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Tesouro Direto por dentro · Aula 3 de 6

Marcação a mercado: o título seguro que cai 30%

Entre o fim de 2020 e o fim de 2022, o Tesouro IPCA+ 2045 perdeu 30,4% de preço sem calote nenhum. Renda fixa quer dizer que a regra de pagamento é fixa; o preço no meio do caminho muda todo dia.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Marcação a mercado: o título seguro que cai 30%

Em 1 minuto

  • Todo título tem um preço de venda que muda todo dia, e ele anda ao contrário do juro.
  • Quanto mais longe o vencimento, mais o preço balança: o IPCA+ 2045 caiu 30,4% em dois anos sem calote.
  • Quem leva até o vencimento recebe o combinado; a perda só vira perda para quem vende antes.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Explicar por que o preço cai quando o juro sobe
  • Estimar a queda de um título num choque de juro
  • Escolher o prazo certo para cada dinheiro

A tese: o título não quebrou, o juro mudou

No fim de 2020, com a Selic a 2%, muita gente comprou o Tesouro IPCA+ 2045 achando que fazia a coisa mais conservadora possível: título do governo, protegido da inflação, para a aposentadoria.

Antes de continuar: Dezembro de 2020: você compra o Tesouro IPCA+ 2045. Dois anos depois, com a inflação somada ao título no caminho, quanto ele vale?

a) Uns 15% a mais: a inflação de 2021 e 2022 foi alta · b) Mais ou menos o mesmo · c) Uns 10% a menos · d) Uns 30% a menos

Resposta: Uns 30% a menos. Foi de R$ 1.474,88 para R$ 1.026,48: −30,4%. E isso com a inflação de 10,06% e 5,79% sendo somada ao valor do título.

Dois anos depois, o extrato mostrava quase um terço a menos.

Ninguém deu calote. Ninguém atrasou um pagamento. O que aconteceu foi a marcação a mercado: todo título de renda fixa tem um preço pelo qual você conseguiria vendê-lo hoje, recalculado todo dia, e esse preço anda na direção contrária do juro.

A ideia: Renda fixa quer dizer que a regra de pagamento é fixa. O preço no meio do caminho não é.

Quem entende isso para de se assustar com o extrato e, mais importante, para de pôr dinheiro de curto prazo em título longo.

O mecanismo: três forças que movem o preço

1. O preço de hoje é o pagamento futuro descontado. A aula 2 mostrou a fórmula: PU = valor de face ÷ (1 + taxa)^prazo. Pense num título que paga R$ 1.000 daqui a cinco anos e nada antes. A 14% ao ano, ele vale 1.000 ÷ 1,14⁵ = R$ 519,37. Se o mercado passa a exigir 15%, vale R$ 497,18. A 16%, R$ 476,11. O papel é o mesmo, o pagamento final é o mesmo. Só o desconto mudou.

2. O título novo define o preço do antigo. Se o governo passa a vender títulos novos a 15%, ninguém paga por um título antigo de 14% o mesmo preço de antes. O preço do antigo cai até que quem o compre receba os mesmos 15% dos novos. É uma gangorra: de um lado, o juro que o mercado exige; do outro, o preço do título que já existe.

3. O tempo puxa o preço de volta para o valor de face. Por mais que a taxa oscile, no dia do vencimento o título vale exatamente o combinado: R$ 1.000 no Prefixado, o VNA corrigido no IPCA+. Quanto mais perto do fim, menos o preço balança. É por isso que a perda de marcação só vira perda de verdade para quem vende antes.

O caso de 2020 a 2022: −30,4% num título do governo

R$ 1.474,88 o IPCA+ 2045 em 30/12/2020, pagando IPCA + 3,52% · R$ 1.026,48 o mesmo título em 29/12/2022, pagando IPCA + 6,28% · −30,4% sem calote, sem atraso: só o juro mudou

Em 30/12/2020, o Tesouro IPCA+ 2045 pagava 3,52% acima da inflação a quem comprasse. Em 29/12/2022, pagava 6,28%.

O detalhe que torna o número mais impressionante: nesses dois anos a inflação foi de 10,06% (2021) e 5,79% (2022), e toda ela foi somada ao valor do título pelo VNA. Mesmo assim, a alta de 2,76 pontos no juro real exigido pelo mercado venceu a correção. A Selic foi de 2% para 13,75% no mesmo período, e o juro real longo foi junto.

Não foi um acidente isolado. O IPCA+ sem cupom mais longo à venda teve anos de ação, para os dois lados:

Ano Retorno do IPCA+ mais longo, marcado a mercado
2012 +49%
2013 −31,5% (−41% de janeiro de 2013 a janeiro de 2014)
2016 +51%
2019 +63%
2021 −23,2%
2024 −19,2%

Nesses mesmos 20 anos, o título rendeu 13,6% ao ano, contra 10,4% do CDI. O retorno maior veio junto com quedas do tamanho das da bolsa. Não é defeito do título, é o preço de emprestar por décadas a uma taxa fixa.

O caso de outubro de 2026: um mês basta

Não é preciso esperar dois anos. Entre 25/09/2026 e 26/10/2026, as taxas dos prefixados subiram entre 1,1 e 1,7 ponto, e as dos IPCA+, cerca de meio ponto. A Selic, no mesmo período, estava sendo cortada.

Antes de continuar: Nesse mês, o juro do Prefixado 2028 subiu 1,1 ponto e o do IPCA+ 2050 subiu só meio ponto. Qual dos dois caiu mais de preço?

a) O Prefixado 2028, porque o juro dele subiu mais que o dobro · b) O IPCA+ 2050, porque falta muito mais tempo para ele vencer · c) Caíram quase igual

Resposta: O IPCA+ 2050, porque falta muito mais tempo para ele vencer. O Prefixado 2028 perdeu só 0,1%. O IPCA+ 2050 perdeu 9,9% antes da correção pela inflação. O prazo pesa mais que o tamanho da alta.

Pela fórmula de preço, aplicada às taxas de venda publicadas pelo Tesouro nas duas datas:

Título Taxa em 25/09 Taxa em 26/10 Preço no mês
Prefixado 2027 13,67% 13,73% +1,0%
Prefixado 2028 13,79% 14,93% −0,1%
Prefixado 2029 14,03% 15,52% −1,7%
Prefixado 2031 14,19% 15,87% −4,9%
Prefixado 2032 14,25% 15,90% −6,1%
IPCA+ 2035 7,68% 8,14% −3,0%*
IPCA+ 2045 7,34% 7,78% −6,7%*
IPCA+ 2050 7,26% 7,76% −9,9%*

*Variação da cotação, antes da correção pela inflação. O VNA de 15/10/2026 subiu 0,82% sobre o de setembro, o que devolve menos de 1 ponto dessas quedas.

Três lições cabem nessa tabela. O Prefixado 2027, a dois meses do fim, quase não sentiu nada e até rendeu: o tempo já o tinha puxado para perto de R$ 1.000. O Prefixado 2028 teve uma alta de taxa de 1,1 ponto e perdeu só 0,1%, porque tem pouco prazo para a taxa nova agir. E o IPCA+ 2050 perdeu mais que todos com uma alta de só meio ponto, porque o prazo dele é de 24 anos.

A ideia: O tamanho da queda depende menos de quanto o juro subiu e mais de quanto tempo falta.

A aula 4 dá nome e número a isso: duration.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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