Além do S&P: o mundo, a renda fixa em dólar e o título "seguro" que caiu 48%
A carteira lá fora cabe em quatro linhas: o índice amplo, o caixa em dólar, os juros de prazo médio e os satélites. A linha que parece mais segura foi a que mais caiu entre 2020 e 2023, e o resto do mundo não é o seguro que parece.

Em 1 minuto
- A carteira lá fora cabe em quatro linhas: o índice amplo faz quase todo o trabalho; caixa em dólar, juros de prazo médio e satélites são complemento.
- Na renda fixa em dólar, o risco mora no prazo, não no emissor: o Tesouro americano de 25+ anos caiu 51,5% entre 2020 e 2023, o de até 1 ano, 0,3%.
- O mundo fora dos EUA é outro ciclo de liderança, não outra classe de risco: andou junto com o S&P 500 (correlação 0,85) e caiu mais em 2008.
Ao fim desta aula você vai saber
- Montar a estrutura de quatro linhas e dar um motivo para cada uma
- Escolher o prazo da renda fixa em dólar pela queda que ela pode ter
- Avaliar se uma parte fora dos EUA diversifica de verdade
A tese: a linha mais "segura" foi a que mais caiu
Quem abre a primeira conta lá fora, ou procura ETFs de exterior na B3, encontra um cardápio sem fim: ações de empresas que usa todo dia, ETFs de tecnologia, de dividendos, de ouro, de países, de títulos. A tentação é comprar um pouco de tudo para "diversificar".
A carteira que funciona fora do Brasil é curta. Ela cabe em quatro linhas, e a primeira faz quase todo o trabalho. O que surpreende é onde mora o risco das outras três. "Título do Tesouro americano" soa como a coisa mais segura do mundo, e o risco de calote é mesmo mínimo.
Antes de continuar: Entre julho de 2020 e outubro de 2023, quanto caiu, do topo ao fundo, o ETF que compra títulos do Tesouro americano de 20 anos ou mais (com os juros reinvestidos)?
a) Uns 5%: é título do governo americano · b) Uns 15% · c) Uns 30% · d) Uns 48%
Resposta: Uns 48%. −48%, mais que o S&P 500 em boa parte desse período. Em 2022, sozinho, perdeu 31%, contra −18% do ETF do S&P 500. Nenhum calote: só os juros americanos saindo de perto de zero para perto de 5%.
Quem pôs ali o dinheiro "conservador" levou um tombo de bolsa. Esta aula monta as quatro linhas e mostra, com 20 anos de dados, quanto cada uma balança.
O mecanismo: três forças que decidem o que comprar
1. O índice amplo carrega as poucas ações que fazem o resultado. O módulo 1 mostrou que o ganho de um índice vem de uma minoria de ações, que ninguém identifica antes. Um ETF de índice amplo está nelas sem precisar saber quais são. Por isso ele é a linha 1, e tudo o mais é complemento.
2. Na renda fixa, o risco de preço vem do prazo, não do emissor. A mesma gangorra do Tesouro Direto vale para o Tesouro americano: quando o juro sobe, o preço do título que já existe cai, e quanto mais longe o vencimento, maior a queda. O emissor é o mais seguro do mundo; o preço no meio do caminho, não.
3. O resto do mundo é outro ciclo, não outra classe. Ações da Europa, do Japão ou de emergentes reagem às mesmas crises globais que as americanas. Elas mudam quem lidera por uma década, não o que acontece no dia em que o mundo entra em pânico.
Linha 1: o índice amplo, e o que fica fora dele
O núcleo é um ETF de índice amplo de ações. Para a maioria, é o S&P 500, com as cerca de 500 maiores empresas americanas pesadas pelo valor de mercado. Os maiores ETFs desse índice cobram de 0,03% a 0,09% ao ano lá fora; na B3, vários ETFs o replicam em reais.
Mas o S&P 500 é todo americano. A pergunta natural é se vale acrescentar o resto do mundo desenvolvido (Europa, Japão, Austrália: o índice MSCI EAFE). Medimos com o ETF mais antigo que o replica, negociado em Nova York desde 2001, com dividendos, contra o ETF mais antigo do S&P 500:
| Período | S&P 500 | Desenvolvidos fora dos EUA | Emergentes |
|---|---|---|---|
| dez/2001 → dez/2007 | +6,0% ao ano | +14,2% ao ano | — |
| dez/2007 → set/2026 | +11,2% ao ano | +4,6% ao ano | +3,7% ao ano |
| 2025 | +17,7% | +31,5% | +34,0% |
| Pior queda (topo ao fundo, mensal) | −50,8% | −57,4% | −60,4% |
Nos seis primeiros anos, o mundo fora dos EUA rendeu mais que o dobro. Nos 19 seguintes, menos da metade. Em 24 anos-calendário, os desenvolvidos fora dos EUA ganharam em 11.
A ideia: Pôr o mundo fora dos EUA na carteira não reduz o tombo das crises globais. Reduz o risco de apostar uma década inteira num só país.
O número que desmonta a ideia de seguro é a correlação mês a mês entre os dois, de 2002 a 2026: 0,85, numa escala em que 1 é andar exatamente junto. Em 2008, os desenvolvidos fora dos EUA caíram 41,0%; o S&P 500, 36,8%. O que a parte fora dos EUA faz é diluir o risco de um país só liderar por mais tempo do que você espera, como aconteceu de 2008 para cá.
Linha 2: o caixa em dólar
Todo investidor tem um dinheiro esperando: o que acabou de chegar, o que sobrou de uma venda, a reserva para aportar numa queda. Lá fora, ele não deve ficar parado na conta. O equivalente ao Tesouro Selic é o T-bill, o título do governo americano de até um ano. Em 23/10/2026, o de 3 meses pagava 4,04% ao ano em dólar (FRED, série DTB3).
O índice de Treasuries de até 1 ano, com os juros reinvestidos, rendeu 1,87% ao ano de janeiro de 2006 a setembro de 2026, com juro perto de zero em boa parte do período. Não teve nenhum ano no negativo, e a pior queda do topo ao fundo foi de 0,3%. É o lugar do dinheiro que precisa estar lá amanhã.
Linha 3: juros por prazo, a linha que exige cuidado
A partir de um ano de prazo, o título passa a balançar. Os índices ICE de Treasuries por faixa de prazo, com os juros reinvestidos, mostram o tamanho disso de janeiro de 2006 a 25/09/2026:
| Prazo dos títulos | Retorno ao ano | Pior queda (topo ao fundo) | 2022 | Anos no negativo |
|---|---|---|---|---|
| 0 a 1 ano | +1,87% | −0,3% | +1,0% | 0 de 21 |
| 1 a 3 anos | +2,07% | −5,7% | −3,8% | 2 de 21 |
| 3 a 7 anos | +2,86% | −14,4% | −9,4% | 5 de 21 |
| 7 a 10 anos | +3,11% | −23,6% | −14,9% | 6 de 21 |
| 10 a 20 anos | +2,65% | −41,2% | −24,7% | 7 de 21 |
| 25 anos ou mais | +2,44% | −51,5% | −31,9% | 9 de 21 |
Duas leituras. A primeira: a queda cresce com o prazo sem exceção. A de 7 a 10 anos chegou ao fundo em 19/10/2023, exatamente quando o juro de 10 anos bateu 4,98%, depois de ter estado em 0,52% em 04/08/2020. A segunda é a que quase ninguém espera: nos 20 anos, o prazo mais longo não rendeu mais. Os títulos de 25 anos ou mais entregaram menos que os de 7 a 10, com mais que o dobro da queda. Em 25/09/2026, ainda estavam 47,5% abaixo do topo de 2020.
A fórmula é a mesma do Tesouro Direto. A 5% ao ano, um título que paga US$ 1.000 daqui a 20 anos vale US$ 376,89. Se o juro sobe para 6%, vale US$ 311,80: −17,3%. O mesmo ponto num título de 2 anos tira só 1,9%.
Cuidado: O risco de um título não está em quem emite, está em quanto tempo falta para ele vencer.
Juro longo é uma aposta na direção dos juros americanos. Pode fazer sentido para quem tem uma tese e aceita a queda; não é lugar de reserva.
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