Pré, pós e híbrido: três apostas diferentes
Todo título de renda fixa rende de um de três jeitos, e cada um é uma aposta sobre uma variável diferente. Escolher pela maior taxa da vitrine é escolher a aposta sem saber qual é.

Em 1 minuto
- Toda renda fixa rende de um de três jeitos, e cada um é uma aposta: o pós, de que o juro não vai cair; o pré, de que o CDI médio fica abaixo da taxa travada; o IPCA+, de que a inflação supera a embutida nos preços.
- Entre um pré e um IPCA+ do mesmo prazo, a diferença de taxas é a inflação implícita, o empate entre os dois.
- Numa simulação de quase vinte anos, nenhuma das três venceu sempre: cada uma foi a melhor em algum bloco de anos e a pior em outro.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular a inflação implícita entre um pré e um IPCA+
- Achar os empates de cada forma antes de escolher
- Dizer contra qual erro cada forma protege
A tese: não existe a forma que rende mais, existe a aposta que você escolhe fazer
Diante de três títulos na tela, um pagando 13,65% (o CDI), outro 15,78% e outro "IPCA + 8,10%", a tentação é escolher o maior número. Só que os três números não são comparáveis. Um vai mudar a cada reunião do Copom, outro está travado até o vencimento, e o terceiro depende de uma inflação que ninguém conhece ainda.
Toda renda fixa rende de um destes três jeitos: pós-fixado, prefixado ou híbrido (inflação mais uma taxa). Cada um protege contra um risco e expõe a outro. Nenhum ganha sempre. Numa simulação com quase vinte anos de taxas do Tesouro, cada um dos três foi o melhor em algum bloco de anos e o pior em outro.
A ideia: Escolher entre pré, pós e híbrido não é escolher o que rende mais. É escolher contra qual erro você quer estar protegido.
O mecanismo: três formas, três apostas
1. O pós-fixado acompanha o juro do dia. Rende uma porcentagem do CDI ou a própria Selic: Tesouro Selic, CDB pós-fixado, LCI e LCA pós. Se o Copom sobe a Selic, o rendimento sobe junto; se corta, cai junto. O preço quase não oscila, o que faz dele o lugar natural da reserva de emergência. O risco é o oposto do que parece: quem fica no pós aposta, sem perceber, que o juro não vai cair. Em 2019 e 2020, com os cortes até 2%, o CDI rendeu 5,96% e depois 2,76%.
2. O prefixado trava a taxa nominal. Você sabe hoje quantos reais vai receber no vencimento: Tesouro Prefixado, CDB prefixado. Ele ganha do pós se o CDI médio até o vencimento ficar abaixo da taxa travada, e perde se ficar acima. Carrega também um risco que muita gente esquece: se a inflação disparar, os reais combinados compram menos. É uma aposta dupla, contra a alta do juro e contra a alta da inflação.
3. O híbrido trava o juro real. O Tesouro IPCA+ e os títulos privados atrelados ao IPCA pagam a inflação do período mais uma taxa fixa. O poder de compra está protegido; o que fica em aberto é quanto será a inflação. Entre o pré e o IPCA+ do mesmo prazo, a diferença de taxas tem nome: inflação implícita, a inflação que o mercado embute nos preços. A conta é a de Fisher, da aula 3: (1 + taxa do pré) ÷ (1 + taxa real do IPCA+) − 1. Se a inflação que acontecer ficar acima da implícita, o IPCA+ vence o pré; abaixo, o pré vence.
O que isso significa hoje: as três formas lado a lado
Antes de continuar: O Prefixado 2032 paga 15,78% ao ano e o IPCA+ 2032 paga IPCA + 8,10%. Que inflação média faz os dois empatarem até o vencimento?
a) 7,68%: é só subtrair uma taxa da outra · b) 7,10% · c) 4,5%
Resposta: 7,10%. 7,10% ao ano: 1,1578 ÷ 1,0810 − 1. É a inflação implícita, um ponto acima da média de 6,10% do IPCA de 2000 a 2025. A subtração engana, como na aula 3.
Pelas taxas de compra do Tesouro Direto em 26/10/2026, o Tesouro Prefixado 2032 pagava 15,78% ao ano, o Tesouro IPCA+ 2032, IPCA + 8,10%, e o CDI rendia 13,65%. A inflação implícita entre os dois títulos de 2032 é 1,1578 ÷ 1,0810 − 1 = 7,10% ao ano.
A tabela abaixo é uma simulação com a fórmula, não uma previsão: R$ 10 mil por cerca de 5 anos (o prazo até 2032, arredondado), levados até o vencimento, antes do imposto e sem custos. O pré não depende de cenário; os outros dois dependem.
| Cenário para os próximos 5 anos | Pré a 15,78% | IPCA+ 8,10% | Pós (CDI) |
|---|---|---|---|
| Inflação de 3,0% ao ano | R$ 20.805 | R$ 17.113 | — |
| Inflação de 4,5% ao ano | R$ 20.805 | R$ 18.395 | — |
| Inflação de 7,1% ao ano (a implícita) | R$ 20.805 | R$ 20.801 | — |
| Inflação de 9,0% ao ano | R$ 20.805 | R$ 22.712 | — |
| CDI médio de 10% ao ano | R$ 20.805 | — | R$ 16.105 |
| CDI médio de 12% ao ano | R$ 20.805 | — | R$ 17.623 |
| CDI médio de 15,78% ao ano | R$ 20.805 | — | R$ 20.805 |
| CDI médio de 17% ao ano | R$ 20.805 | — | R$ 21.924 |
Leia a tabela como um mapa de empates. O pré empata com o pós se o CDI médio dos próximos cinco anos for igual a 15,78%, mais do que os 13,65% de 26/10/2026. Empata com o IPCA+ se a inflação média for de 7,10%, um ponto acima da média de 6,10% ao ano do IPCA de 2000 a 2025. Para comparar: em 23/10/2026, a mediana do Focus esperava Selic de 11,75% no fim de 2027 e de 10% de 2028 a 2030. O mercado de títulos está cobrando bem mais do que a pesquisa espera. Por que essa distância existe e como usá-la para decidir é o assunto do módulo 7.
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