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Os mestres, testados na B3 · Aula 7 de 8

Marks: o pêndulo não avisa quando vira

Howard Marks não prevê o mercado, mede a temperatura. No Ibovespa desde 1996, comprar mais de 30% abaixo do recorde rendeu 34% no ano seguinte, na mediana; perto do recorde, 10%. Mas em 2008 o índice caiu mais 43% depois do gatilho, e em 2001 terminou o ano seguinte com perda de 20%.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Marks: o pêndulo não avisa quando vira

Em 1 minuto

  • Marks não tenta adivinhar o próximo movimento: pergunta onde o pêndulo do mercado está, entre a euforia e o pânico, porque o preço pago pelo risco decide o retorno.
  • No Ibovespa desde 1996, comprar mais de 30% abaixo do recorde rendeu +34% no ano seguinte, na mediana; perto do recorde, +10%; e a faixa do meio foi a pior, com +4%.
  • O gatilho marca uma região, não o fundo: em 2008 o índice ainda caiu mais 43%, e em 2001 o ano seguinte terminou com −20%.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Medir a temperatura do mercado pela distância até o recorde
  • Ajustar a agressividade sem tentar acertar o fundo
  • Separar o pânico do índice da quebra de uma empresa

A tese: você não sabe para onde vai, mas sabe onde está

Howard Marks, fundador da gestora Oaktree, escreveu por décadas cartas aos clientes que viraram dois livros: The Most Important Thing (2011) e Mastering the Market Cycle (2018). A ideia central cabe numa frase: ninguém sabe o que o mercado vai fazer amanhã, mas dá para saber em que ponto do ciclo ele está, e isso muda as chances do que vem depois.

Todos os mestres anteriores desta trilha olham a empresa. Marks olha o preço do risco no mercado inteiro. É o complemento que faltava ao Raio-X: o balanço diz o que a empresa é; o pêndulo diz quanto o mercado está cobrando, naquele momento, para você ser dono dela.

A ideia: O retorno futuro depende menos do que vai acontecer e mais do preço que você pagou pelo risco quando entrou.

O mecanismo: três forças que movem o pêndulo

1. O humor exagera nos dois sentidos. Marks usa a imagem de um pêndulo que vai da euforia ao pânico e volta, e passa pelo meio, o ponto razoável, depressa demais para ficar ali. No alto da euforia, todo mundo já pagou pelo otimismo. No fundo do pânico, o medo já está no preço.

2. O risco é mais alto quando parece mais baixo. Quando tudo sobe, o investidor sente que o risco diminuiu, e paga mais caro por ele. Quando tudo cai, sente que o risco aumentou, justamente quando o preço já o embute. A percepção anda ao contrário do risco de verdade.

3. O ciclo não tem relógio. Os ciclos se repetem, mas nunca com a mesma duração nem a mesma amplitude. Por isso Marks fala em ajustar a postura, não em marcar a data da virada.

O teste: onde estava o pêndulo quando você comprou

Para testar a ideia sem opinião, é preciso um termômetro simples. Este usa a distância do Ibovespa até o recorde anterior: 2% abaixo do maior valor já atingido é perto da euforia; 40% abaixo, perto do pânico. Para cada dia desde 1996 com um ano de futuro disponível, mediu-se essa distância e o retorno do índice, com dividendos, nos 12 meses seguintes.

Antes de continuar: Comprando o Ibovespa quando ele estava mais de 30% abaixo do recorde, quanto rendeu o ano seguinte, na mediana?

a) Uns 5%: quem cai muito continua caindo · b) Uns 15% · c) +34%, e positivo em 81% dos casos

Resposta: +34%, e positivo em 81% dos casos. +34% na mediana, positivo em 81% dos dias. Perto do recorde, a menos de 5%, o ano seguinte rendeu +10% e foi positivo em 66%.

Distância do recorde no dia da compra Ano seguinte, mediana Anos positivos
Menos de 5% abaixo +10% 66%
De 15% a 30% abaixo +4% –
Mais de 30% abaixo +34% 81%

O detalhe que Marks adoraria está na linha do meio. A faixa de 15% a 30% abaixo foi a pior. Um mercado que caiu "um pouco" ainda não tinha medo suficiente no preço. É a fase em que o investidor acha que já está barato.

Antes de continuar: Qual faixa teve o pior ano seguinte, na mediana?

a) Perto do recorde: comprar no topo é o pior · b) De 15% a 30% abaixo do recorde · c) Mais de 30% abaixo

Resposta: De 15% a 30% abaixo do recorde. A do meio: +4% na mediana. O mercado já tinha caído o bastante para parecer barato e não o bastante para ter o medo no preço.

O pêndulo marca uma região, não o fundo

Agora o lado que as frases bonitas escondem. Em 04/09/2008, o Ibovespa estava em 51,4 mil pontos, 30% abaixo do recorde de maio. Quem comprou ali viu o índice cair mais 43%, até 29,4 mil em outubro. Doze meses depois da compra, estava com +14%. Funcionou, mas só para quem aguentou ver a posição perder quase metade no caminho.

51,4 mil Ibovespa em 04/09/2008, 30% abaixo do recorde · −43% a queda que ainda veio, até 29,4 mil em outubro · +14% 12 meses depois da compra

Uma queda de 43% depois da compra pede alta de 75% para voltar. Mexa na alavancagem: quem comprou no medo com dinheiro emprestado talvez não tenha chegado ao +14%.

Em 17/08/2001, o mesmo gatilho disparou a 13,0 mil pontos. O índice caiu mais 36% até 2002, e o ano seguinte terminou em −20%. Na faixa de mais de 30% abaixo do recorde, 19% dos casos foram negativos, e eles se concentram em três períodos: 1997–98, 2001–02 e 2013–15. Marks diz isso com todas as letras: saber onde está o pêndulo melhora as chances, não diz quando ele vira.

Cuidado: O gatilho do medo diz que as chances estão do seu lado. Não diz que o pior já passou.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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