IPCA+ longo: a taxa de entrada decide o retorno
O Tesouro IPCA+ mais longo rendeu 13,6% ao ano desde 2005, contra 10,4% do CDI, mas caiu 41% em 2013 e rendeu 0,7% ao ano de 2020 a 2026. O que separou um resultado do outro não foi o título, foi a taxa no dia da compra.

Em 1 minuto
- O IPCA+ mais longo rendeu 13,6% ao ano desde 2005, contra 10,4% do CDI, mas caiu 41% em 2013 e rendeu 0,7% ao ano de 2020 a 2026.
- O que separou um resultado do outro foi a taxa no dia da compra, não o título.
- Em 26/10/2026, o IPCA+ 2050 pagava IPCA + 7,64%, e um ponto de alta na taxa tiraria 19,8% do preço: serve só para dinheiro que aguenta esperar.
Ao fim desta aula você vai saber
- Ler a taxa de entrada de um IPCA+ como termômetro, não como garantia
- Calcular quanto o preço cai num choque de 1 ou 2 pontos
- Estimar o juro real que sobra depois do imposto
A tese: o retorno do IPCA+ longo é comprado no dia da entrada, não esperado no histórico
O Tesouro IPCA+ sem cupom mais longo à venda, mantido de dezembro de 2005 a setembro de 2026 e trocado pelo vencimento mais longo sempre que surgia um novo, rendeu 13,6% ao ano. O CDI rendeu 10,4%, e a inflação média foi de 5,4%. Olhando só esse número, o IPCA+ longo parece o melhor título da renda fixa brasileira.
O número esconde o caminho. O título caiu 41% entre janeiro de 2013 e janeiro de 2014. Quem comprou no pico de outubro de 2019 ainda estava 3% abaixo dele em setembro de 2026, quase sete anos depois. De 2020 a 2026, segurar o IPCA+ longo rendeu 0,7% ao ano.
13,6% a.a. o IPCA+ mais longo, de dezembro de 2005 a setembro de 2026 (CDI: 10,4%) · −41% de janeiro de 2013 a janeiro de 2014 · 0,7% a.a. de 2020 a 2026
O que separou os dois resultados não foi sorte nem habilidade. Foi a taxa no dia da compra.
A ideia: Quem compra o IPCA+ longo não está comprando o histórico dele. Está comprando a taxa daquele dia, e o caminho até o vencimento.
O mecanismo: três forças por trás do título que mais rende e mais dói
1. A duration transforma pouco de taxa em muito de preço. Um IPCA+ sem cupom de 24 anos devolve tudo num único pagamento lá no fim. Por isso, qualquer mudança na taxa de mercado mexe no preço como se fosse multiplicada pelo prazo. Com as taxas de compra de 26/10/2026:
| Título | Prazo | Taxa | Taxa +1 ponto | Taxa +2 pontos | Taxa −1 ponto | Taxa −2 pontos |
|---|---|---|---|---|---|---|
| IPCA+ 2029 | 2,55 anos | 8,16% | −2,3% | −4,6% | +2,4% | +4,9% |
| IPCA+ 2035 | 8,55 anos | 8,02% | −7,6% | −14,5% | +8,3% | +17,3% |
| IPCA+ 2045 | 18,55 anos | 7,66% | −15,8% | −28,9% | +18,9% | +41,6% |
| IPCA+ 2050 | 23,8 anos | 7,64% | −19,8% | −35,5% | +24,9% | +56,3% |
A gangorra é assimétrica: cair 1 ponto dá mais do que subir 1 ponto tira. É um título de renda fixa com oscilação de ação.
2. Quem aceita esperar cobra um prêmio. Emprestar ao governo por 25 anos, protegido só da inflação, é aceitar ver o preço desabar no meio do caminho. Por isso o título paga acima do pós. De 2005 a 2026, o CDI pagou em média 4,8% acima da inflação, e o IPCA+ longo foi comprado em média a uma taxa de 6,1%. Quem leva ao vencimento recebe exatamente a taxa contratada, faça o mercado o que fizer.
3. O prêmio não é fixo, e é aí que entra o preço de entrada. Ele sobe quando o mercado tem medo (crise, fiscal, Copom subindo) e some quando todo mundo quer o título. Comprar no medo trava um prêmio grande. Comprar na calmaria trava um prêmio pequeno, e ainda deixa espaço para a taxa subir e o preço cair.
A taxa de entrada, medida
O teste: em cada mês desde julho de 2005, comprar o IPCA+ mais longo pela taxa daquele dia, segurar por 5 anos (trocando pelo mais longo quando surgia um novo) e comparar com o CDI do mesmo período.
Antes de continuar: Comprado abaixo de IPCA + 5% e segurado por 5 anos, em quantas das 46 janelas desde 2005 o IPCA+ mais longo ganhou do CDI?
a) Quase todas: título do governo, protegido da inflação · b) Mais ou menos metade · c) Nenhuma
Resposta: Nenhuma. Nenhuma das 46, por 8,6 pontos ao ano em média. Comprado a IPCA + 7% ou mais, ganhou em todas as 36, por 11,3 pontos.
Os resultados, separados pela taxa no dia da compra:
| Taxa no dia da compra | Janelas de 5 anos que ganharam do CDI | Diferença média ao ano |
|---|---|---|
| Abaixo de IPCA + 5% | nenhuma das 46 | −8,6 pontos |
| De 5% a 6% | 76% | +2,3 pontos (com janelas que perderam 9,8) |
| De 6% a 7% | 95% | +8,6 pontos |
| IPCA + 7% ou mais | 100% das 36 | +11,3 pontos (a pior ainda bateu o CDI por 2,6) |
E repare quando cada faixa apareceu. As taxas abaixo de 5% surgiram de abril de 2012 a maio de 2013 e de janeiro de 2019 a agosto de 2021, logo antes dos dois maiores tombos do título. As de 7% ou mais apareceram em 2005 e 2006, no fim de 2008, em 2015 e 2016 e desde o fim de 2024: momentos de medo, de crise ou de Selic alta.
Cuidado: O IPCA+ longo foi mais perigoso justamente quando parecia mais seguro, com o juro baixo e o título subindo havia anos.
O motivo aparece numa conta simples. Quem compra o IPCA+ 2050 a 7,64% e vende cinco anos depois com a taxa no mesmo lugar recebe 7,64% ao ano acima da inflação. Quem compra a 4,5% e vende cinco anos depois com a taxa a 7,64% recebe −6,5% ao ano acima da inflação: perde poder de compra todo ano, num título "do governo".
A taxa de hoje, sem enfeite
Em 26/10/2026, o IPCA+ 2045 pagava 7,66% e o IPCA+ 2050, 7,64%. Um mês antes, 7,22% e 7,14%; um ano antes, 7,11% e 6,96%. O IPCA+ de 10 anos em prazo constante, a série que a aba Juros acompanha, ficou em 7% ou mais em 79 dos 263 meses desde dezembro de 2004, e em todos os 24 meses desde novembro de 2024.
Ou seja: a taxa de hoje está na faixa que, historicamente, ganhou do CDI em todas as janelas de cinco anos. Isso não é uma garantia, por três motivos que estão na seção "Onde a regra quebra". E o mesmo mês mostra o outro lado: para quem já tinha o IPCA+ 2050, a alta da taxa de mercado de 7,26% para 7,76% entre 25/09/2026 e 26/10/2026 tirou cerca de 9,9% do preço, sem contar a correção pela inflação. Taxa alta pode ficar mais alta.
Quanto sobra depois do imposto
O imposto no vencimento é de 15% sobre todo o ganho nominal, inclusive a parte que só repôs a inflação. Por isso o juro real líquido é menor que a taxa do título. Para o IPCA+ 2050 a 7,64%:
| Se o IPCA médio for... | Retorno nominal ao ano | Juro real líquido de IR ao ano |
|---|---|---|
| 3,5% (mediana do Focus para 2029 e 2030) | 11,41% | 6,97% |
| 5,4% (média de 2005 a 2026) | 13,45% | 6,95% |
Para comparar: um pós-fixado rendendo 4,8% acima da inflação, a média histórica do CDI, ficaria em cerca de 4,2% real depois do imposto, no mesmo prazo. A diferença entre 7,0% e 4,2% é o prêmio que o título longo paga, hoje, para quem aceita a gangorra da tabela acima.
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