Por que o S&P 500 é tão difícil de bater: 46 de 59 regras perderam por mais de 1 ponto
Reconstruímos o S&P 500 mês a mês desde 1991, com as 1.303 empresas que passaram por ele, inclusive as que quebraram. Na prova cega, quase nenhuma regra de escolher ações ganhou do índice, e a única que ganhou dependia de dois anos de petroleiras.

Em 1 minuto
- Nos EUA, escolher ações para ganhar do índice é mais difícil, não mais fácil: o S&P 500 é o adversário mais duro do mundo.
- Num teste sem viés de sobrevivência e com prova cega, 46 de 59 regras de fundamentos perderam do índice por 1 ponto ou mais de 2019 a 2026.
- Uma regra que dobrava o índice nos anos 90 ficou atrás dele de 2014 em diante: quando um padrão fica conhecido, o dinheiro o apaga.
Ao fim desta aula você vai saber
- Reconhecer um backtest americano inflado pelo viés de sobrevivência
- Comparar uma estratégia com o índice certo, com dividendos
- Decidir quando o índice é a melhor resposta para a parte americana
A tese: o mercado mais fácil de entender é o mais difícil de bater
"Nos Estados Unidos é mais fácil: empresas melhores, mais informação, balanços confiáveis." Para quem compra o índice, talvez. Para quem tenta escolher ações e ganhar do índice, os dados contam outra história: quase todo mundo perde, e perde de pouco, todo ano, o que no fim vira muito.
Esta aula mostra o tamanho da derrota com o teste mais honesto que a pesquisa do Quantor conseguiu montar, e explica por que o resultado faz sentido. Ela fecha a pergunta que o módulo 1 abriu: se o índice sobe puxado por poucas, por que não tentar achar essas poucas?
O mecanismo: três forças contra quem escolhe
1. O índice pesa pelo tamanho, e as gigantes dominaram. O S&P 500 dá mais peso a quem vale mais. Quase todo método de seleção monta carteiras em que cada ação tem mais ou menos o mesmo peso, e por isso começa parecido com a ação típica. De 2019 a setembro de 2026, o S&P 500 de pesos iguais fez 13,6% ao ano contra 17,5% do normal: qualquer carteira de pesos iguais largava cerca de 4 pontos atrás. O módulo 1 mostrou de onde vem essa diferença.
2. É o mercado mais estudado do mundo. Milhares de fundos, com os mesmos dados e as mesmas ideias, procuram os mesmos padrões. Quando um padrão funciona e fica conhecido, o dinheiro corre para ele e o ganho encolhe.
3. O custo e o caixa cobram de quem se mexe. Toda regra que troca ações paga custo a cada troca. Toda regra que sai do mercado fica no caixa, e o T-bill rendeu só 1,6% ao ano de 2011 a 2026. Quem fica quieto no índice não paga nenhum dos dois.
Como montamos o teste
A armadilha dos testes americanos é usar só as empresas que estão no S&P 500 hoje. Elas são as sobreviventes, e qualquer regra parece ótima olhando para elas. Isso tem nome: viés de sobrevivência.
Por isso, o S&P 500 foi reconstruído mês a mês desde 1991, com as 1.303 empresas que passaram pelo índice. Nesse caminho, 572 deixaram o índice (a maioria compradas por outras) e 77 terminaram praticamente sem valor. A base anda junto com o índice oficial: correlação de 0,9998.
Em cima dela rodaram regras de preço (peso igual, baixa volatilidade, 60/40, momentum, regras de tendência) e 59 testes de fundamentos: Graham, Greenblatt, Piotroski, Buffett e Lynch traduzidos em números, valor, qualidade, dividendos. Os balanços entram na data em que foram entregues à SEC, o regulador americano, para a regra não "saber" um número antes de ele existir.
E a regra de ouro: prova cega. Cada regra foi fixada com os dados até 2010 (preço) ou até 2018 (fundamentos) e só depois medida no período seguinte, sem mexer em nada. Custo de 0,05% por ordem; caixa rendendo T-bill.
O resultado: preço
De janeiro de 2011 a setembro de 2026, o S&P 500 com dividendos rendeu +14,3% ao ano. Contra ele:
| Regra, 2011 → set/2026 | Retorno ao ano |
|---|---|
| S&P 500 com dividendos | +14,3% |
| S&P 500 com pesos iguais | +12,2% |
| 60% em ações e 40% em títulos | +10,3% |
| Baixa volatilidade (as que menos balançam) | +9,4% |
| 10 ações que sobem com mais constância | +12,0% |
| As mesmas, com 20 ações | +14,8% (empate) |
Só as regras de momentum puro, que compram as ações que mais subiram nos últimos meses, ficaram acima do índice, com quedas maiores e sem passar no teste que desconta a sorte de ter testado muitas ideias. Quem testa dezenas de regras acha alguma ótima por acaso; por isso o critério exige mais de quem foi escolhido entre muitos.
O resultado: fundamentos
Antes de continuar: De 2019 a setembro de 2026, o S&P 500 rendeu 17,5% ao ano. Dos 59 testes de fundamentos (Graham, Buffett, Greenblatt, Lynch, valor, qualidade, dividendos), quantos perderam do índice por 1 ponto ou mais?
a) Uns 10: os mestres sabem o que fazem · b) Uns 25, metade · c) 46 · d) Todos os 59
Resposta: 46. 46 de 59. Todos os mestres clássicos ficaram atrás: Graham, Greenblatt e Piotroski entre +8% e +13% ao ano; Buffett quantitativo, +13,7%; Lynch, +16,2%.
Na prova cega dos fundamentos o placar foi pior que no preço. E a única regra que passou no critério merece ser olhada de perto.
+17,5% S&P 500 com dividendos, ao ano, 2019 a set/2026 · +22,2% crescimento de dividendos, a única que passou · +18,8% a mesma regra sem 2021 e 2022, contra +23,1% do índice
A regra de crescimento de dividendos fez +22,2% ao ano. Quase toda a vantagem mora em dois anos, 2021 e 2022, quando a carteira se encheu de petroleiras que pagam dividendo variável e subiram com o petróleo: +61% e +9%, contra +29% e −18% do índice. Sem esses dois anos, ela fez 18,8% contra 23,1% do índice, e já tinha perdido no período usado para criar a regra. Outra pista de sorte: as regras campeãs de 2011 a 2018 afundaram de 2019 a 2026, e as lanternas viraram campeãs.
Cuidado: Uma regra que ganhou em dois anos não ganhou em quinze. Olhe o resultado sem os anos excepcionais antes de acreditar nele.
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