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Os mestres, testados na B3 · Aula 8 de 8

CAN SLIM: o único que passou, e por que ainda pode ser sorte

O método de William O'Neil junta lucro acelerando, ação perto da máxima e mercado em alta. Na B3, de 2011 a 2026, foi o único dos mestres testados neste módulo a bater o CDI com folga em todos os blocos. E mesmo assim não dá para dizer que não foi sorte.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
CAN SLIM: o único que passou, e por que ainda pode ser sorte

Em 1 minuto

  • O CAN SLIM junta dois critérios de lucro (o trimestre e o ano crescendo) com três de preço (perto da máxima, entre as líderes e o mercado em alta).
  • Na B3, de 2011 a 2026, rendeu 18,9% ao ano com o filtro de mercado e bateu o CDI em todos os blocos: foi o único mestre deste módulo a passar no teste completo.
  • Mas quem testa muitas regras sempre acha uma que parece genial por acaso: aprovado é candidato, não prova.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Aplicar os critérios do CAN SLIM que cabem num balanço e num gráfico
  • Medir o valor do filtro de mercado num método
  • Perguntar quantas regras foram testadas antes de acreditar na vencedora

A tese: o resultado bonito não prova nada sem a conta das tentativas

William O'Neil fundou o jornal financeiro Investor's Business Daily e, em 1988, publicou How to Make Money in Stocks. O livro nasceu de um estudo: pegar as ações americanas que mais subiram em várias décadas e perguntar o que elas tinham em comum antes de subir. A resposta virou uma sigla de sete letras.

Na B3, o método foi o único dos mestres deste módulo a passar em todas as etapas do teste. Seria o fim natural do módulo: depois de Graham, Buffett, Greenblatt, Lynch e Piotroski perderem do CDI em algum bloco, um mestre que ganha em todos. Só que a lição mais importante não é o resultado dele. É a pergunta que o resultado obriga a fazer.

A ideia: O melhor resultado de mil tentativas sempre parece genial. A pergunta é quantas tentativas vieram antes dele.

O mecanismo: três forças dentro das sete letras

1. Lucro acelerando (C e A). C é o lucro do último trimestre crescendo forte contra o mesmo trimestre do ano anterior; A, o lucro anual crescendo nos últimos anos. É o pedaço do balanço que o método usa: não o nível do lucro, a direção e a velocidade dele.

2. Força de preço (N, S, L, I). N é algo novo, inclusive uma nova máxima de preço; S, poucas ações em circulação e procura crescente; L, a líder do setor, não a atrasada; I, fundos grandes comprando. É uma mistura rara entre os mestres: O'Neil compra o que está subindo, o oposto do barato de Graham.

3. O mercado a favor (M). Só comprar com o mercado em tendência de alta. O'Neil, que morreu em 2023, dava peso especial a esta letra, porque a maioria das ações acompanha o mercado quando ele cai.

O teste na B3

Todo fim de mês, de maio de 2011 a setembro de 2026, entre as ações com pelo menos R$ 5 milhões por dia, inclusive as que depois saíram da bolsa: lucro do último trimestre 25% acima do mesmo trimestre do ano anterior (C); lucro do último ano maior que o do anterior (A); preço a no máximo 15% da máxima de 52 semanas (N); alta de 12 meses entre os 30% maiores do mercado (L). Entre as que passam, as 10 de maior alta em 12 meses, com pesos iguais. O M foi traduzido por uma régua de tendência do índice: quando o Ibovespa fecha o mês abaixo da média dos últimos 5 meses, tudo vai para o CDI. S e I ficaram de fora, porque a base não tem esses dados de forma confiável.

R$ 14.499 R$ 1.000 no CAN SLIM com o M, mai/2011 a set/2026 · R$ 8.016 a mesma regra sem o M · R$ 4.200 CDI · R$ 2.782 Ibovespa

Com o M, 18,9% ao ano e pior queda de 20%. O CDI fez 9,8%; o Ibovespa, 6,9%. Um sorteio de ações com o mesmo calendário e o mesmo filtro de mercado fez 8,0%. Com custo de operação 2,5 vezes maior, ainda 17,6%. Sem o M, 14,5% ao ano e queda de 34%: o filtro de mercado respondeu por mais de 4 pontos ao ano e por quase metade da queda.

Por blocos, o que separa o CAN SLIM dos outros mestres: +14,5%, +27,8% e +15,2% ao ano, todos acima do CDI. Em 2021, com o Ibovespa caindo 12%, a versão com o M subiu 27%. No período de 2019 a 2026, guardado antes de olhar os resultados, fez 20% ao ano, com o CDI a 9,4%.

Então encontramos a fórmula?

Não. E esta é a lição que fecha a trilha. Quando alguém testa muitas estratégias, algumas vão parecer excelentes só por acaso. É como jogar mil moedas dez vezes cada: alguma vai dar dez caras seguidas, e não porque é uma moeda especial.

Antes de continuar: Imagine 50 regras sem valor nenhum, cada uma com 5% de chance de passar num teste só por sorte. Qual a chance de pelo menos uma passar?

a) 5% · b) Uns 30% · c) Uns 92%

Resposta: Uns 92%. 1 − 0,95^50 = 92,3%. Com 50 tentativas, espera-se que 2,5 regras sem valor passem. Achar uma aprovada é o resultado mais provável mesmo que nenhuma funcione.

A estatística tem uma conta para isso, o Deflated Sharpe. O Sharpe mede quanto uma estratégia rendeu acima do CDI para cada unidade de oscilação. A conta pergunta quão bom o melhor resultado precisaria ser para não ser explicado pela quantidade de tentativas.

Quanto mais regras se testam nos mesmos dados, mais alto o melhor resultado sai só por sorte. O Sharpe do CAN SLIM na B3 foi de 0,57: bom, mas não alto o bastante para afastar o acaso quando muitas regras parecidas já foram testadas nos mesmos quinze anos de bolsa. Por isso ele passou no teste e ainda pode ser sorte.

Cuidado: Quase nenhum livro, curso ou vídeo conta quantas regras foram testadas antes de mostrar a vencedora. Sem esse número, nenhum resultado bonito prova nada.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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