Renda fixa × bolsa: o erro é sempre chegar tarde
O CDI e a bolsa se revezam na liderança em blocos de anos, e cada bloco só fica óbvio quando já acabou. Quem troca de lado pelo retrovisor entra no vencedor na hora em que ele para de vencer.

Em 1 minuto
- O CDI e a bolsa se revezam na liderança em blocos de anos: do fim de 2010 ao fim de 2015, CDI +64,0% e Ibovespa −37,5%; de 2016 a 2019, bolsa +167,5% contra +41,3%.
- Cada bloco só fica óbvio depois que acabou, e quem troca de lado pelo retrovisor chega tarde nos dois sentidos.
- A divisão decidida pelo prazo de cada objetivo, e mantida, nunca é a melhor do bloco e nunca é a pior.
Ao fim desta aula você vai saber
- Reconhecer a frase do momento que costuma marcar o fim de um bloco
- Decidir a divisão entre renda fixa e bolsa pelos baldes, não pelo placar
- Refazer a divisão com os aportes, sem vender
A tese: o erro não é escolher um lado, é trocar de lado depois que o placar já saiu
"Com o CDI pagando isso, para que bolsa?" A frase volta toda vez que o juro sobe, e ela não é boba: no Brasil, ficar fora da bolsa rende. O problema é o momento em que ela costuma ser dita, quase sempre no fim de um bloco de anos ruins para a bolsa, logo antes de o bloco virar.
Quem a repetiu no fim de 2015, depois de cinco anos de bolsa ruim, ficou de fora do Ibovespa de 2016 (+38,9%) e de 2017 (+26,9%). Quem fez o contrário no fim de 2020, entrando na bolsa porque "renda fixa não paga nada", pegou dois anos de juro subindo.
A ideia: A liderança entre CDI e bolsa alterna em blocos de anos, e cada bloco só fica óbvio depois que acabou.
Este é um curso de renda fixa, e esta aula não diz quanto pôr em bolsa. Diz uma coisa mais útil: que a divisão decidida pelo prazo de cada objetivo, e mantida, ganha de quase toda tentativa de seguir o vencedor.
Os blocos
Com o CDI diário do Banco Central e o Ibovespa:
| Período | CDI | Ibovespa | Quem venceu |
|---|---|---|---|
| Fim de 2010 ao fim de 2015 | +64,0% | −37,5% | CDI, cinco anos seguidos |
| 2016 a 2019 | +41,3% | +167,5% | bolsa |
| 2021 e 2022 | +17,4% | −7,8% | CDI, com a Selic de 2% a 13,75% |
| 2023 a setembro de 2026 | +57,9% | +68,9% | bolsa |
Nos doze meses até 23/09/2026, a bolsa fez +26,9% e o CDI, +14,5%. Nenhum bloco durou menos de dois anos. Nenhum foi anunciado no começo.
Contando todas as janelas possíveis desde 2000, terminando no fim de cada mês:
| Janela | Vezes em que o CDI venceu o Ibovespa |
|---|---|
| 12 meses | 51% (158 de 308) |
| 5 anos | 55% (143 de 260) |
| 10 anos | 68% (136 de 200) |
Em doze meses, é cara ou coroa. Em dez anos, o CDI venceu dois terços das vezes. Do fim de 2006 até 23/09/2026, o CDI acumulou +569%; o Ibovespa, +318%. No Brasil, a renda fixa é um adversário de verdade da bolsa, e não só "o lugar do dinheiro parado".
+569% CDI, do fim de 2006 até 23/09/2026 · +318% Ibovespa, no mesmo período · 68% das janelas de 10 anos desde 2000 em que o CDI venceu
O mecanismo: três forças que fazem os blocos durarem
1. O juro é preço e concorrente ao mesmo tempo. Quando a Selic sobe, o CDI passa a render mais e, ao mesmo tempo, o lucro futuro das empresas vale menos hoje, porque é descontado a uma taxa maior. A renda fixa melhora e a bolsa piora no mesmo movimento. E um ciclo de juro no Brasil dura anos.
2. Na virada, o movimento se inverte, e começa antes dos fatos. O ciclo de alta costuma terminar com a bolsa barata. Quando o mercado passa a esperar cortes, o mesmo lucro passa a valer mais, e a bolsa sobe antes de qualquer melhora nos resultados das empresas. Quem espera "a economia melhorar" para voltar chega depois da alta.
3. O dinheiro chega atrasado. O investidor migra para a renda fixa depois de uma sequência ruim da bolsa e volta depois de uma sequência boa. É o retrovisor decidindo. Por isso ele chega tarde nos dois sentidos, e paga duas vezes pelo mesmo bloco.
O teste: seguir o vencedor contra manter a divisão
Para medir o terceiro efeito, um teste com os dados do Banco Central: o CDI diário (série 12) e o Ibovespa diário (série 7, que o Banco Central publicou até setembro de 2019). No fim de cada ano, de 2005 a 2017, uma pessoa olha quem venceu nos últimos anos e põe todo o dinheiro no vencedor para o ano seguinte. Outras pessoas mantêm uma divisão fixa, refeita no fim de cada ano para voltar ao peso original. Sem custos e sem imposto, de 2006 a 2018:
Antes de continuar: De 2006 a 2018, o CDI puro rendeu 10,8% ao ano. Quanto rendeu quem, todo fim de ano, punha tudo no vencedor dos últimos 5 anos?
a) Mais que o CDI: uns 13% ao ano · b) Perto do CDI: uns 10% ao ano · c) Menos da metade do CDI: uns 4% ao ano
Resposta: Menos da metade do CDI: uns 4% ao ano. 4,3% ao ano, com um pior ano de −41,2%. Quem esperava cinco anos de evidência chegava justamente quando o bloco acabava. A divisão fixa de 70% e 30% rendeu os mesmos 10,8% do CDI, com pior ano de −3,7%.
| Estratégia, 2006 a 2018 | Retorno ao ano | Pior ano |
|---|---|---|
| Vai para o vencedor do último ano | 9,9% | −41,2% |
| Vai para o vencedor dos últimos 3 anos | 8,6% | −41,2% |
| Vai para o vencedor dos últimos 5 anos | 4,3% | −41,2% |
| 100% CDI | 10,8% | +6,4% |
| 70% renda fixa, 30% bolsa | 10,8% | −3,7% |
| 50% renda fixa, 50% bolsa | 10,4% | −14,4% |
| 100% Ibovespa | 7,7% | −41,2% |
Três leituras. Primeira: quanto mais longo o retrovisor, pior o resultado. Quem esperava cinco anos de evidência para trocar de lado chegava justamente quando o bloco acabava, e rendeu menos da metade do CDI. Segunda: todas as versões de "seguir o vencedor" pegaram o pior ano da bolsa inteiro, os −41,2% de 2008, porque 2008 veio logo depois de cinco anos de bolsa forte. Terceira: a divisão fixa de 70% e 30% rendeu o mesmo que o CDI puro nesse período, ruim para a bolsa, com um pior ano de −3,7%.
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