Entrar
Estratégia: montar a sua renda fixa · Aula 6 de 6

Renda fixa × bolsa: o erro é sempre chegar tarde

O CDI e a bolsa se revezam na liderança em blocos de anos, e cada bloco só fica óbvio quando já acabou. Quem troca de lado pelo retrovisor entra no vencedor na hora em que ele para de vencer.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Renda fixa × bolsa: o erro é sempre chegar tarde

Em 1 minuto

  • O CDI e a bolsa se revezam na liderança em blocos de anos: do fim de 2010 ao fim de 2015, CDI +64,0% e Ibovespa −37,5%; de 2016 a 2019, bolsa +167,5% contra +41,3%.
  • Cada bloco só fica óbvio depois que acabou, e quem troca de lado pelo retrovisor chega tarde nos dois sentidos.
  • A divisão decidida pelo prazo de cada objetivo, e mantida, nunca é a melhor do bloco e nunca é a pior.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Reconhecer a frase do momento que costuma marcar o fim de um bloco
  • Decidir a divisão entre renda fixa e bolsa pelos baldes, não pelo placar
  • Refazer a divisão com os aportes, sem vender

A tese: o erro não é escolher um lado, é trocar de lado depois que o placar já saiu

"Com o CDI pagando isso, para que bolsa?" A frase volta toda vez que o juro sobe, e ela não é boba: no Brasil, ficar fora da bolsa rende. O problema é o momento em que ela costuma ser dita, quase sempre no fim de um bloco de anos ruins para a bolsa, logo antes de o bloco virar.

Quem a repetiu no fim de 2015, depois de cinco anos de bolsa ruim, ficou de fora do Ibovespa de 2016 (+38,9%) e de 2017 (+26,9%). Quem fez o contrário no fim de 2020, entrando na bolsa porque "renda fixa não paga nada", pegou dois anos de juro subindo.

A ideia: A liderança entre CDI e bolsa alterna em blocos de anos, e cada bloco só fica óbvio depois que acabou.

Este é um curso de renda fixa, e esta aula não diz quanto pôr em bolsa. Diz uma coisa mais útil: que a divisão decidida pelo prazo de cada objetivo, e mantida, ganha de quase toda tentativa de seguir o vencedor.

Os blocos

Com o CDI diário do Banco Central e o Ibovespa:

Período CDI Ibovespa Quem venceu
Fim de 2010 ao fim de 2015 +64,0% −37,5% CDI, cinco anos seguidos
2016 a 2019 +41,3% +167,5% bolsa
2021 e 2022 +17,4% −7,8% CDI, com a Selic de 2% a 13,75%
2023 a setembro de 2026 +57,9% +68,9% bolsa

Nos doze meses até 23/09/2026, a bolsa fez +26,9% e o CDI, +14,5%. Nenhum bloco durou menos de dois anos. Nenhum foi anunciado no começo.

Contando todas as janelas possíveis desde 2000, terminando no fim de cada mês:

Janela Vezes em que o CDI venceu o Ibovespa
12 meses 51% (158 de 308)
5 anos 55% (143 de 260)
10 anos 68% (136 de 200)

Em doze meses, é cara ou coroa. Em dez anos, o CDI venceu dois terços das vezes. Do fim de 2006 até 23/09/2026, o CDI acumulou +569%; o Ibovespa, +318%. No Brasil, a renda fixa é um adversário de verdade da bolsa, e não só "o lugar do dinheiro parado".

+569% CDI, do fim de 2006 até 23/09/2026 · +318% Ibovespa, no mesmo período · 68% das janelas de 10 anos desde 2000 em que o CDI venceu

O mecanismo: três forças que fazem os blocos durarem

1. O juro é preço e concorrente ao mesmo tempo. Quando a Selic sobe, o CDI passa a render mais e, ao mesmo tempo, o lucro futuro das empresas vale menos hoje, porque é descontado a uma taxa maior. A renda fixa melhora e a bolsa piora no mesmo movimento. E um ciclo de juro no Brasil dura anos.

2. Na virada, o movimento se inverte, e começa antes dos fatos. O ciclo de alta costuma terminar com a bolsa barata. Quando o mercado passa a esperar cortes, o mesmo lucro passa a valer mais, e a bolsa sobe antes de qualquer melhora nos resultados das empresas. Quem espera "a economia melhorar" para voltar chega depois da alta.

3. O dinheiro chega atrasado. O investidor migra para a renda fixa depois de uma sequência ruim da bolsa e volta depois de uma sequência boa. É o retrovisor decidindo. Por isso ele chega tarde nos dois sentidos, e paga duas vezes pelo mesmo bloco.

O teste: seguir o vencedor contra manter a divisão

Para medir o terceiro efeito, um teste com os dados do Banco Central: o CDI diário (série 12) e o Ibovespa diário (série 7, que o Banco Central publicou até setembro de 2019). No fim de cada ano, de 2005 a 2017, uma pessoa olha quem venceu nos últimos anos e põe todo o dinheiro no vencedor para o ano seguinte. Outras pessoas mantêm uma divisão fixa, refeita no fim de cada ano para voltar ao peso original. Sem custos e sem imposto, de 2006 a 2018:

Antes de continuar: De 2006 a 2018, o CDI puro rendeu 10,8% ao ano. Quanto rendeu quem, todo fim de ano, punha tudo no vencedor dos últimos 5 anos?

a) Mais que o CDI: uns 13% ao ano · b) Perto do CDI: uns 10% ao ano · c) Menos da metade do CDI: uns 4% ao ano

Resposta: Menos da metade do CDI: uns 4% ao ano. 4,3% ao ano, com um pior ano de −41,2%. Quem esperava cinco anos de evidência chegava justamente quando o bloco acabava. A divisão fixa de 70% e 30% rendeu os mesmos 10,8% do CDI, com pior ano de −3,7%.

Estratégia, 2006 a 2018 Retorno ao ano Pior ano
Vai para o vencedor do último ano 9,9% −41,2%
Vai para o vencedor dos últimos 3 anos 8,6% −41,2%
Vai para o vencedor dos últimos 5 anos 4,3% −41,2%
100% CDI 10,8% +6,4%
70% renda fixa, 30% bolsa 10,8% −3,7%
50% renda fixa, 50% bolsa 10,4% −14,4%
100% Ibovespa 7,7% −41,2%

Três leituras. Primeira: quanto mais longo o retrovisor, pior o resultado. Quem esperava cinco anos de evidência para trocar de lado chegava justamente quando o bloco acabava, e rendeu menos da metade do CDI. Segunda: todas as versões de "seguir o vencedor" pegaram o pior ano da bolsa inteiro, os −41,2% de 2008, porque 2008 veio logo depois de cinco anos de bolsa forte. Terceira: a divisão fixa de 70% e 30% rendeu o mesmo que o CDI puro nesse período, ruim para a bolsa, com um pior ano de −3,7%.

Voltar à trilha Estratégia: montar a sua renda fixaTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.