com o minério, ambos em dólar, foram estas:

Prazo Correlação Parte explicada pelo minério
1 mês 0,39 cerca de 15%
3 meses 0,68 cerca de 46%
6 meses 0,72 cerca de 52%
12 meses 0,71 cerca de 50%

Por que a relação é tão fraca no curto prazo e tão forte no longo? Porque num mês o preço da ação reage a tudo ao mesmo tempo: à Selic, ao dólar, ao fluxo de estrangeiros na bolsa, a uma notícia da empresa, a um dado da China que ainda não mexeu no minério. Em um ano, esses ruídos tendem a se cancelar, e o que sobra é o que de fato mudou o lucro: o preço da tonelada.

Outra forma de ver: em 50 janelas de 12 meses em que o minério andou mais de 30%, a VALE3 foi para o mesmo lado em 40, ou 80% das vezes. Quando o minério andou menos de 10%, a ação foi para o mesmo lado em só 65% das vezes, pouco mais que cara ou coroa. O minério manda quando se mexe muito. Quando se mexe pouco, outras coisas mandam.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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