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Crédito privado sem susto · Aula 4 de 5

Quando o emissor quebra: o que acontece com o seu título

O calote não chega no dia do calote. O preço cai antes de qualquer parcela atrasar, e o quanto você recebe se decide anos depois, num plano que a maioria dos credores aprova por você.

por Vinícius Rosa13 min de leituraatualizada em trecho aberto
Quando o emissor quebra: o que acontece com o seu título

Em 1 minuto

  • O preço do título despenca antes de qualquer parcela atrasar: na Americanas, a queda veio no dia seguinte ao anúncio, com a nota de crédito ainda no máximo.
  • Quanto você recebe se decide meses ou anos depois, num plano que a maioria dos credores aprova e que vale também para quem não votou.
  • Na Light e na Raízen, os créditos pequenos tiveram as melhores saídas: a defesa está no tamanho da posição, montada antes da crise.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Entender o que acontece numa recuperação judicial e numa extrajudicial
  • Calcular quanto se recebe em cada opção de um plano de credores
  • Limitar o peso de cada emissor antes de comprar

A tese: o calote não é um dia, é um processo em que você quase não vota

Quem compra um título de empresa costuma imaginar o calote como um evento: um dia a parcela não cai na conta. Os casos brasileiros mostram outra coisa. O preço do título despenca antes de qualquer parcela atrasar, às vezes em horas. Depois, os pagamentos param. E o quanto você vai receber se decide meses ou anos depois, num plano negociado entre a empresa e os maiores credores, que vale também para quem votou contra ou não votou.

A ideia: Num calote, o investidor pessoa física descobre três coisas de uma vez: que o preço do título já era outro, que ele está numa fila, e que a fila é organizada por quem tem mais dinheiro na mesa. A defesa não está em escolher bem na hora da crise. Está no tamanho da posição que você montou antes dela.

Esta aula usa só fatos com fonte, de imprensa ou de documento oficial, listados no material de apoio do curso.

O mecanismo: as três coisas que acontecem quando o emissor quebra

1. O preço antecipa, e quase sem negócios. A marcação a mercado da aula 1 vira queda livre. Como as debêntures têm poucos negócios, num dia de pânico pode não haver nenhum comprador a um preço razoável, e o primeiro negócio fechado vira a nova referência. Quem precisa vender, vende por esse preço.

2. A fila e o plano. Na recuperação judicial, a empresa pede proteção à Justiça, os pagamentos das dívidas sujeitas ao processo ficam suspensos, e ela apresenta um plano que os credores votam em assembleia, por classes. Na recuperação extrajudicial, a empresa negocia antes com uma parte dos credores e leva à Justiça um plano já com adesão; se a adesão passar do mínimo da lei, a homologação vincula todos os credores daquela dívida. Nas duas, as debêntures e os CRAs sem garantia real ficam entre os quirografários, a classe sem garantia, ao lado de bancos e outros credores financeiros.

3. O tempo. Entre o pedido e o primeiro pagamento do plano, passam meses. Entre o pedido e o fim do processo, anos. Durante esse tempo, o seu dinheiro não rende o que rendia, e você não tem como sair sem aceitar o preço do mercado secundário.

Os casos

Antes de continuar: 11/01/2023: a Americanas anuncia inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões. A nota de crédito da S&P ainda é brAAA, a mais alta. No dia seguinte, com que desconto as debêntures mais longas da empresa eram negociadas?

a) Quase nenhum: a nota ainda era a máxima · b) De 10% a 20% · c) De 50% a 60%

Resposta: De 50% a 60%. Deságio de 50% a 60% no balcão, em 12/01/2023, segundo o InfoMoney. A nota só foi cortada no dia 13, e o pedido de recuperação judicial veio no dia 19.

Empresa Pedido Dívida em jogo Títulos com pessoa física O que se viu
Americanas recuperação judicial, 19/01/2023 cerca de R$ 43 bilhões debêntures deságio de 50% a 60% em 12/01/2023
Light recuperação judicial, maio de 2023 mais de R$ 11 bilhões debêntures quase 25 mil pessoas físicas entre os credores; opção de pagamento integral até R$ 10 mil
Raízen recuperação extrajudicial, março de 2026 cerca de R$ 65 bilhões debêntures e CRAs títulos com mais de 50% de desconto no secundário
GPA recuperação extrajudicial, março de 2026 cerca de R$ 4,5 bilhões debêntures e CRIs títulos bloqueados na B3 até a troca

Americanas (2023): o preço que caiu antes do calote

Em 11/01/2023, a Americanas anunciou inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões. A nota de crédito da S&P, brAAA, a mais alta da escala nacional, foi cortada para brA- só em 13/01/2023. O mercado foi mais rápido. Em 12/01/2023, segundo o InfoMoney, as debêntures de prazo mais longo já eram negociadas com deságio de 50% a 60% no balcão, num mercado que ficou sem referência de preço.

Antes de continuar: Uma semana depois, em 19/01/2023, a Americanas pede recuperação judicial. Naquela manhã, quanto valiam, para quem quisesse vender, R$ 10 mil numa debênture da empresa marcados pelo preço da curva?

a) Uns R$ 8.000 · b) Uns R$ 5.000 · c) Uns R$ 2.500 · d) Uns R$ 1.250

Resposta: Uns R$ 1.250. R$ 1.250: um negócio de R$ 10 milhões saiu com desconto de 87,5% em relação ao preço da curva. Na véspera, o desconto já era de 75%.

Em 19/01/2023, a empresa pediu recuperação judicial, com cerca de R$ 43 bilhões em dívidas listadas e mais de 16 mil credores; o pedido foi aceito no mesmo dia pela 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. Naquela manhã, uma das debêntures da empresa foi negociada com desconto de 87,5% em relação ao preço da curva, num único negócio de R$ 10 milhões. Na véspera, o desconto já era de 75%. Em reais: R$ 10 mil marcados na curva valiam, para quem quisesse vender naquela hora, R$ 1.250.

Depois veio o tempo. O plano foi aprovado em assembleia em 19/12/2023, com 91,14% dos credores votantes a favor, e homologado pela Justiça em 26/02/2024. Ele previa R$ 24 bilhões de capitalização (R$ 12 bilhões em dinheiro dos acionistas de referência e R$ 12 bilhões em dívida de bancos convertida em ações), pagamento integral de credores trabalhistas e de micro e pequenas empresas, e leilão reverso e pagamento antecipado com desconto para os credores financeiros. A recuperação judicial só foi encerrada pela Justiça em 19/10/2026, quase quatro anos depois do pedido, e a decisão ainda cabia recurso.

Light (2023): quando o pequeno credor sai na frente

A Light, distribuidora de energia do Rio de Janeiro, entrou em recuperação judicial em maio de 2023, com dívida de mais de R$ 11 bilhões. Entre os credores havia quase 25 mil pessoas físicas com debêntures, mais de 60% do total de credores, segundo o InfoMoney.

O plano apresentado em 14/07/2023 tinha seis opções. A primeira pagava à vista e integralmente créditos de até R$ 10 mil por credor de títulos de dívida. Outras previam conversão em ações, alongamento com garantias de empresas do grupo, um leilão reverso com desconto mínimo de 60% e novas debêntures com desconto de 20%. O plano foi aprovado em 29/05/2024, por credores com 99,12% das dívidas, e homologado em 18/06/2024, mais de um ano depois do pedido.

O detalhe importa: quem tinha R$ 10 mil numa debênture da Light podia receber tudo. Quem tinha R$ 200 mil, não tinha essa saída para o valor inteiro.

Raízen (2026): CRA e debênture no mesmo plano

Em março de 2026, a Raízen pediu recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras sem garantia real, vindas de debêntures, CRAs e bonds. Segundo o Seu Dinheiro, cerca de R$ 11,4 bilhões estavam em debêntures e CRAs, metade em cada, com uma parte grande em mãos de investidores de varejo, e os títulos eram negociados com mais de 50% de desconto. A empresa pediu à Justiça 180 dias sem pagar juros nem principal das dívidas sujeitas ao plano.

A proposta de junho de 2026 previa três caminhos, segundo a mesma publicação:

Opção O que o credor recebe
A (base) 45% da dívida convertida em ações e 55% em novos títulos com vencimentos de 2032 a 2035
B deságio de 80%, com pagamento único em março de 2047
C (pequenos) deságio de 25%, pago em dinheiro, limitado a R$ 9.750 por credor e a R$ 150 milhões no total

Na opção A da proposta, a parte das debêntures incentivadas iria para títulos da Raízen Energia, e os detentores de CRA receberiam parte em novos CRAs, mantendo a forma de título isento. O plano foi homologado em 30/07/2026, com adesão de 81,6% dos credores financeiros quirografários, sobre R$ 61,4 bilhões, e a homologação vinculou também quem não aderiu. Os termos finais de cada opção estão no plano homologado, publicado no site de relações com investidores da empresa; este curso não conseguiu confirmá-los em fonte pública, e por isso descreve a proposta de junho.

GPA (2026): o título que fica parado

Em 10/03/2026, o GPA pediu recuperação extrajudicial para cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras, com adesão inicial de credores com 46% dos créditos. O plano foi homologado em 07/10/2026, com 57,49% de adesão. Com a homologação, a B3 bloqueou as debêntures da 18ª e da 20ª emissões e os CRIs da 1ª e da 2ª séries da 80ª emissão da Virgo, que ficam indisponíveis até a troca por novos títulos. Durante esse prazo, quem tem o título não consegue vendê-lo, nem com desconto.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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