Dívida: o número que só mata quando a receita some
Quase toda crise de endividamento começa pela queda do EBITDA, não pela alta da dívida. A Raízen foi de 2,8 para 18,9 vezes o EBITDA em 21 meses com a dívida subindo só 19%.

Em 1 minuto
- Dívida líquida sobre EBITDA diz quantos anos da geração de hoje pagariam a dívida; a mediana das não financeiras líquidas era 1,69 em 30/09/2026.
- O número que se mexe é o de baixo: em 57 dos 69 saltos de menos de 3 para mais de 4 vezes, de 2010 a 2025, o EBITDA caiu.
- A mesma dívida é rotina em receita contratada e é perigo em receita que oscila.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular dívida líquida sobre EBITDA a partir do balanço
- Testar quanto o EBITDA pode cair antes de a dívida virar problema
- Saber o que procurar nas notas: vencimento, moeda e arrendamentos
A tese: dívida não quebra empresa; vencimento sem receita quebra
Pense em duas famílias com o mesmo financiamento de casa. Uma tem dois salários de servidor público. A outra vive de comissão de vendas. A parcela é igual; o risco não. O que decide é a chance de a renda faltar no mês em que a parcela vence.
Com empresa é igual. A aula anterior mostrou que a dívida pode inflar o ROE. Esta mostra o outro lado: a dívida é a linha do balanço que decide se a empresa atravessa um ano ruim. E o erro mais comum é olhar para o número de cima da conta, a dívida, quando quem se mexe é o de baixo, a geração de caixa.
A ideia: A mesma dívida é rotina numa empresa de receita previsível e perigo numa empresa de receita que oscila. O número sozinho não classifica nada; o tipo de negócio, sim.
Como se mede: dívida líquida sobre EBITDA
Dívida líquida é o que a empresa deve pagando juros (empréstimos, financiamentos, debêntures) menos o caixa e as aplicações. É o que sobraria de dívida se ela usasse todo o dinheiro disponível para pagar.
EBITDA é o lucro da operação antes de juros, impostos, depreciação e amortização: uma medida, imperfeita, de quanto a operação gera por ano para pagar credores.
Dividindo um pelo outro, sai quantos anos da geração atual quitariam a dívida. Na PETR4, com o ITR de 30/06/2026: dívida bruta de R$ 366,5 bilhões, caixa de R$ 53,8 bilhões, dívida líquida de R$ 312,8 bilhões. Dividida pelo EBITDA de 12 meses, R$ 273,3 bilhões, dá 1,14 vez.
Um detalhe que muda o número: a base do Quantor conta a dívida de empréstimos e financiamentos. Os arrendamentos (aluguéis de longo prazo que o balanço registra como dívida desde 2019) ficam fora. Na PETR4, eles eram R$ 238,5 bilhões em 31/12/2025; com eles, a mesma conta passa de 2. Em empresas de lojas, navios ou aviões alugados, essa diferença é grande, e vale saber qual dívida a tela está somando.
A régua da bolsa e a régua do setor
Em 30/09/2026, entre as 149 empresas não financeiras líquidas da B3 com EBITDA positivo:
1,69 mediana de dívida líquida sobre EBITDA · 25 com mais caixa que dívida (número negativo) · 15 acima de 4 vezes
| Papel | Dívida líquida ÷ EBITDA | O negócio |
|---|---|---|
| WEGE3 | −0,42 | mais caixa que dívida |
| LREN3 | −0,38 | mais caixa que dívida |
| PETR4 | 1,14 | petróleo, preço global |
| EGIE3 | 3,04 | geração com contratos longos |
| TAEE11 | 3,48 | transmissão, receita regulada |
| EQTL3 | 4,90 | distribuição e transmissão |
| MRVE3 | 7,39 | incorporação, depende de crédito |
| CSAN3 | 8,54 | holding de energia e logística |
Energia e saneamento, juntos, tinham mediana de 2,9 vezes; o resto da bolsa, 1,3. Uma transmissora recebe uma receita definida em contrato por décadas, corrigida por índice de preços. Para ela, 3 a 4 vezes é desenho. Uma incorporadora depende de vender apartamentos, de o comprador conseguir financiamento e de o juro não subir. Para ela, 7 vezes é alerta.
O mecanismo: três forças que fazem a dívida pesar de repente
1. O denominador é que se mexe. A dívida muda devagar: vence aos poucos, é rolada, é paga. O EBITDA de um negócio que depende de preço, de crédito ou de consumo pode cair pela metade num ano. Se o EBITDA de uma empresa com 3 vezes cai 60%, a mesma dívida passa a valer 7,5 vezes sem ela ter tomado um real a mais.
2. Juro alto come o que sobra. A dívida em reais costuma pagar CDI mais um spread. Com a Selic entre 13,75% e 15%, como em 2025 e 2026, a conta de juros cresce justamente quando a economia desacelera e o EBITDA encolhe. As duas pontas apertam ao mesmo tempo.
3. O credor muda de humor antes do balanço. Contratos de dívida costumam ter limites de alavancagem (os covenants). Quando o múltiplo se aproxima deles, o banco cobra mais para rolar, ou não rola. A empresa que precisava de tempo descobre que o tempo também tinha prazo.
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